Aspirações e contravenções

No início da semana a seleção colombiana se tornou a terceira da América do Sul a trocar de técnico no período pós-Copa América e pré-Eliminatórias. Mas, se a renúncia de Gerardo Martino do comando do Paraguai e a demissão de Sergio Batista, da Argentina, foram diretamente motivadas pelos desempenhos recentes de seus times, a saída de Hernán Darío Gómez, mais conhecido como Bolillo Gómez, se deu por um escândalo extra-futebol.
Testemunhas disseram que Bolillo teria agredido uma mulher em um bar de Bogotá no último sábado à noite. Segundo os depoimentos, tanto Gómez quanto a mulher estariam alcoolizados e discutiram, a princípio por causa de futebol. O agora ex-técnico colombiano então teria partido para cima da mulher e lhe acertado com socos e chutes como se “estivesse lutando com um homem”, de acordo com as testemunhas. Outros relatos dão conta de que a mulher teria chegado ao bar com Bolillo e que os dois teriam se desentendido por outras questões.
Versões distintas e conspirações à parte, o fato é que a Federação Colombiana pressionou Gómez a se demitir após a enxurrada de críticas feitas pela imprensa, pela sociedade, políticos, celebridades e até mesmo patrocinadores da seleção. Em um comunicado anunciando sua saída, Bolillo disse sentir vergonha do que fez, pediu desculpas e considerou a atitude totalmente injustificável. Não é a primeira confusão na carreira do técnico e talvez não seja a última. Nos últimos dias ganhou força a tese de que a Federação Colombiana de Futebol deveria rejeitar o pedido de demissão de Bolillo.
Nas frases feitas diz-se que “deve-se ajudar a pessoa e não puni-la” e que há sérias dúvidas sobre as intenções da mulher agredida, uma vez que até agora ela não registrou nenhum boletim de ocorrência contra o treinador, muito embora o próprio tenha pedido desculpas pelo ocorrido. Por trás dos panos, no entanto, está o projeto da Colômbia para voltar a uma Copa do Mundo e Hernán Gómez é parte importantíssima dessa ambição.
Gómez chegou à seleção colombiana pela primeira vez em 1987, como assistente técnico de Francisco Maturana. Ao lado do treinador participou do descobrimento e afirmação da melhor geração colombiana de todos os tempos, que contava com Valderrama, Rincón, Leonel Álvarez, Andrés Escobar, Aristizábal, Asprilla, Higuita, entre outros. Em 87 a seleção conseguiu o terceiro lugar na Copa América. Em 1990 chegou à Copa do Mundo e avançou às oitavas de final, perdendo para Camarões em um erro histórico de Higuita. Quatro anos depois, Maturana e seus comandados foram à Copa dos Estados Unidos com favoritismo e chances até de sair com o título da competição, mas deixaram o torneio ainda na primeira fase.
Com a saída de Maturana, Bolillo Gómez assumiu a seleção e, repetindo seu predecessor, fez uma boa eliminatória, classificando o time em terceiro, a apenas dois pontos da líder Argentina, e conseguindo mais uma vez a vaga em um Mundial, desta vez o de 1998. Os remanescentes da geração Valderrama, no entanto, não foram capazes de aguentar o tranco de uma Copa do Mundo e acabaram sendo eliminados na fase de grupos do Mundial da França, perdendo a vaga para romenos e ingleses.
Ao término do Mundial, Bolillo assumiu a seleção do Equador, em 1999, e outra vez mostrou seu talento como comandante selecionável, levando La Tri à sua primeira classificação a uma Copa do Mundo. Em 2002, na Coreia e no Japão, os equatorianos ficaram na primeira fase, mas quatro anos depois os remanescentes, comandados por Luis Fernando Suárez, atingiram as oitavas de final na Alemanha.
Depois de passagens sem destaque pela seleção da Guatemala e pelo Independiente Santa Fe, Bolillo voltou ao comando do escrete colombiano com uma clara missão: levar o país de volta a uma Copa do Mundo, após ausências em 2002, 2006 e 2010. No primeiro teste, na Copa América, os cafeteros não foram aquela maravilha, mas mostraram um futebol constante, só derrotado nas desatenções da prorrogação ante os peruanos. Mesmo assim, o sentimento geral era de otimismo, sobretudo pelo excelente futebol que a seleção colombiana sub-20 vem apresentando no Mundial, que já credencia o meia James Rodríguez e outros jogadores a uma chance na equipe de cima, e pela boa safra de nomes selecionáveis como Guarín, Falcão, Dayro Moreno, Armero, Zuñiga e companhia.
Por tudo isso há um forte lobby para trazer Bolillo de volta ao comando da seleção, algo que deverá ser decidido justamente após o término do Mundial Sub-20, que é disputado em território colombiano. Se Gómez ficar, resta saber como aguentará as pressões, que certamente virão de todos os lados. Uma coisa, porém é certa, seu histórico de confusões vai continuar e, para muitos, é justamente esse comportamento que motiva seus bons desempenhos.
Para citar algumas das histórias sobre Bolillo, no vestiário, logo após a defesa escorpião de Higuita contra a Inglaterra, em 1995, o técnico disse ao seu goleiro a seguinte frase: “Vamos aproveitar os louros desta irresponsabilidade, mas na p*** que ***** que você volta a fazer isso”. Como comandante do Equador, em 2001, La Tri fazia um péssimo primeiro tempo contra o Brasil. No intervalo os jogadores acharam sobre uma mesa em vez de garrafas d'água, rolos de papel higiênico, ao que Gómez disse: “Vamos, se limpem, e voltem ao jogo porque vocês se cagaram contra eles”. No segundo tempo o Equador venceu por 1 a 0. Isso sem contar que Bolillo disse ser “chegado a um trago” e que já foi baleado pelo presidente do clube equatoriano Santa Rita após uma discussão.
Entre ônus e bônus, resta saber qual será a decisão e o futuro da Colômbia com ou sem o controverso técnico.



