Argentina

Um Mano Menezes com grife

O Campeonato Argentino começa no fim de semana. Mas quem quer saber? O jogo feio persiste e a ele foram agregadas as dúvidas sobre o futuro. Na última coluna, já falamos um pouco a respeito desse cenário sombrio, que sofreu mais algumas reviravoltas ao longo desta semana sobre as quais prefiro não me alongar. Por quê? Porque vieram daquele cartola que havia dito que não dava um passo atrás para em seguida afirmar que a pressão dos jornalistas fora fundamental para que a tal fusão das duas primeiras divisões fosse suspensa – ou caísse por terra, como quiseram propagandear precocemente alguns. O seu nome? Julio Grondona.

Grondona não é nenhum Ghandi. Com ele, estabeleceu-se um novo modus operandi na Afa. Caem os campeonatos, caem os treinadores. O dirigente vai ao ataque. Não é como um desses seus compatriotas que pairam pelo mundo da bola. Ghandi Antonio López, o técnico argentino que faz sucesso na Liga Indiana com uma filosofia algo revolucionária. A filosofia do futebol pacifista. “Uma equipe que não ataca nem defende não é necessariamente uma má equipe”, proclama Ghandi López.

Grondona discorda. E por discordar resolveu sacar Sergio Batista do comando da seleção ao fim da Copa América. A Argentina não atacava nem defendia. Faltava meio-de-campo. Mas não faltavam jogadores. Logo, a culpa era do técnico. Caem os técnicos, sobem outros. Para o lugar de Batista, já não era mais segredo – se carecia apenas de uma confirmação – vem Alejandro Sabella.

Um Mano Menezes com grife. Alguns vão torcer o nariz para o ex-treinador do Estudiantes. Vão torcer o nariz por ignorância. Sabella é um bom nome, embora não seja perfeito. Bianchi talvez fosse aquele que mais se aproximasse da perfeição. Mas sabe como é, não contava com a simpatia de Grondona por motivos já conhecidos. O futebol tem disso, nem todos aceitam passivamente o que é feito pelos cartolas, ainda que, no futuro, como aconteceu com Bianchi, resolvam voltar atrás em suas convicções em troca de um sonho. Pode ser tarde demais.

E foi tarde demais para Bianchi. Não foi para Sabella. Um Mano Menezes com grife, mas que, se espera, não acabe se rendendo à filosofia dos Grondonas. Ele tem a sua filosofia. Não é a filosofia dos Grondonas, nem a de Ghandi, mas a de trabalhar e não falar. Foi assim durante a sua passagem pelo Estudiantes. Mesmo nos momentos difíceis, Sabella se manteve calado, com o foco sempre no trabalho.

Não precisaria, estudou para ser advogado, fala quatro idiomas, mas prefere falar através de seu trabalho. Ou através dele projetar a sua imagem, como queira. Desse modo, anulou o Barcelona de Lionel Messi e companhia durante boa parte daquela final de Mundial interclubes. A tal ponto de o técnico do time catalão, Pep Guardiola, ter sido obrigado, relembra Claudio Gugnali, um dos auxiliares de Sabella, a pedir para que seus atletas jogassem bola na área.

Esse dado fala muito a respeito do trabalho do ex-jogador do River Plate. Fala ainda mais o dia 29 de agosto de 2008, o dia em que perdeu o seu pai e, ainda assim, se dirigiu aos vestiários e deu a preleção para os jogadores antes do clássico entre Estudiantes e Gimnasia La Plata. Ao final dos noventa minutos, 3 a 0 para a sua equipe. A cada gol, aqueles mesmos atletas que não viram de seus olhos escorrer uma só lágrima correram para abraçá-lo num misto de conforto e admiração por sua força num momento tão complicado.

Sabella admite não conhecê-lo, mas assume ser um bielsista por natureza. Alguém que respeita o seu trabalho e o dos outros. Alguém que dão dá sopa para o azar. Não importam se são 22 jogadores treinando ou mesmo cinco, a sua dedicação é a mesma. Ex-auxiliar de Daniel Passarella, ele chega à seleção argentina sabendo – ou ao menos devendo saber – que de nada valem esses detalhes que postergaram o anúncio de sua contratação. Os resultados é que contam.

 

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