Riquelme e sua harpa
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Ontem, por volta das 2h da tarde, Riquelme era homenageado em Barinas, Venezuela, por sua trajetória e “exemplo para gerações futuras”. Recebeu das autoridades locais três instrumentos musicais: harpa, quatro e maracas (ou algo assim). Dez horas depois dali, entrou em campo para a estreia do Boca Juniors na Libertadores.
Ao que consta, o jogador não tem como hábito tocar harpa ou nada parecido. Mas, segundo os cartolas em La Bombonera, ainda segue tocando o destino do time argentino. Ou pelo menos seria essa a opinão do técnico Julio César Falcioni, segundo relatou um repórter da Radio la Red nesse início de quarta-feira. “(Riquelme) Comandou o clube no lugar de (Jorge) Ameal e vai comandar no seu lugar também”, teria dito Falcioni ao atual presidente xeneize, Daniel Angelici.
Somente para colocar os pingos nos is, cabe identificar os personagens dessa trama. Riquelme, bem, dispensa apresentações. Ameal é Jorge Ameal, último presidente do Boca, da ala kirchnerista e responsável por renovar o contrato de Riquelme por quatro anos sob circunstâncias em que se comenta nos bastidores só ter faltado dar ao meia as chaves de La Bombonera, enquanto que Angelici é o atual mandatário boquense após vencer as eleições em dezembro passado, com o apoio de Mauricio Macri, ex-presidente do Boca e rival de Cristina Kirchner, e, ainda mais importante, ex-tesoureiro de Ameal.
Angelici abandonou a gestão passada justamente por não concordar com os termos do novo contrato de Riquelme. Ou seja, bateu de frente com Ameal e também com o Riquelme. O que nos leva a crer que depois da discussão que envolveu Riquelme e Falcioni ao fim do jogo de ontem, ainda nos vestiários, no empate em 0 a 0 entre Boca e Zamora, não necessariamente o craque da camisa 10 levará a melhor nessa história. (Aliás, parênteses, pode ser que se repita aí a mesma história do Villarreal em que o meia perdeu a briga com o chileno Manuel Pellegrini, ex-River, em condições parecidas)
Tudo se encontra ainda no campo da especulação. Mas é bom que essas coisas aconteçam – sobretudo, nessa altura do campeonato, ainda em sua primeira rodada. Prometo que repito isso pela última vez: esse Boca não convence. Se você quiser se apegar aos números (32 jogos e 10 meses invictos), tudo bem. Opção sua. Porém, aquela tal imagem do início da década já se perdeu. Você não aceita, muitos no clube também não aceitam. A própria escolha de Falcioni, ex-Banfield, para o banco de reservas da equipe levou em conta supostas semelhanças com o Mago Bianchi. Passado alguns meses em La Bombonera, é quase consenso: elas não existem.
E o pior: Falcioni não aceita ter o seu trabalho questionado. Segundo colegas argentinos, o técnico suportou o quanto pôde a situação de ver o seu desempenho contestado enquanto não era campeão. Após o título do Apertura, se mostra chateado com o fato de não ser reconhecido. Pela mídia e também pelos atletas. Aí, a saltar aos olhos, Riquelme: viu o veterano reclamar da postura do time ao longo da pré-temporada, contra o Santamarina, pela Copa Argentina, e mais uma vez ontem, frente o Zamora.
Na estreia na Libertadores, ficou claro, faltou um parceiro para o meio na armação. Nisso, talvez, um golpe de azar. Clemente Rodríguez, que dá o apoio por ali, pela esquerda, se lesionou no aquecimento. Em seu lugar, jogou Facundo Rocanglia, de muito pouca intimidade com a posição e, sobretudo, com aquele lado do campo. O resultado foi um Boca apático e que criou pouquíssimo.
Nada muito diferente do que se verá – só não se sabe até quando – nessa Libertadores. De nada adianta ficar se prendendo a informações como aquelas que dão conta da campanha do time em seu último título do torneio, em 2007 – na ocasião, o Boca estreou com um empate em 0 a 0 na Bolívia. Mais uma vez, é aquilo: se quiser se prender à ilusão de que este Boca ainda é o bicho-papão de antes, OK. Posso te garantir apenas que ele não é.