Argentina

Riquelme e a mística que ainda se mantém

Na última renovação de contrato de Riquelme, costuma-se dizer, o Boca só não perdeu a La Bombonera. Ou “perdeu”. Algo assim, geralmente definem. Dá uma ideia do quanto o jogador levou na arrastada novela que travou com dirigentes do clube e teve como alguns de seus personagens times brasileiros – ou você não se recorda de como sonharam, na época, Flamengo, Cruzeiro e outros? Pois bem, o meia continuou por lá e tem ainda mais três anos de contrato.

Pretende cumpri-los. Para tanto, há aí, nessa matemática, um peso das eleições presidenciais do próximo mês. Em caso de vitória da situação, certeza que irá. Na hipótese da oposição, ele coloca nas mãos do candidato, mas muito provavelmente seguirá entre os xeneizes. É inimaginável pensar que um cartola chegará à equipe e irá bater de frente com a sua principal estrela. Não irá.

É isso, por exemplo que me sugeriu, em papo por e-mail, algum tempo atrás, um dos membros da oposição boquense, Claudio Giardino. Ele lista uma série de razões pelas quais essa renovação de Riquelme, da forma que se deu, escandalosa para muita gente, seria justificável. Vamos a elas:

1) “Em primeiro lugar, porque a cifra que se pagou foi pela compra dos direitos que pertenciam ao jogador e os seus salários pelos quatro anos de contrato”.

2) “Em segundo lugar, pela revalorização que Riquelme produz nos atletas que compartilham o campo ao seu lado. O exemplo mais claro é (Nico) Gaitán, vendido ao Benfica por uma cifra impensada para um jogador com menos de 30 partidas na primeira divisão”.

3) “Por último, porque é uma figura de alcance mundial que não precisa provar que pode jogar com a camisa do Boca, algo que a muitos atletas que vieram ao clube, ao longo da história, lhes resultou difícil de mostrar”.

Por essas declarações, se tem uma dimensão do tamanho do prestígio de Riquelme em La Bombonera. Um prestígio que pode ser mensurado a partir de seu salário, de quase R$ 400 mil no clube. Ainda assim, há quem veja o Boca em melhor forma na sua ausência. Foi este, inclusive, um tema de grande debate, no fim de semana, nos principais programas esportivos do país. E a conclusão, para muitos, foi a de que o time se vira melhor com a dinâmica imposta por seu substituto, Cristian Chávez, do que com a sua cadência. Uma discussão algo polêmica que precedeu em alguns dias o alardeado interesse do Palmeiras em sua contratação. De novo.

É como se os clubes brasileiros ainda vivessem dessa mística que podem não saber, mas já se perdeu, ou perdeu força, há algum tempo. A mística de Riquelme. De Carlos Bianchi. E de La Bombonera – basta ver os números da última campanha do Boca em casa. É hora de seguir adiante, ir atrás de novos jogadores. Lanzini está aí para mostrar que, apesar da seca na base, eles seguem surgindo por lá. Mas, bem, o Palmeiras aparentemente quer Riquelme. Esclarecido isso, resolvi então perguntar o amigo Ezequiel Fernández Moores, colunista do La Nación, o que ele acha da possibilidade.

“É curioso que lhe peça Felipão, porque Román gosta de um futebol oposto ao seu. Ainda que, a rigor, o Boca de Bianchi também fosse defensivo, mantivesse muito a bola em seus pés, mas não costumasse atacar cegamente”.

Para Ezequiel, Riquelme ainda vai além dessa mística citada por mim. Continuaria, segundo ele, como um jogador fabuloso, que obviamente não conserva a mesma resistência física e se lesiona com frequência porque nunca gostou, mesmo, de treinar. É um verdadeiro treinador em campo, um jogador difícil porque exige lealdade e impõe hierarquias.

Num Palmeiras que carece de ídolos e, sobretudo, de talento, Riquelme cairia bem. Não parece que virá. Talvez seja o caso de seus dirigentes deixarem a mística para trás e pensarem um pouco mais em mercado.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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