Quem comanda a Argentina tem medo
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Na Argentina, há quem diga, se joga um futebol muito mais bonito na segunda divisão do que na primeira. É o que pensa o técnico do River Plate, Matías Almeyda. E o ex-volante sabe o que fala. Ao longo da carreira, passou por vários gramados do país e chegou a se arriscar até no showbol. Ou seja, fala com conhecimento de causa. Não que isso lhe garanta maior crédito.
Rival do Boca, Julio Falcioni, por exemplo, preferiu ironizá-lo ao escutar o comentário. “Por isso está lá”, respondeu. Almeyda está na segunda divisão, Falcioni na primeira e Alejandro Sabella na seleção. Todos atrás de um objetivo em comum: um jogo que, independente das opiniões, seduza. Por seduzir, podemos entender assegurar prestígio. Jogar no River hoje não assegura, no Boca em busca da aura perdida tampouco. E na seleção, afirma Tévez, igualmente.
São muitos anos sem um título que seja. Desde 1993, para ser mais preciso. De lá pra cá, só fracassos – se deixarmos de lado, obviamente, as conquistas na base. Poderiam ser, mas não foram garantias de sucesso mais adiante. Pelo menos na seleção. Messi esteve nesses times e ainda se encontra na caça por aquela tal química que o faça cair no gosto dos torcedores. Não falta futebol. Talvez falte esse jogo, estilo de jogo que River, Boca e seleção procuram.
Ele não veio nesta sexta-feira. Vitória magra sobre a Venezuela, por 1 a 0, na Índia. Foi um bom começo. Como também foi o começo de Sergio Batista, frente a Escócia, em sua época. Com Sabella, porém, se sabe que a tentativa é ir além. Não ir além do que Maradona fez ou, para muitos, deixou de fazer. Muitos podem traduzir isso por deixar Lionel Messi confortável em campo. Não é isso. Não é ficar falando sobre como Messi jogou ou não jogou pela Argentina. As coisas passam por seus pés, mas não dependem exclusivamente deles. Parafraseando Tévez, esses mesmos jogadores que um dia imaginaram e hoje realizam o sonho de acordar ao lado do craque do Barcelona são também responsáveis.
Sabella tem consciência disso e prepara campo para atingir a sua meta. Promete nunca renunciar a jogar bem. Não é político, mas promete, faz disso o seu mantra. No entanto, você não o verá, tal como Batista, repetir isso por diversas vezes. Até porque, e já dá pra prever isso, as suas aparições na mídia não serão tão frequentes quanto a de seu antecessor, o mesmo que insistia em sua ideia de barcelonizar a Argentina para depois voltar atrás no discurso.
Denota insegurança no que se fala. Acarreta perda de prestígio. E Sabella já deixou claro, trabalha contra isso. Não quer que mais declarações como a de Tévez se repitam. Vai em busca do jogo. Não será o jogo pragmático que marcou o seu Estudiantes ou mesmo o jogo que encanta do Barcelona. É o jogo perdido da Argentina, com o meio-campo existindo no gramado. Algo que se perdeu nos últimos anos e que o técnico tenta recuperar com o bom passe daquele que pouco aparece, mas que, segundo Riquelme, é tão bom quanto Messi, Lucho González.
Não é pra tanto. Não foi pra tanto hoje. Mas já dá pra projetar uma Argentina segura pela frente. Nada de invenções. Sabella não é afeito a elas e teme o que podem gerar. Em seu conceito, quem não tem medo é um irresponsável. Ele tem e tem uma ideia na cabeça: fazer os albicelestes recuperarem o seu jogo e o seu prestígio. Para não dar margem a qualquer que seja a opinião.