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Os rumos da superfinal na Bombonera também foram escritos a quatro mãos, por Rossi e Armani

Ao longo das últimas edições da Copa Libertadores, ter um goleiro acima da média ou em fase inspirada se tornou fundamental aos campeões. A maioria absoluta dos clubes que se consagraram no torneio contaram com partidas inesquecíveis de seus camisas 1. A superfinal entre Boca Juniors e River Plate, entretanto, trazia o embate particular entre dois arqueiros em realidades bastante distintas. Franco Armani precisou de poucos meses para ser idolatrado pela torcida millonaria e colecionar atuações gigantescas no arco da equipe – incluindo o clássico da Supercopa, contra os próprios rivais. Agustín Rossi, por sua vez, vive o momento que talvez nunca mais se repetirá em sua carreira. De tão questionado, foi parar no banco xeneize meses atrás, mas o acaso da lesão de Esteban Andrada deu nova chance ao camisa 1. E ao término do primeiro jogo, em La Bombonera, ambos ficaram em evidência. Não exatamente como se poderia imaginar, embora igualmente decisivos ao resultado.

Rossi se manteve como o principal nome da meta do Boca Juniors durante o último bicampeonato argentino, mas sem convencer. O arqueiro de 23 anos chegou a La Boca como uma promessa e, ao mesmo tempo em que faz defesas impossíveis, também comete erros inadmissíveis. Inconstante e vulnerável em alguns fundamentos, não passa confiança necessária a alguém de sua posição. Assim, ainda que Guillermo Barros Schelotto o bancasse publicamente, os xeneizes buscaram um novo goleiro para a reta final da Libertadores. Investiram alto em Esteban Andrada, que sabe jogar com os pés e vinha de uma ótima campanha no torneio continental, ajudando a levar o Lanús à decisão em 2017. Não houve muitas dúvidas sobre quem seria o titular a partir de então, até que a cabeçada de Dedé fraturasse a mandíbula do novato. As interrogações ao gol voltavam a assombrar a Bombonera, diante do longo período de recuperação de Andrada.

A contratação de um novo goleiro se tornou questão vital ao Boca Juniors a partir de então. A busca de um reforço emergencial tomou as manchetes e vários arqueiros de reputação na América do Sul entraram na mira dos xeneizes. Ao final, escolheram Carlos Lampe, que acumulava ótimas partidas com a seleção boliviana nas Eliminatórias. Mas, desta vez, o técnico Guillermo Barros Schelotto não arriscou. Preferiu dar um voto de confiança a Rossi e privilegiar a vivência que ele tinha com os xeneizes. Com ótimas defesas contra Cruzeiro e (principalmente) Palmeiras, o jovem auxiliou na sequência da Libertadores. De qualquer forma, a pressão aumentava bastante na Bombonera.

A certeza que falta aos xeneizes é a que sobra ao River Plate. Os millonarios sofreram para encontrar um substituto a Marcelo Barovero, herói na conquista da Libertadores de 2015. Todavia, não seria exagero dizer que trouxeram alguém até melhor. Armani surgiu como uma enorme oportunidade de mercado. O goleiro colecionou taças com o Atlético Nacional, também protagonista na Libertadores 2016, mas queria cumprir o sonho de disputar uma Copa do Mundo. Para tanto, pretendia se transferir a um clube da Argentina, que o deixasse em destaque e convencesse Jorge Sampaoli. O clube de Núñez pagou relativamente caro para um camisa 1 já veterano e certamente não se arrependeu. Os €3,15 milhões desembolsados vão valendo por cada centavo.

A unanimidade de Armani é tão grande que os próprios torcedores do Boca Juniors passaram a pedi-lo à meta da seleção. E não sem motivos, com uma série de milagres e atuações impressionantes. A invencibilidade enorme sustentada pelo River Plate em 2018 se deveu bastante ao arqueiro, que parece gostar das grandes ocasiões. Participaria ativamente da caminhada dos millonarios rumo à final continental, com direito a uma defesa sensacional contra o Independiente, digna de ser apontada como a melhor do torneio nesta temporada. Em uma comparação entre os dois goleiros, só um maluco (ou um boquense extremamente fanático) apontaria Rossi acima de Armani. Mas o primeiro tempo na Bombonera foi justamente do preterido.

Se o River Plate não saiu em vantagem no placar, os méritos de Rossi foram totais. O goleiro conseguiu segurar os rivais, que tinham mais posse de bola e chegavam com mais perigo ao ataque. Foram duas defesas essenciais nos primeiros 15 minutos. Primeiro, saltou para buscar no ângulo a cobrança de falta realizada por Pity Martínez. No entanto, faria ainda melhor logo depois, em cabeçada à queima-roupa de Rafael Santos Borré. A bola tinha endereço certo, mas o arqueiro se esticou todo para realizar uma intervenção decisiva. Daquelas que podem mudar a história de uma partida.

Do outro lado, Armani viveria a sua derrapada. Justamente Armani. Se as mágicas ainda são frequentes, o veterano também exibe recentemente algumas de suas vulnerabilidades, como nas bolas cruzadas em direção à área. E ele poderia ter feito melhor no lance que assegurou a vantagem ao Boca Juniors. Na primeira bomba de Wanchope Ábila, rebateu como dava. Logo depois, tocou a bomba que deveria ter tomado um rumo diferente, mas morreu nas redes. Jogada difícil, embora a bola estivesse ao seu alcance. Ao menos os companheiros de Armani ajudaram logo na sequência, em arremate de Lucas Pratto que Rossi ficou a um triz de desviar. E a virada não veio por causa do arqueiro xeneize, rebatendo com as pernas o sem-pulo de Pity Martínez. Ao final do primeiro tempo, a balança pendeu mesmo ao camisa 12 questionado, quando Darío Benedetto recolocou os boquenses em vantagem, numa cabeçada que não deu chances ao goleiro millonario.

O ritmo do jogo mudou no segundo tempo. Rossi e Armani ficaram menos expostos ao ímpeto dos adversários. No máximo, precisavam se antecipar às jogadas e transmitir segurança. Rossi não teve o que fazer diante da bola desviada por Carlos Izquierdoz, em tento contra que valeu o empate ao River. Contudo, a igualdade só estaria realmente sacramentada graças àqueles que usam luvas. Graças a Armani, que viveu a sua redenção já nos instantes finais. Pode-se discutir os deméritos de Benedetto no lance, ao desperdiçar a chance com total liberdade. Mas não se negam os muitos méritos do goleiro millonario, por seu tempo de reação e a sua agilidade para fechar o ângulo do centroavante, bloqueando um chute decisivo. Mais um milagre à sua coleção.

Dentro de duas semanas, Armani e Rossi terão uma igual prova de fogo. O millonario poderá se eternizar como um dos melhores do continente nesta década. Já o xeneize tentará superar as incertezas para também gravar o seu nome na história do clube. A exibição deste domingo, aliás, se torna importante para confirmar a titularidade de Rossi, enquanto Andrada entra na reta final de sua recuperação e surgem rumores sobre sua presença no Monumental. Se o ímpeto de Boca e River seguir afiado em Núñez, certamente os goleiros serão bastante exigidos. Para que esta decisão seja não apenas um momento inesquecível, mas também um ponto de partida ao novo capítulo de suas trajetórias. A superfinal se transforma a partir de quatro luvas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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