Mudanças. Ou não
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Enquanto o campeonato argentino não começa, o Governo e o Comitê Executivo da Associação de Futebol Argentino (AFA) vão promovendo mudanças estruturais e políticas no certame, que começa dia 3 de agosto. O que, diga-se, tem sido algo bem corriqueiro entre temporadas. E pior: algumas destas mudanças são inspiradas no Brasil. Mas na prática, o que vai mudar?
O novo torneio, que seria nomeado de Inicial (antigo Apertura) e Final (antigo Clausura), se chamará Torneo Eva Perón e Copa Evita Capitana, respectivamente. Proposta da presidente Cristina Kirchner, em homenagem aos 60 anos da morte de Eva Perón, primeira-dama, esposa de Juan Domingo Perón, presidente da Argentina por três oportunidades, e ativista política. Enquanto, Evita Capitana trata-se da versão feminina da marcha “Los muchachos peronistas”.
Todavia, politizar nomes não é novidade. Desde que o Governo passou a “controlar” e transmitir todos os jogos do campeonato argentino através do programa Fútbol para Todos, a pratica de politizar os nomes dos torneios tem sido constantes. Vide o último torneio ter sido nomeado como Torneo Crucero General Belgrano – e o troféu do mesmo chamar-se Copa Gaucho Rivero -, em homenagem aos 30 anos da Guerra de Malvinas; Antes, se chamara Torneo Nestor Kirchner – Copa Malvinas Argentinas e Copa René Favaloro.
Mas vamos às mudanças. Ou nem tanto. A decisão de só existir um campeão por temporada, que havia sido anunciado – e, diga-se de passagem, contemplava o planejamento das equipes valorizando o torneio -, foi modificada no dia seguinte, brindando assim a falta de planejamento dos clubes e o descrédito da federação. Além dos dois campeões por temporada, haverá também um “supercampeão”. Quando os campeões de cada torneio se enfrentarão numa final em campo neutro.
Ademais, não haverá mais Promoción. Contudo, o sistema de promedio segue vigente. As três equipes que obtiverem os piores saldos no final da temporada serão rebaixados diretamente a B Nacional. Vale ressalta que Quilmes e River Plate, recém-ascendidos, logo, iniciam zerados; Independiente, Newell’s Old Boys e San Lorenzo vêm logo acima. San Martín de San Juan, Unión e Atlético Rafaela estão mais cômodos, mas não livres.
Como se fosse a cereja no bolo, o Governo apresentou um sistema criado pelo Ministério do Interior e Transporte, inspirado em terras tupiniquins, segundo o próprio Governo, com detector de dados biométricos para identificar torcedores com antecedentes criminais. Estes, por ora, só serão usados na capital. A AFA ficará a encarregada de implementá-lo, junto ao Ministério de Segurança. Mas, eis que o software brindou a eficiência argentina inspirada no Brasil: o sistema não reconheceu as impressões digitais de Cris Kirchner. É cômico, embora trágico.
As mudanças que nem na prática, tampouco na teoria existiram fazem-se mais do que necessárias. Extinguir a Promoción é diminui a injustiça, contudo, a manutenção dos promedios mostra que devemos manter os pés atrás. O torneio curto, que por algumas horas ficou implícito, voltou a ser explicito. E o Governo deu mais um passo para desvincular-se da ideia de parte do problema para tornar-se solução. Em outras palavras: a Argentina tem se inspirado no Brasil não apenas na organização, mas no velho lema: “o País que muda para continuar do jeito que está”.