Argentina

Mudança de perfil

Naquele 12 de dezembro, o primeiro abraço foi para o goleiro Orion. O segundo restrito aos líderes – Verón, Desábato e Rodrigo Braña. Em meio aos festejos, Alejandro Sabella balançava a cabeça negativamente enquanto caminhava em direção aos vestiários. Não que estivesse contrariado com tudo aquilo que via, com a conquista de mais um título com o Estudiantes. Nada disso. Fazia jus ali aos que os argentinos chamam de “perfil baixo”. Relegava aos jogadores o protagonismo na festa.

É um técnico de poucas palavras e de muito trabalho. Prefere deixar que os outros falem. Até mesmo por ele às vezes. Verón levava bem esse papel. Nesta quinta-feira, falou. E muito. Alguns diriam, não teria sido essa a primeira vez que o faria em prejuízo a Sabella. Mas talvez definitiva.

O craque do Estudiantes, uma das referências da equipe que vem dominando o futebol argentino nos últimos anos, se mostrava desgostoso com a decisão do treinador de abandonar o clube a poucos dias da estreia na Libertadores e no Torneio Clausura. Não disse, mas aparentava sentir-se traído. Ao lado do zagueiro Desábato, ouviu as explicações do comandante e, ainda assim, não conseguiu ser convencido.

Aos jornalistas, Sabella não se esforçou muito também. Na saída da reunião apenas se despediu dos setoristas do time. Deixou mais uma vez a palavra para os outros, como se acostumou a fazer desde a sua chegada em City Bell, em 15 de março de 2009. Deixou também um legado que lhe rendeu prestígio e alguns admiradores pelo mundo. Mauro Boselli, ex-atacante do seu Estudiantes e hoje no Genoa, por exemplo. “Se foi um grande técnico, de um grande clube. Uma lástima”, escreveu o jogador em sua página no Twitter.

Uma lástima. Assim definiram pela Argentina o fim do ciclo de Alejandro Sabella em La Plata. Algo, porém, que, nas poucas palavras do treinador, já vinha se mostrando amadurecido. Não necessariamente por uma suposta rede de intrigas que tinha como ponto central o capitão Verón. Ou mesmo a falta de um centroavante, o camisa 9 do qual ele tanto se ressentiu ao longo do último semestre. Passava, na verdade, pela manutenção de um trabalho que, como o próprio Sabella dizia, já havia se tornado referência no país, alvo de cópia.

“Aos jogadores, é preciso motivá-los, tirar de dentro deles a força de vontade, o orgulho para atuar. Acontece que é muito mais fácil chegar ao topo do que se manter lá. E a esse Estudiantes, como já está há alguns anos por cima, fica ainda mais difícil”, afirmou, em entrevista ao jornal “Clarín”.

Proféticas palavras? Talvez. Não deixa de ser curioso que, em meio a isso, o técnico tenha seguido com o seu trabalho, planejando uma temporada que parecia ter nele mais uma vez uma figura central, caminhando na sombra dos principais jogadores da equipe. Não considerava aquele papel, a atenção que recebia, a sua profissão injustos. Medindo sempre as palavras, para ser mais exato, preferia “estressante”, comentou ao “La Nación”. Sabia que, nas derrotas, na crise, o primeiro a ser derrubado seria o treinador. Não parecia correr esse risco, ser o seu caso, mas, ainda assim, preferiu sair. Numa decisão que não condiz bem com alguém que sempre carregou a pecha de perfil baixo.

Sabella se rebelou. Talvez na pior hora. Manchando o seu currículo e também o seu legado. Abandonou o seu lema, o trabalho.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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