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Mais do que a vencer, o pragmatismo ajudou o Brasil a jogar bem e a recobrar seu moral

Ouvir as frases do já clássico “Decime que se siente” causa um estranhamento natural. Afinal, os argentinos reivindicam para si o título de ser “papá” do Brasil. Algo que não se vê tanto em campo, ainda mais quando Dunga está à frente da Seleção. Por mais que os primeiros minutos tenham indicado um massacre, a Albiceleste perdeu outra vez. O pragmatismo e a eficiência dos brasileiros valeram bem mais do que a pressão inicial da Argentina, resultando na vitória por 2 a 0 no Ninho de Pássaro, em Pequim. E, mais importante que o “título” do Superclássico das Américas, é o reforço no moral que o resultado dá ao Brasil.

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Não é possível dizer que foi uma partida em que a Seleção jogou bonito. Mas jogou bem, e isso valeu o placar. Ao melhor estilo de Dunga, o sistema defensivo funcionou, especialmente na meia hora inicial, quando a Argentina mais sufocou. Enquanto os rivais rodavam a bola, o Brasil se entrincheirava ao redor de sua área e dava poucos espaços para as finalizações. Quando precisava, não se furtava a cometer faltas. E deu até sorte quando o árbitro não marcou um pênalti claro cometido por Miranda. Aos 25 minutos, eram sete finalizações a zero para a Albiceleste, além de 64% de posse de bola.

Estava claro que o Brasil jogava por uma mísera chance no contragolpe, com Neymar e Diego Tardelli isolados no ataque. E a grande oportunidade veio a partir de um erro da defesa argentina, que o atacante do Atlético Mineiro não perdoou. Na sequência do primeiro tempo, a Seleção ainda ameaçou em mais um contragolpe puxado por Neymar. Enquanto isso, Messi desperdiçou o empate no pênalti defendido por Jefferson.

Na volta do intervalo, os brasileiros deram sequência ao bom fim de primeita etapa. O ataque conseguia se impor com um pouco mais de facilidade, enquanto os argentinos também diminuíram a intensidade. Diego Tardelli ampliou a partir da bola parada. E a defesa continuou fechando muito bem os espaços. Foi uma partida de dedicação máxima dos meio-campistas na proteção, mesmo os mais ofensivos, como Oscar, Elias e Willian – por mais que a criatividade no setor não tenha sido das maiores. A Argentina só voltou a ameaçar em bolas perdidas pelo Brasil mais à frente e em uma falta cobrada por Messi.

A segunda era Dunga se segue de maneira positiva. São três vitórias em três amistosos contra adversários nas Eliminatórias e que estiveram na última Copa do Mundo. A defesa tem se saído muito bem e ainda não sofreu gols, algo importante especialmente depois das duas últimas partidas na Copa do Mundo. E, embora Neymar continue como principal respiro ofensivo, o Brasil é bastante eficiente nas conclusões, mesmo sem apresentar um futebol vistoso no meio-campo e na construção do jogo.

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O pragmatismo seguirá em voga com Dunga. Neste momento, é até importante, diante das humilhações recentes sofridas para a Alemanha e a Holanda. O primeiro passo para a Seleção era encontrar um rumo, algo que tinha perdido totalmente depois da Copa. A questão maior a partir de agora será sobre a identidade que o Brasil irá tomar, se com um estilo de jogo apenas voltado para a vitória ou apresentando também algo a mais.

Por mais que para a comissão técnica os resultados positivos sejam suficientes, o torcedor brasileiro dificilmente se contenta só com isso. Na maioria das vezes, também é preciso dar show. Jogar assim contra a Argentina é o suficiente para agradar. A questão maior será contra seleções menores, quando vencer é obrigação e o jogo bonito é o que realmente satisfaz. O Japão é o primeiro desafio neste nível.

Destaque do jogo

Diego Tardelli. O jogador do Atlético Mineiro deu continuidade à ótima fase que vive no clube. Não só pelos dois gols, em lances de puro oportunismo, o atacante foi excelente na movimentação do ataque, em um jogo no qual Neymar foi marcado duramente e a dupla quase sempre estava sozinha para puxar os contragolpes. Mostrou toda a sua qualidade técnica no arremate do primeiro tento.

Momento chave

O pênalti pego por Jefferson. Se a Argentina teve um pênalti não marcado logo nos primeiros minutos, o árbitro compensou ao apontar para a cal em um lance no qual Danilo travou a bola. Messi teve a chance de empatar o placar, mas Jefferson esperou a cobrança e fez ótima defesa. Depois disso, foram poucos os lances de real perigo da Albiceleste. No melhor, o goleiro foi buscar no canto uma falta cobrada pelo camisa 10.

Os gols

28’/1T – GOL DO BRASIL! Após cruzamento de Oscar, a zaga da Argentina se complica para afastar e a bola sobra limpa para Tardelli. O atacante dá um belo chute de primeira, sem chances para Romero.

19’/2T – GOL DO BRASIL! Cobrança de escanteio pela esquerda. David Luiz não consegue desviar a bola, mas Tardelli aparece livre no segundo pau para complementar. Romero não consegue salvar em cima da linha.

Curiosidade

Messi desperdiçou três dos quatro últimos pênaltis que cobrou, pelo Barcelona e pela seleção.

Ficha técnica

Brasil 2×0 Argentina

Local: Estádio Ninho de Pássaro, em Pequim (China)
Gols: Diego Tardelli, aos 28’/1T e aos 19’/2T
Cartões amarelos: David Luiz e Danilo (Brasil); Fernandez e Mascherano (Argentina)
Cartões vermelhos: Nenhum

Brasil
Jefferson, Danilo, Miranda, David Luiz (Gil, 45/’2T) e Filipe Luís; Luiz Gustavo, Elias, Oscar e Willian; Neymar (Robinho, 49’/2T) e Diego Tardelli (Kaká, 37’/2T). Técnico: Dunga.

Argentina
Sergio Romero, Pablo Zabaleta, Federico Fernández, Martin Demichelis e Marcos Rojo; Javier Mascherano e Roberto Pereyra (Enzo Pérez, 31’/2T); Erik Lamela (Javier Pastore, 16’/2T), Lionel Messi e Ángel Di María; Sergio Agüero (Gonzalo Higuaín, 16’/2T). Técnico: Gerardo Martino.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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