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Aos 42 anos, Verón voltou: suou, dividiu, jogou a Libertadores faminto – mas perdeu

Aos 42 anos, ele cumpriu a promessa. Deixou a confortável cadeira presidencial, o camarote com ar condicionado e a roupa social. Voltou para onde se sente à vontade. Para se esfolar no gramado, suar a camisa, trombar com os marcadores. Também para sentir todo o calor da torcida, o prazer de fazer novamente aquilo que se ama. Juan Sebastián Verón retornou à rotina de jogador para defender o Estudiantes na Copa Libertadores, conforme dissera após a classificação. Fez sua reestreia pelo clube do coração nesta terça, no Estádio Ciudad de La Plata, durante o duelo contra o Barcelona de Guayaquil. E ainda que os equatorianos tenham vencido por 2 a 0, valeu pela entrega. Por ver o cara que já fez tanto vestindo alvirrubro se empenhar como um iniciante.

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A empolgação com Verón aconteceu a todo momento em La Plata. O anúncio do craque-capitão-presidente no telão foi seguido por uma enorme ovação. Já se passaram três anos de sua segunda aposentadoria, aquela que parecia ser a definitiva. Mas não se perde a devoção pagã por La Brujita, que levou os pincharratas novamente à perdição em sua terra prometida, a Libertadores. Depois que seu pai conduziu os platenses às suas primeiras glórias continentais, o herdeiro viveu a epopeia perfeita, ao voltar para reaver o topo das Américas em 2009. E é essa aura que sua imagem sempre evoca: queimar na fogueira da paixão pela Copa. A heresia de todo alvirrubro. Algo que se sentiu ainda mais na entrada dos times em campo.

Verón, que seguiu desfrutando o futebol em competições amadoras, não demonstrou falta de ritmo no início. Pelo contrário, parecia jogar com mais pegada. Como se estivesse na várzea em uma tarde ensolarada de final de semana. Correu muito. Não negou as divididas. Deu carrinho. Distribuiu o jogo ao Estudiantes. Criou boas oportunidades. O veterano parecia obcecado por soltar o pé. Por sentir novamente o peso da bola impactando em seus dedos, e então se aliviando em instantes, num rompante que estremecesse também as arquibancadas. Que balançasse as redes e terminasse de fazer o estádio desabar. Contudo, não foi feliz em suas tentativas. Errou o alvo, parou em Maximo Banguera. E quando exibiu sua visão de jogo privilegiada, no melhor passe, o juiz assinalou impedimento.

Após o primeiro tempo impressionante para um senhor de 42 anos, as pernas pesaram durante a volta do intervalo. Verón não conseguiu jogar no mesmo ritmo. Pior, viu o Barcelona abrir o placar aos seis minutos, com Jefferson Mena aproveitando a saída errada de Mariano Andújar. Aos 13, La Brujita permitiu sua substituição. E, do banco de reservas, voltou a ser apenas o presidente. Amargou a derrota, que complica a vida do Estudiantes na Libertadores. Aos 26 minutos, Dubarbier foi expulso, dificultando a vida dos platenses. Toledo quase empatou aos 41, mas parou no travessão. Decepção complementada com o segundo tento dos equatorianos, em ótima trama coletiva no contra-ataque, para Ariel Nahuelpan estufar as redes.

O Estudiantes ainda não pontuou em duas rodadas de Libertadores. E está em um grupo no qual não pode se dar ao luxo de cochilar, também ao lado de Botafogo e Atlético Nacional. A reação precisa ser imediata. Motivação para isso não falta. Basta olhar para o lado e perceber o esforço de Verón. A garra do presidente de chuteiras é revigorante. De qualquer forma, só isso não bastou aos pincharratas nesta terça. O retorno do velho salvador soa como poesia. Suficiente para encher os corações alvirrubros numa noite especial, mas que talvez não aguente as quatro partidas restantes.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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