Argentina

4.908 dias depois

São mais de 90 jogadores que já ultrapassaram a barreira dos 30 na elite argentina. Gente que ainda acredita ter bola para jogar, fazer frente a uma garotada cada vez mais arisca, que dá cada vez mais canseira. Ao todo, para ser mais exato, são 91 caras que vão contra tudo que caminha junto com esse futebol físico dos dias de hoje, em que os enganches, esses camaradas de passada lenta, toque cerebral, andam raros. 17 goleiros, 27 defensores, 29 meias e 18 atacantes.

Os nomes são os mais variados. Quase todos conhecidos do grande público. No River, Matías Almeida segura a bandeira da resistência. Palermo, Battaglia e Riquelme cumprem o mesmo papel em La Bombonera. Assim como Verón, Braña e Desábato no Estudiantes, Tuzzio e Silvera no Independiente. E por aí vai. Há alguns que brigam por essa causa praticamente sozinhos, invariavelmente obrigados a afastarem de si a condição de salvador da pátria.

É uma tendência dessa Argentina atual. Ao menos, é o que mostram os números. E, por que não, o futebol que vem sendo jogado pelos garotos – as seleções de base dão um bom panorama de tudo isso. Não surpreende, portanto, que, na tentativa de chegarem aos seus objetivos, seja ele qual for, os clubes venham recorrendo a jogadores já em final de carreira.

O Estudiantes de Verón mostra que pode dar certo. Há ali, cabe dizer – e não há nada de ingênuo no que vou afirmar –, muito mais paixão, amor à camisa do que a busca por projetos de marketing, um pézinho de meia na despedida dos gramados. O Gimnasia y Esgrima sabe disso e foi atrás do exemplo dos rivais.

Ao andar pelas ruas de La Plata, não se surpreenda se alguém fardando as cores azul e branca virar para você contando o número sete nos dedos. São novos tempos no Bosque. Tempos de fé, de esperança. Renovadas em novembro último, quando da vitória do experiente Héctor Delmar, de mais de 80 anos, nas eleições presidenciais e do fim de uma era que colocou os Lobos no fundo do poço, brigando contra o rebaixamento, e afastou alguns de seus ídolos.

Entre eles, Guillermo Barros Schelotto, “exilado” havia quatro anos nos Estados Unidos e que, entre sua saída do Gimnasia e a passagem pelo Boca, conquistou muitos títulos, fama e prestígio no futebol. Volta ao time ao lado do pai, Hugo, ex-médico tripero e hoje parte da diretoria. Terá ainda o apoio do técnico Ángel Cappa, fiel ao menottismo que tanto admira, e da revelação Germán Pacheco, ex-Independiente e que, depois de trocar o país pelo Atlético de Madrid, vai atrás da perseguida volta por cima.

A sua apresentação praticamente parou La Plata. Sobretudo, aquela parte que andava mais cabisbaixa, buscando um motivo para acreditar e que o encontrou no jogador de 37 anos, que defendeu a equipe entre 1985 e 1997. Nesse meio tempo, foram dois vice-campeonatos nacionais e alguns muitos gols marcados. Melli deixou um rastro de saudade entre os Lobos. Algo que agora poderá ser curado.

Em seu primeiro jogo, ainda amistoso, contra o Platense, foram 1.500 torcedores presentes debaixo de uma forte chuva. 4.908 dias depois. A história interrompida naquele 12 de agosto de 1997, frente o Huracán Corrientes, enfim, tem continuidade. Uma história de amor, diria Schelotto.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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