América do Sul

Apostar e recomeçar

Era um final praticamente anunciado. O time não rendia. A parte tática não funcionava. Os desentendimentos eram vários e os destemperos mais ainda. Após trancos, barrancos, respiros e novas quedas o período do argentino Claudio Borghi à frente da seleção chilena de futebol foi encerrado na última quarta-feira. A derrota e a péssima atuação no 3 a 1 em amistoso contra a Sérvia foram a gota d’água para que a Federação Chilena desistisse de vez do professor.

A situação de fato era insustentável e a demissão não pode ser considerada injusta. Nos últimos seis meses a Roja fez oito jogos e perdeu seis, sendo três deles válidos pelas Eliminatórias. Além dos resultados ruins, as atuações da seleção chilena também foram péssimas no período. O desempenho abaixo da crítica somado a desentendimentos com jogadores e a um posicionamento intransigente do técnico em relação a questões de ordem técnica e tática resultaram em um panorama no qual o Chile não só perdeu a consistência vencedora de outrora, como enfrenta neste momento grandes riscos de sequer conseguir a classificação para a Copa de 2014.

É bem verdade que Borghi sempre teve sobre si o forte peso de substituir Marcelo Bielsa, homem considerado um herói em terras chilenas e que elevou a seleção a outro patamar. Até por isso, seu substituto fez poucas mudanças táticas em relação à equipe que foi à Copa do Mundo de 2010. O 3-3-1-3 foi mantido na maioria das vezes, com alterações circunstanciais para o 3-4-3 e 3-5-2. A filosofia de jogo, no entanto, não foi parecida e aquele estilo de posse de bola, pressão e intensidade se perdeu em algum lugar. Os jogadores que antes eram peças-chave também caíram de produção e até mesmo se envolveram em episódios de indisciplina, o que deixou o agora ex-técnico sem boas peças e duvidando até de suas convicções. Um exemplo rápido: contra a Argentina, Borghi abriu mão de quase dois anos atuando com três atrás e formou a zaga com quatro zagueiros, voltando novamente para um trio no jogo seguinte.

Sem o “Bichi”, resta à seleção chilena olhar para frente. Certamente o preferido dos torcedores para ocupar o posto seria Marcelo Bielsa. Porém, apesar da fase ruim no Athletic Bilbao, não há nenhum indício de que ele retornará. El Loco deixou o comando da Roja logo após a eleição de Sergio Jadue como novo presidente da Federação Chilena de Futebol, no início de 2011. Não houve sequer tempo de um desentendimento entre os dois: tão logo foi anunciado o vencedor, Bielsa pegou o boné e disse que só trabalharia com Harold Mayne-Nicholls, que havia sido o responsável por sua chegada à seleção.

Desta forma o candidato mais forte para o posto é um grande conhecido dos brasileiros: Jorge Sampaoli. Apesar de não falar claramente sobre o assunto, o técnico da Universidad de Chile já deu declarações dúbias de que teria interesse no cargo. Além de ter montado do zero um time competitivo, forte e agradável de se ver, pesa a favor de uma eventual chegada à seleção o recente momento de La U. A falta de reposição de peças prejudica o desempenho dos azules desde o início deste ano e o argentino parece ter perdido a paciência e a vontade de seguir com o projeto.

Conhecido como um workaholic entre os treinadores, Sampaoli pareceu ter dado de ombros para a equipe nos 5 a 0 sofridos contra o São Paulo. Além da fragilidade defensiva e de sequer ter tentado explorar os pontos fracos do time brasileiro, o argentino ainda se disse surpreso pelo fato de Maicon não ter atuado como volante, algo que qualquer um que acompanhe os jogos do Tricolor saberia. Difícil acreditar que em outros tempos ele seria tão “desleixado” em relação a um adversário. Também contribuem para Sampaoli o fato de ser um admirador confesso do “bielsismo” e ter trabalhado com a maioria dos atletas que compõe a base da seleção.

O único fator que impediria um acerto seria uma proposta muito boa do mercado brasileiro, onde o treinador já disse ter vontade de trabalhar. Especula-se que o Cruzeiro fará uma tentativa, mas é necessário saber se esta será, financeiramente e esportivamente, a que Sampaoli está esperando. Caso não possa contar com Dom Sampa, a Federação pode ir atrás de outros três especulados. São eles: Jorge Fossati, Gerardo Martino e Eduardo Berizzo. As possibilidades de acerto, no entanto, são ainda mais imprevisíveis.

Atualmente no Cerro Porteño, o uruguaio Fossati disse que sua prioridade é continuar no Ciclón, mas que a ideia de treinar uma seleção, tal qual fez de 2004 a 2006 com o Uruguai, agrada bastante. Pesa contra o treinador a postura mais defensiva que suas equipes normalmente adotam. Gerardo Martino, por sua vez, ainda é muito exaltado pelo trabalho com a seleção do Paraguai, mas faz ótima campanha com o Newell’s Old Boys na Argentina, onde inclusive foi ídolo como jogador. É difícil crer que ele deixaria esse “conforto” para assumir uma seleção em frangalhos.

Por último, Eduardo Berizzo é o homem mais próximo de Marcelo Bielsa. Foi ele o auxiliar de El Loco durante os anos de comando da seleção chilena. Lá, o também argentino aprendeu tudo e mais um pouco sobre a filosofia e estilo de trabalho do agora técnico do Bilbao. Pesa contra ele, no entanto, o péssimo trabalho no Estudiantes em 2011 e o fato de só ter dirigido o modesto O’Higgins, do Chile, após o fracasso em terras argentinas.

Como dá pra ver, determinar o futuro técnico e o futuro da seleção chilena é impossível neste momento. O que se pode dizer, porém, é que a decisão da Federação chilena foi necessária e tomada a tempo. Dois mil e treze pode começar de outra forma e terminar ainda melhor. Com Borghi isso provavelmente não aconteceria…

Amistosos sul-americanos

Além de Brasil 1×1 Colômbia e Sérvia 3×1 Chile, outras seleções abordadas neste espaço fizeram amistosos neste meio de semana. Confira os resultados:

Uruguai 3×1 Polônia
Bolívia 1×1 Costa Rica
Venezuela 1×3 Nigéria
Peru 0x0 Honduras
Paraguai 3×1 Guatemala

Copa Sul-Americana

A épica vitória do Millonarios sobre o Grêmio por 3 a 1 permitiu a definição das semifinais da Copa Sul-Americana 2012. Confira o chaveamento (equipes que aparecem primeiro decidem em casa):

São Paulo x U. Católica
Millonarios x Tigre

Mais chilenas

Com a realização da rodada de meio de semana, ficaram definidas as quartas de final do Clausura chileno. Seguem os confrontos (times que aparecem primeiro decidem em casa):

Colo Colo x Audax Italiano
U. de Chile x U. Española
Palestino x Huachipato
Deportes Iquique x Rangers

Colombianas

– Na Colômbia também já há os classificados para a fase decisiva. Em terras cafeteras, no entanto, as equipes estão divididas em dois grupos. Os times farão jogos em dois turnos e os melhores de cada chave se enfrentarão na final.

– O grupo A tem (posição final na fase de todos contra todos entre parênteses): Millonarios (1º), Junior (3º), Tolima (6º) e Deportivo Pasto (8º)

– Já o grupo B conta com: La Equidad (2º), Itagüí (4º), Atlético Nacional (5º) e Independiente Medellín (7º)

Uruguaias

– No Uruguai o clássico entre Peñarol e Nacional terminou empatado por 0 a 0, resultado que favoreceu os carboneros, que se mantêm na ponta. O Peñarol tem agora 24 pontos, faltando quatro rodadas para o fim do Apertura.

– O Defensor Sporting é o segundo, com 22, após vitória por 3 a 1 sobre o Fénix. Já o El Tanque Sisley, que empatou por 2 a 2 com o Progreso, é o terceiro, também com 22. O Nacional é o quarto, com 20 pontos.

Venezuelanas

– No Apertura venezuelano o Deportivo Anzoátegui empatou por 2 a 2 com o Monagas, mas segue na liderança, agora com 30 pontos em 13 jogos. O vice-líder é o Deportivo Lara, que também empatou: 3 a 3 com o Llaneros de Guanare

– O leitor que acompanha este espaço sabe da história: em tese foi a última partida do Lara. Os jogadores disseram que não tinham mais condições de atuar sem receber salários. Pois bem, até o momento a decisão segue, mas há uma sinalização de que o governo e a federação irão disponibilizar dinheiro para que o clube não feche as portas. Uma decisão neste sentido deve ser tomada ainda nesta sexta-feira.

Equatorianas

– No Equador o Barcelona continua em uma ótima sequência de resultados. Depois de vencer  o Emelec por 5 a 1, os Canários fizeram 1 a 0 na LDU e seguem firmes para a conquista do título sem necessidade de final contra o campeão do Segunda Etapa (já que lideram o certame). Com o triunfo o Barcelona tem agora 35 pontos em 18 jogos, contra 30 em 17 do Emelec, que perdeu por 2 a 0 para o Independiente.

– O Técnico Universitário ficou no 0 a 0 com o Deportivo Quito e perdeu contato com os ponteiros, ficando com 28 pontos em 18 jogos. A LDU ocupa a quarta posição, com 26 pontos. Faltam quatro rodadas para o fim do torneio.

Paraguaias

– No Clausura paraguaio o Guaraní, que parecia rumar para o título com até certa tranquilidade, perdeu para o Nacional por 1 a 0. Foi uma derrota justamente para o seu mais próximo perseguidor. Com o resultado, El Aborígen ainda lidera, com 33 pontos em 16 jogos, mas vê o Nacional chegar a 32 pontos.

– O Libertad ficou no 0 a 0 com o Sol de América e ocupa a terceira posição, com 29 pontos. Já o Olimpia venceu o Sportivo Luqueño por 2 a 0 e chegou a 27 pontos, ocupando o quarto lugar.

– O Cerro Porteño, por sua vez, é o quinto depois de bater o Rubio Ñu por 2 a 1 e alcançar os 24 pontos. O Ciclón, porém, tem apenas 15 jogos.

Bolivianas

– Na Bolívia o The Strongest segue quase imbatível na liderança do Apertura. O Tigre fez 3 a 0 no Oriente Petrolero e chegou a 33 pontos em 16 jogos. O perseguidor mais próximo é o San José, que ganhou do Aurora por 2 a 0 e que chegou aos 32 pontos.

– O Bolívar, que foi derrotado pelo Real Potosí, é o terceiro, com 26 pontos.

Peruanas

– Deu a lógica no campeonato peruano: os dois melhores da primeira fase mantiveram o desempenho na segunda etapa e vão fazer a final. Sporting Cristal e Real Garcilaso disputam a decisão partir do dia 2 de dezembro. A princípio serão dois jogos, mas se houver igualdade de pontos acontecerá uma terceira partida com mando de campo do Sporting Cristal.

– Definida a final e definidos os rebaixados (Sport Boys e Cobresol) resta apenas a luta pela terceira vaga na Libertadores. A Universidad César Vallejo precisa de uma vitória contra o Melgar ou um tropeço do Juan Aurich para garantir o posto.

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Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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