América do Sul

Apostando na base, o Nacional afirmou sua “paternidade” sobre o Peñarol e se sagrou campeão uruguaio

O regulamento complicado do Campeonato Uruguaio, digno de Cariocão, oferecia a possibilidade de quatro clássicos consecutivos para se definir o campeão de 2019. O Nacional, entretanto, simplificou as coisas e confirmou o título por antecipação neste domingo. Vencedor do Clausura, o Bolso também possuía a melhor pontuação da tabela geral da competição. Assim, poupou-se de um trabalho extra ao derrotar o Peñarol (vencedor do Apertura) neste domingo. Matías Zunino garantiu a taça tricolor com a vitória por 1 a 0. É o 47° título uruguaio do Nacional, que ainda interrompe o bicampeonato aurinegro.

O equilíbrio marcou o Campeonato Uruguaio ao longo de toda a temporada. O Peñarol ganhou o Apertura com uma margem de apenas quatro pontos de vantagem sobre os rivais, que ficaram em terceiro, atrás do surpreendente Fénix. Já no Clausura, o Nacional precisou disputar um jogo extra contra os rivais para definir a taça. Ambos somaram 34 pontos e, como prevê o regulamento, necessitaram de um novo embate na última quarta-feira. Melhor aos tricolores, que derrotaram os aurinegros por 2 a 0 e confirmaram a vantagem rumo à fase final. Aí que começa a complicação do regulamento.

No Campeonato Uruguaio, os campeões de Apertura e Clausura disputam uma “semifinal anual”. O duelo serve apenas para definir quem pegaria o time de melhor pontuação na somatória de todas as fases da liga. E, por conta disso, mesmo se o Peñarol ganhasse o Apertura e o Clausura, precisaria encarar o Nacional na final anual. A diferença entre os times se fez no Torneio Intermédio, que serve para encher linguiça no meio do ano. Os aurinegros foram mal em seu grupo, com apenas nove pontos. Com isso, permitiram que os tricolores saltassem à frente na somatória geral. O Bolso nem precisou ficar com a taça do Intermédio, conquistada pelo Liverpool, em decisão contra o igualmente pequeno River Plate.

Tal soma dos pontos deixou o Nacional um passo à frente. Após o título do Clausura no jogo-desempate da quarta-feira, o Bolso seria campeão uruguaio com uma nova vitória sobre o Peñarol na semifinal anual, disputada neste domingo – já que não poderia enfrentar a si mesmo, o time de maior pontuação, na decisão geral. A tranquilidade da vantagem adquirida permitiu que os tricolores soubessem lidar melhor com o clássico intenso disputado no Centenario.

Seria uma partida pegada, como se imagina para uma decisão entre os rivais uruguaios, influenciada também pela chuva torrencial que caía em Montevidéu. Ao longo do primeiro tempo, as duas equipes tiveram chances de sair em vantagem. O Nacional começou melhor, mas o Peñarol conseguiu equilibrar e esbarrou na atuação inspirada do goleiro Luis Mejía. Já no segundo tempo, embora os aurinegros tivessem a iniciativa por sua necessidade, os tricolores encontraram a vitória aos 35 minutos.

Um contra-ataque puxado por Santiago Rodríguez gerou um escanteio. A cobrança não foi boa, mas o Nacional conseguiu manter a bola nos arredores da área e Sebastián Fernández efetuou o cruzamento, para que Zunino completasse na pequena área. Já era suficiente ao título antecipado. No desespero pelo empate, o Peñarol tentou pressionar, mas também perdeu a cabeça. Foram duas expulsões antes dos 45, que impossibilitaram a reação dos carboneros. Guzmán Pereira precisou calçar as luvas na meta aurinegra, após o vermelho a Kevin Dawson, e o Bolso aproveitou a vantagem numérica para tentar o golpe de misericórdia nos acréscimos. Os tricolores tiveram um tento anulado, que não fez falta diante do triunfo assegurado.

O Nacional reconquistou o título do Campeonato Uruguaio após um hiato de três anos. E a qualidade de suas categorias de base fez a diferença ao longo da campanha. Ao final de 2018, a diretoria optou por não renovar com diversos atletas rodados, para dar chance aos pratas da casa. A escolha foi acertada. O elenco tricolor é bastante jovem, com boa parte dos titulares abaixo dos 23 anos de idade – sobretudo do meio para trás. Nomes como Matías Viña (titular na lateral esquerda da seleção durante os últimos amistosos) e Santiago Rodríguez (ponta que foi líder de assistências na liga) se colocam entre as principais revelações da temporada.

Outra novidade de 2019 foi o goleiro Luis Mejía, retomando uma histórica ligação do Nacional com o futebol panamenho. O arqueiro ganhou a titularidade na atual campanha e se tornou decisivo nesta semifinal anual contra o Peñarol. Já o atacante Rodrigo Amaral, de 22 anos, retornou do Racing e foi uma das principais figuras do Bolso no primeiro semestre. Uma pena que a lesão ligamentar que sofreu em maio o impediu de auxiliar os tricolores nesta reta final. Da mesma forma, voltou em alta Felipe Carballo, meia de 23 anos que passou as duas últimas temporadas no Sevilla B e mostrou o seu valor no Clausura.

Obviamente, como de praxe entre os grandes uruguaios, os medalhões marcaram presença. Gonzalo Bergessio permanece como principal artilheiro do Nacional e foi uma liderança essencial. Sebastián Fernández, Mathias Cardacio e Álvaro Pereira integraram a campanha. Já a principal novidade foi Chory Castro, que retornou para casa em 2018 após uma longa passagem pelo futebol espanhol e deu sua contribuição à conquista. Foram nove assistências, além de três gols nos clássicos contra o Peñarol – incluindo o que consumou o título do Clausura.

Já no banco de reservas, o técnico Álvaro Gutiérrez soube transformar a temporada do Nacional. Campeão uruguaio com o clube em 2015, o antigo meio-campista da seleção tinha uma longa passagem no comando da base do Bolso. Trabalhou em outros países depois daquela conquista, mas voltou no meio da atual temporada para substituir o argentino Eduardo Domínguez. Não apenas valorizou os pratas da casa, como também soube montar um time pragmático e que dominou os clássicos.

Uma pena que os festejos pelo título terminaram em tragédia. Um torcedor do Nacional foi morto a tiros por um homem encapuzado, enquanto caminhava rumo à celebração tricolor. O caso está sendo investigado pela polícia. Vários clubes manifestaram seu repúdio ao episódio, inclusive o Peñarol, enquanto o Nacional decretou luto.

A conquista do Nacional marca a hegemonia do clube neste início de século. Nas últimas 20 edições do Campeonato Uruguaio, o Bolso saiu vencedor em 11 delas, contra apenas seis taças do Peñarol. O Nacional também encosta na somatória histórica da liga. São 47 títulos dos tricolores, contra 50 dos carboneros – se também forem considerados os tempos como CURCC, a agremiação que deu origem aos aurinegros. Fato é que as últimas décadas são favoráveis ao Nacional, e 2019 serviu para renovar tal “paternidade”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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