América do Sul

Álvaro Alonso, do Peñarol: “Precisamos ir até o torcedor”

Com menos de um terço da população da cidade de São Paulo (apenas 3 milhões de habitantes), o Uruguai tem conseguido nos últimos anos produzir jogadores de alto nível para a seleção nacional e fazer com que seus grandes clubes (Peñarol e Nacional) voltem a figurar nas fases decisivas dos torneios sul-americanos. O segredo desse sucesso passa pelas quatro linhas, na formação e revelação de jogadores, mas também fora delas, com um planejamento maior da gestão dos clubes, para compensar essa diferença populacional.

“Temos que nos reinventar a cada dia, ser diferentes para crescer”, afirmou o diretor geral do Peñarol, Álvaro Alonso. Há dois anos e quatro meses no cargo, ele foi uma das principais peças da engrenagem sob a qual se deu a transformação do clube. Formado em direito, não era um homem de futebol, fato que, na sua concepção, era positivo no momento em que foi escolhido pelo presidente Juan Pedro Damiani para a função. “Não tinha os vícios do futebol, achava que era possível fazer as coisas de maneira diferente”, disse, em palestra na Jornada de Direito Esportivo realizada pela PUC-SP nesta terça-feira.

Essas medidas diferentes vão de coisas simples, como montar pequenas lojas do Peñarol para buscar sócios em shoppings, até percorrer todo o Uruguai em rallys em busca de mais torcedores que possam se juntar essa causa do clube. Os resultados impressionam: em dois anos, o número de sócios do Peñarol no interior do país mudou de pouco mais de 1,1 mil para 20 mil, e no total saltou de 12 mil para cerca de 52 mil, marca alcançada por pouquíssimos clubes brasileiros, que, mesmo com uma população maior, não conseguem organizar. “É necessário ir até o torcedor, e não ficar esperando numa salinha”, disse na Palestra, e posteriormente em entrevista à Trivela. Confira:

Com toda essa diferença populacional, como o Peñarol faz para competir em condições de igualdade com os clubes dos outros países da América do Sul?

Precisamos apostar em duas coisas: na qualidade de gestão, com um modelo estruturado e pessoas que tenham valores e habilidades técnicas compatíveis com suas funções, e na formação de jogadores de elite que possam dar retorno esportivo ou financeiro ao clube. Acredito que, com isso, podemos competir sempre.

O Peñarol hoje chegou a mais de 52 mil sócios. Até quando vocês pretendem aumentar esse número?

Não temos uma meta exata, talvez 70 mil, mas pensamos também criar uma lista de espera, para que possamos fidelizar o sócio atual e poder dedicar uma atenção maior aos que se associaram primeiro. Essa fidelização da marca é importante, porque, por mais que tratemos o torcedor como cliente, há um componente emocional no futebol e ele não pode ser desprezado.

Você ressaltou a importância do trabalho de formação de jogadores de elite no Peñarol. Há alguma integração desse trabalho com o que é feito na seleção uruguaia?

Sim, claro. Atualmente, todo o futebol uruguaio está integrado com o trabalho feito na seleção, e o fato do Óscar Tabárez já ter sido técnico do Peñarol (N.R: foi campeão da Copa Libertadores de 1987) também ajuda bastante nesse sentido. Creio que essa proximidade é muito positiva para o futebol uruguaio em si.

Depois de algum tempo, o Peñarol tem um jogador brasileiro no elenco, o João Pedro, que está emprestado pelo Palermo. Pensas em ter outros brasileiros na equipe?

O João Pedro está muito bem conosco, mas precisamos ser realistas. É muito difícil, porque economicamente o Brasil hoje alcançou o nível europeu no futebol. Não há como competir em termos de salários, e isso obviamente dificulta as coisas.

Quais são as metas do Peñarol no presente e no futuro?

Dentro de campo, temos sempre que ser campeões. A grandeza, a força do clube nos obriga a pensar assim, e é importante para nós estar nas competições sul-americanas competindo com os grandes clubes do continente. E socialmente, precisamos continuar crescendo em número de sócios e em contato com o nosso torcedor, ou em ações sociais. Um clube de futebol precisa ter a consciência de que precisa devolver à sociedade o que ganha com torcedores e sócios.

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Equipe Trivela

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