Adversário do Corinthians, Guaraní tem uma história de pioneirismo, títulos e carisma
Por Leandro Paulo Bernardo*
Quando o Guarani estiver enfrentando o Corinthians pela edição da Libertadores de 2015, muitos equivocadamente pensarão, falarão e até escreverão que esse é o maior momento do clube aurinegro de Assunção. Equivocadamente, pois esse clube possui uma rica história de titulos, pioneirismo e carisma.
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O Club Guarani foi fundado em 12 de outubro de 1903, após jovens sócios do Olímpia serem julgados e expulsos do clube por terem pegado uma bola à força para jogarem no campo, mesmo contra a vontade do responsável pela segurança. Venceu o primeiro campeonato de futebol do Paraguai em 1906, de forma invicta, com 18 dos 20 pontos possíveis, 32 gols a favor e apenas dois contra. As equipes participantes foram Guarani, Olimpia, Libertad, Nacional, General Diaz e 14 de maio.
Nesse mesmo ano foi a primeira equipe do Paraguai a jogar contra um time internacional, enfrentando um combinado da liga sul-africana de futebol. Venceu o segundo campeonato organizado pela Liga em 1907, com os mesmos participantes. Como no primeiro, o Guarani foi campeão invicto. Com isso, a lenda do primeiro e único bi-campeão invicto do futebol paraguaio.
Ao lado do Olímpia, contra quem disputa o famoso clássico anejo, possui a maior quantidade de participações na primeira divisão, já que o Cerro Porteño só começou a participar em 1913 e o Libertad ficou afastado por alguns anos, por divergências com a direção da liga. No entanto, el cacique ficou afastado da edição de 1912, com autorização da liga, devido a uma epidemia de malária que assolou o país e atingiu vários atletas do clube.
A época de ouro
O Guaraní foi campeão nacional novamente em 1921, 1923, 1949, mas a década de 1960 que é conhecida como a “época de ouro” do clube. Formou uma equipe forte, conquistou o título paraguaio em 1964 e foi semifinalista da LIbertadores, perdendo para o campeão Peñarol. Levou mais dois troféus do principal campeonato do país em 1967 e 1969 com a mesma base. Nessa época, foi pioneiro novamente ao ser a primeira equipe paraguaia a ter um patrocínio em sua camisa, e em 1968 se tornou o primeiro clube do Paraguai a excursionar pela Europa, onde jogou na Espanha e Alemanha.
Um ídolo para fazer história
Passou pelos anos setenta sem conquistas e com equipes não competitivas, porém, em 1984, fez uma equipe que entrou para a história do futebol paraguaio. Possuía o patrocínio mais rentável para aquele período, da Matiauda, que pertencia a Tomas Matiauda (sobrinho do general Alfredo Stroessner que governou o país por mais de 30 anos), empresa que tinha a maior parte dos lucros provindos da regularização de carros entrados no Paraguai. Principalmente os que vinham pela madrugada.
Para treinar a equipe a direção do clube foi buscar na Europa um antigo ídolo paraguaio que estava há 25 anos morando na Espanha: Cayetano Ré. Após jogar três partidas no mundial da Suécia em 1958 e marcar um gol no jogo contra Escócia, Ré foi vendido do Cerro Porteño para o Elche da Espanha. Após três temporadas pelos alviverdes, foi vendido para o gigante Barcelona, pelo qual jogou quatro temporadas e chegou a ser artilheiro de um Campeonato Espanhol. Ao encerrar a carreira de jogador, passou a ser treinador de vários clubes pequenos e médios na Espanha.

Em Fevereiro de 1984, Ré voltou a morar no Paraguai e começou a montar aquela equipe. Era um time sem estrelas, mas com muita raça e mais uma vez pioneiro, pois seria a primeira equipe na história do país a abandonar o tradicional esquema de marcação por zona e adotar a marcação individual, com o uso de um líbero e mais dois zagueiros. “Caye” reuniu um conjunto compacto, com muitas alternativas. A base da equipe campeã foi composta por uma combinação de jogadores das categorias de base e outros que foram adquiridos.
Da base, vinham o capitão e lateral-esquerdo Wladimiro Schettina, Julio César Franco, Eulalio Mora, Oscar Gimenez e Luis Caballero. No Sportivo Luqueño, vice-campeão em 1983, foram buscar o goleiro Julian Coronel e o meia-esquerda Rolando Chilavert (ainda incluíram um goleiro na negociação, um certo jovem de 19 anos, que era irmão de Rolando e reserva de Coronel: José Luís Chilavert ). Virginio Cáceres veio das ligas amadoras de San Pedro, era uma ótima promessa e funcionou perfeitamente como líbero. Geronimo Ovelar e Buenaventura Ferreira foram ignorados pelo Cerro Porteño. Javier Villalba (a revelação de 1983) veio do Sol de América.
Era uma equipe que jogava um futebol bonito, classificado pela imprensa da época como um resgate da alma guarani, fugindo da forte influência de treinadores uruguaios que dominavam o estilo de jogo local e o tornaram pragmático, retranqueiro e violento. O estádio Defensores del Chaco chegou a receber públicos de até cinquenta mil pagantes que se deleitavam com a polivalência de Cáceres, a rigidez de Caballero, a segurança de Schettina, o faro de gol do centroavante Mora,a velocidade do ponta Villalba, a habilidade de Rolando e a cadência do maestro Ferreira.
O campeonato possuia um regulamento de dificil entendimento, mas os objetivos finais eram claros: a luta do decano Olímpia na busca pelo pentacampeonato e a afirmação do futebol bonito do cacique Guarani com a conquista de um titulo após 15 anos de jejum. Na noite de 25 de novembro de 1984, o hexagonal definitivo chegaria ao fim e justamente o mais envelhecido do clássicos consagraria um desses dois objetivos.
Depois de um primeiro tempo claramente favorável, o Olímpia vencia por 2 a 0, com gols de Osvaldo Pangrazio e Eduardo Ortiz. O segundo gol foi marcado após uma falha ridícula de um dos zaqueiros do Guaraní. Entretanto, o inacreditável começou a acontecer no segundo tempo. “Caye” retirou dois zagueiros para colocar dois atacantes e conseguir uma épica vitoria. Javier Villalba, duas vezes, Eulalio Mora e Oscar Giménez marcaram os gols do título. Relatos da época afirmavam que a torcida do Olímpia comemorou o final da partida, pois não suportavam mais a facilidade e o massacre imposto pelos jogadores do Guaraní.
Aquela equipe foi toda dissolvida nos anos seguintes. Mora foi jogar no Elche, após boas recomendações do ídolo Ré, Rolando e Caballero foram para o Olimpia, José Luís foi para o San Lorenzo, Ferreira foi jogar para o emergente e rico futebol colombiano. Schettina seguiu no aurinegro, o qual defendeu toda a sua carreira. Foram 18 anos como profissional e 12 anos como capitão do Guarani.
Base da seleção
O mentor daquele time imediatamente foi escolhido para ser o treinador da seleção paraguaia. De imediato, não conseguiu impor sua filosofia de jogo, e após quatro derrotas seguidas em amistosos, foi demitido. A Federação Paraguaia decidiu ressuscitar a filosofia charrúa e contratou o uruguaio Sérgio Markarián, com boas passagens por Olímpia e Libertad. Após forte apelo popular, a decisão foi revista e “Caye” foi reconduzido novamente ao cargo
Contando com uma base daquele Guarani (Schettina, Coronel, Cáceres, Caballero, Ferreira e Rolando) e com dois gênios daquela época (Roberto Cabanas e Romerito), a seleção do chaco deu muito sufoco à seleção brasileira nas eliminatórias. Após uma duríssima repescagem, eliminando Colômbia e Chile, os paraguaios voltaram a jogar um Mundial, algo que não acontecia desde 1958, quando o jogador Cayetano Ré e seus companheiros eliminaram o Uruguai. Pela primeira vez na história, o Paraguai passaria para a segunda fase. Infelizmente, nas oitavas de final foi eliminado pela Inglaterra, numa partida magnifica de Gary Lineker.
Desde aquela época, o Guarani ganhou o Torneio Apertura de 1996 e o Campeonato Paraguaio de 2010. Atualmente, é o vice-líder. Rolando Chilavert perdeu o posto de jogador mais famoso da família e está treinando o León de Huacano, do Peru. José Luís foi eleito o melhor goleiro do mundo por três anos e é reconhecido até hoje. Cáceres foi ídolo no grande Olímpia dos anos 1990. Luis Caballero infelizmente foi aassassinado em 2005, após reagir a um assalto e levar um tiro na cabeça. Seu filho, Luis Nery Caballero também é jogador e já foi convocado para a seleção principal. É atacante do Atlas, do México.
Cayetano Ré dirigiu alguns clubes no México, Chile e Paraguai. Em 2000, aos 62 anos, abandonou o futebol. Seu ultimo trabalho como técnico foi justamente no Guaraní antes de retornar à Espanha para cuidar da sua saúde, já que era portador do Mal de Alzheimer. No dia 26 de novembro de 2013, um dia após a épica conquista de 1984 completar 29 anos, “Caye” faleceu em Elche.
Daquela equipe, sobraram lindas histórias e até um sucesso musical, uma polka paraguaya do grupo Quemil Yambay y Los Alfonsinos, bastante executada nas rádios, que descrevia aquele maravilhoso time aurinegro de Assunção
*Leandro Paulo tem 32 anos, é cirurgião-dentista e se acha a enciclopédia do futebol paraguaio porque tinha um time de futebol de botão do Guaraní na infância e uma foto de Cabãnas jogando pelo América de Cali.



