América do Sul

A Universidad Católica comemorou um feito inédito com o tetra chileno, em que nem as trocas constantes de técnicos atrapalharam

A Católica levou o quarto título nacional consecutivo com o quarto comandante diferente no momento da conquista

A Universidad Católica desfruta de uma hegemonia inédita no Campeonato Chileno: pela primeira vez na história dos torneios de temporada completa, um clube conquista o tetracampeonato consecutivo da competição. O Colo-Colo até possui um tetra em sua história, mas nos chamados “torneios curtos”, divididos em Apertura e Clausura. Levar quatro troféus seguidos com turno e returno é uma primazia dos Cruzados, que souberam se reinventar bastante ao longo desse ciclo. Cada taça teve um treinador diferente, e a Católica precisou de uma arrancada final para assumir a liderança em 2021, até que a festa se consumasse na última rodada, neste sábado.

A atual série de conquistas da Universidad Católica começou em 2018. Dirigidos por Beñat San José, os Cruzados dominaram boa parte do campeonato e levaram o troféu mesmo com a perseguição da Universidad de Concepción na reta final. O espanhol aceitaria uma proposta do Al Nasser e Gustavo Quinteros o substituiu em 2019, numa campanha ainda mais soberana da Católica. E mesmo que o boliviano tenha se mudado ao Tijuana, o clube conquistou seu inédito tricampeonato em 2020, sob as ordens de Ariel Holan. Apesar de certos momentos de maior instabilidade, a competitividade da equipe preponderou para mais uma taça com segurança. O problema era o filme repetido, já que o argentino rumou ao Santos após o fim da temporada.

De início, Gus Poyet era o escolhido pela Universidad Católica para tentar o tetracampeonato chileno. O uruguaio, em sua primeira experiência como treinador na América do Sul, chegou a fazer bom papel na Libertadores e levou a equipe até as oitavas de final, quando aconteceu a eliminação para o Palmeiras. Todavia, no próprio Campeonato Chileno as coisas não iam tão bem. Os Cruzados alternavam muito seus resultados, o que não permitia ao time se firmar na primeira posição, mesmo no pelotão inicial da tabela. Após a queda na Libertadores, o nível de desempenho cairia e a Católica atravessou uma sequência de sete rodadas com apenas duas vitórias. A gota d’água aconteceu numa derrota para o Palestino por 3 a 0, que deixou o clube na quinta colocação da liga, a cinco pontos do líder Colo-Colo.

Poyet foi demitido e a aposta da Universidad Católica era Cristian Paulucci, argentino que chegou ao clube como analista e trabalhou como assistente fixo desde os tempos de Gustavo Quinteros. Uma solução caseira que deu muito certo para os Cruzados. A equipe se transformou com o novo comandante e emendou uma sequência de sete vitórias no campeonato. O problema era que o Colo-Colo também atravessava boa fase e mantinha a dianteira. Já em meados de outubro, aconteceu o confronto direto no Estádio Monumental David Arellano, e uma vitória da Católica alçaria a equipe à liderança. Deu Cacique, com uma dramática virada por 2 a 1 aos 49 do segundo tempo que rompia a série invicta dos rivais e permitia uma vantagem de cinco pontos na primeira posição, com mais seis rodadas pela frente.

No entanto, se aquela derrota poderia ser vista como o fim das chances, a Universidad Católica tratou apenas como um desvio de percurso. A equipe retomou sua série de vitórias e foi batendo cada oponente que aparecia à sua frente. Por outro lado, o Colo-Colo começou a vacilar. Logo na rodada seguinte, perdeu para o Audax Italiano. Venceu as duas seguintes, mas só empatou com o Curicó Unido no antepenúltimo compromisso. Com o triunfo no clássico da mesma rodada contra a Universidad de Chile, a Católica igualou os 62 pontos dos colocolinos. E a vantagem se abriu na penúltima rodada, quando os Cruzados fizeram 2 a 0 no Huachipato, mas o Cacique perdeu diante da Unión Española.

A rodada final viu a situação bem favorável à Universidad Católica. Bastava um empate contra o Everton para selar o tetra. Enquanto isso, o Colo-Colo tinha que torcer pela derrota dos rivais e vencer o Antofagasta, no que forçaria um jogo-extra pelo título. Entretanto, tudo conspirou mesmo ao sucesso dos Cruzados. O Cacique sequer fez sua parte, com a derrota por 1 a 0. Já os tetracampeões comemoraram o feito de maneira categórica, com os 3 a 0 em Viña del Mar, na sexta vitória consecutiva. Com isso, a Católica ainda fechou a liga com uma vantagem de seis pontos, que pouco condiz à disputa apertada que se prometia.

Um grande diferencial da Universidad Católica foi seu desempenho como mandante. A equipe somou 14 vitórias e dois empates em 16 partidas em casa, num aproveitamento que já era alto com Poyet e que Paulucci manteve em 100%. A diferença com o novo treinador veio pelo rendimento fora, com seis das oito vitórias registradas pelo novo técnico. Os Cruzados também sobraram como melhor ataque da liga, com 65 gols, média expressiva de dois por jogo e 16 a mais do que qualquer outra equipe.

Mesmo esperando o novo contrato para deixar de ser interino, Paulucci sai em alta da campanha por virar a chavinha da equipe. Mudou a rotina de treinamentos, resgatou acertos de outras campanhas e se aproximou dos jogadores. Dentro de campo, ainda assim, surgiram outros destaques. Fernando Zampedri terminou com a artilharia do Campeonato Chileno pela segunda temporada consecutiva, com 23 tentos. O garoto Diego Valencia, cria da base, foi outro que rendeu em altíssimo nível após a troca no comando e contribuiu com 14 gols.

Dentre os mais jovens, Marcelino Núñez (grande revelação da equipe) e Ignacio Saavedra foram peças importantes no meio-campo. Enquanto isso, outros destaques de campanhas anteriores também deram suas contribuições – a exemplo de Valber Huerta, Alfonso Parot, José Pedro Fuenzalida, Luciano Aued e Diego Buonanotte. Vale mencionar ainda o meio-campista Felipe Gutiérrez e o goleiro Sebastián Pérez, duas novidades decisivas – em especial o arqueiro, com a dura missão de substituir o ídolo Matías Dituro, vendido ao Celta.

Sete jogadores participaram dos quatro títulos da Universidad Católica: Fuenzalida, Buonanotte, Saavedra, Valencia, Aued, Raimundo Rebolledo e Germán Lanaro. O grau de importância de cada um deles variou, entre os que surgiram como pratas da casa e aqueles que entram no ocaso da carreira. Ainda assim, todos têm sua parte nessa sequência histórica dos Cruzados no Campeonato Chileno. Fuenzalida provavelmente é quem melhor simboliza o período, dono da braçadeira de capitão e o mais constante entre os protagonistas. De qualquer forma, os méritos da Católica se centram mais no conjunto do que nas individualidades, num período em que o time sobrou e os principais rivais ainda lidaram com os riscos de rebaixamento.

Com o novo troféu, a Universidad Católica soma 16 títulos no Campeonato Chileno. Fica a apenas duas taças da Universidad de Chile como segunda maior vencedora do país, enquanto o Colo-Colo lidera a lista histórica com 32. E o atual ineditismo confere aos Cruzados um feito que os rivais ainda precisam perseguir. A guinada recente deve manter o clube como um candidato fortíssimo a renovar a hegemonia, mesmo que passe por mudanças no comando mais uma vez. Paulucci, de qualquer maneira, deve conferir um pouco mais de estabilidade na casamata ao fazer seu nome nesta reta final incrível, de 13 vitórias em 14 partidas dirigidas.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo