América do Sul

À eternidade: Paredes se tornou o maior artilheiro da história do Campeonato Chileno

O tempo costuma fazer bem a alguns jogadores de futebol. Esteban Paredes sabe como o passar dos anos o ajudou dentro de campo. A idade nunca disse muito sobre a fase do centroavante. Durante o início da carreira, o chileno perambulou por diferentes clubes e demorou a deslanchar na primeira divisão. Somente quando beirava os 30 anos é que “El Bendito del Área” realmente atingiu seu máximo potencial, ao acumular convocações para a seleção e vestir a camisa do Colo-Colo. E esse auge duradouro de Paredes, que se preserva mesmo depois de completar 39 anos, garantiu ao veterano um lugar privilegiado na história do futebol de seu país: neste final de semana, Paredes chegou aos 215 gols pelo Campeonato Chileno. Igualou Francisco Valdés como maior artilheiro da primeira divisão.

O recorde não poderia vir com mais estilo. Paredes não apenas anotou o gol que o colocou no topo da lista de goleadores, ele fez uma verdadeira pintura. Até demonstrou que não estava tão ansioso assim pela marca, ao servir a assistência para Gabriel Costa no primeiro gol do Colo-Colo contra o Palestino no sábado. Já durante o segundo tempo, arrancou a virada com um chutaço: pegou a bola de primeira, na veia, e mandou um petardo cruzado para, depois do desvio, encobrir o goleiro adversário. Uma pena somente que a vitória não tenha se sustentado, com o empate dos anfitriões por 2 a 2 nos acréscimos. Mas nada que diminuísse a tarde memorável ao veterano no Estádio La Cisterna.

“Nunca imaginei que chegaria a esta quantidade de gols. Quando balancei as redes, queria chorar e um montão de outras coisas. Tive um pouco de sorte, porque a bola desviou no defensor, mas foi um golaço. Igualei ao grande Chamaco, mas fico um pouco frustrado por não ter conseguido ganhar o jogo”, afirmou Paredes, na saída de campo, com a devida reverência à lenda com quem divide a marca atualmente.

Francisco “Chamaco” Valdés também ocupa um lugar especial na história do Colo-Colo. O meia defendeu o Cacique em três passagens distintas, entre as décadas de 1960 e 1970. Conquistou dois títulos do Campeonato Chileno e também liderou os albos à decisão da Libertadores em 1973, seu momento mais lembrado no país, que precedeu a convocação à Copa do Mundo de 1974. Ambidestro e com muita precisão nas bolas paradas, Chamaco aproveitava-se das virtudes para empilhar seus gols, mesmo sem atuar como homem de área. Faleceu em 2009, aos 66 anos, bastante lembrado pelo recorde que manteve intacto a partir de 1982.

Paredes já tinha superado outra marca de Chamaco em 2018, ao se transformar no maior artilheiro chileno da história da Libertadores. Ainda assim, nada comparável ao que aconteceu neste final de semana. Autor de cinco gols nas últimas 12 partidas pelo Campeonato Chileno, Paredes possui perspectivas excelentes para assumir o recorde isoladamente durante a reta final da competição. Titular no ataque do Colo-Colo, o camisa 7 anotou dois gols nas duas últimas aparições. Restam mais 11 rodadas para o fim do torneio. A torcida aguarda que o 216° aconteça diante de si, dentro do Estádio Monumental David Arellano lotado.

E a impressão é a de que, não fosse o começo de carreira oscilante de Paredes, ele poderia ter chegado ao topo bem antes disso. Cria do Santiago Morning, o centroavante teve números modestos em suas primeiras temporadas na elite do Campeonato Chileno. Só chegou aos dois dígitos em uma mesma campanha quando disputou a segundona, em 2003 e 2005, mas não impressionou durante um breve empréstimo à Universidad de Concepción. Nesta mesma época, também frustrou em uma passagem pelo Pachuca.

A primeira boa temporada de Paredes no Campeonato Chileno aconteceu em 2006. Aos 26 anos, o atacante estava de volta ao Santiago Morning e anotou 11 gols pelo Campeonato Chileno. Seria emprestado ao Cobreloa em 2007, onde somou mais 10 gols na liga. Já o protagonismo veio em 2008 e 2009, em suas duas últimas campanhas no Morning. Assinalou 21 tentos no primeiro ano e mais 17 no segundo, que o levaram à artilharia do Apertura. Essa fome de gols abriu as portas para que se transferisse ao Colo-Colo e que, após aparições esparsas em 2006, ganhasse também continuidade na seleção chilena. Foi assim que pôde disputar a Copa de 2010.

A idade avançada impediu que Paredes arranjasse uma transferência a um grande centro da Europa. No entanto, o centroavante se firmou como um dos grandes atacantes do continente com a camisa do Colo-Colo. Em sua primeira passagem pelo clube, entre 2009 e 2012, anotou 50 gols pelo Campeonato Chileno e conquistou seu primeiro título na elite, o Clausura 2009. Aventuraria-se rapidamente pelo México, onde também foi artilheiro, vestindo as camisas de Atlante e Querétaro. Mas já estava de volta ao Monumental em 2014. O que parecia um último ato pelo Colo-Colo, no fim das contas, se tornou o período mais vitorioso do camisa 7.

Nestes últimos cinco anos, Paredes anotou 99 gols pelo Campeonato Chileno. Conseguiu ser artilheiro da liga em mais quatro campanhas – três delas nos torneios semestrais e, de volta à competição anual, mais outra em 2018. Também faturou três taças da liga e foi eleito o melhor jogador do certame na edição de transição em 2017. Uma lenda que fez por merecer tamanha primazia. Entre gols e assistências pela primeira divisão, o camisa 7 sustenta uma média de quatro gols gerados a cada cinco partidas.

Aos 39 anos, Paredes se aproxima do final da carreira. Entretanto, não surpreenderá se prolongar um pouco mais a trajetória por outras marcas. Com 192 gols, ele é o terceiro maior artilheiro da história do Colo-Colo. Está a 13 tentos do próprio Chamaco Valdés e a 16 de Carlos Caszely, ídolo absoluto do Cacique. Levando em conta as médias do centroavante, um ano a mais o ajudaria a arrebatar também este recorde, mas ele precisa renovar seu contrato antes disso. A grandeza de seus feitos já alçaram El Tanque a um lugar único na história do futebol chileno e este poderá ser mais um passo à eternidade.

Gráfico elaborado pelo jornal chileno La Tercera

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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