América do Sul

A Copa América estreava há exatos 100 anos, e com dois heróis negros para refutar o racismo

José Leandro Andrade se tornou o primeiro jogador de futebol a romper a barreira imposta pelos oceanos e ser aclamado mundialmente. O uruguaio protagonizou a conquista do ouro pela Celeste nos Jogos Olímpicos de 1924. Um negro admirado em campos europeus, algo raríssimo na época – e, naquelas proporções, inédito. Dono de uma habilidade notável, o meio-campista ganhou o apelido de ‘A Maravilha Negra’ dos franceses. Mas não foi o primeiro jogador de seu país a rebater o preconceito dentro das quatro linhas. Logo a primeira partida da Copa América contou com um episódio de racismo. Refutado pela qualidade de Isabelino Gradín e Juan Delgado, os primeiros heróis do torneio continental.

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Ambos os charruas eram bisnetos de escravos. Nascido em Montevidéu, Gradín despontou cedo no Peñarol. Aos 19 anos, se destacava tanto pelo talento quanto pela capacidade física de quem chegou a ser campeão sul-americano dos 200 e dos 400 metros livres. “As pessoas se levantavam quando ele se lançava em uma velocidade espantosa, dominando a pelota como quem caminha, e sem se deter evitava os adversários, e arrematava na corrida”, descreve Eduardo Galeano, no livro ‘Futebol ao Sol e à Sombra’. Delgado, por sua vez, nasceu no interior e defendeu o Central Español até chegar ao Peñarol em 1916, aos 27 anos. Era um meio-campista técnico e combativo, herdeiro da camisa 5 do lendário John Harley, escocês considerado como grande influência do estilo de jogo uruguaio.

Gradín e Delgado foram titulares absolutos da Celeste na primeira edição do então chamado Campeonato Sul-Americano. E brilharam no jogo na estreia, em 2 de julho de 1916: 4 a 0 sobre o Chile, com direito a dois gols do atacante, além de outros dois de seu parceiro José Piendibene. No dia seguinte, contudo, os chilenos tentaram anular a partida. Afirmavam que o Uruguai escalara “dois africanos”. Preconceito ignorado pela organização do torneio.

gradin

A dupla esteve em campo também nas outras duas partidas da seleção uruguaia na competição, terminando com a taça. Gradín, inclusive, marcaria mais um gol. Fez o primeiro na virada por 2 a 1 sobre o Brasil, que teve o placar aberto pelo mulato Friedenreich. O atacante terminou como artilheiro do certame e eleito o melhor jogador. Ídolos no Peñarol, ambos foram campeões nacionais em 1918 e 1921. Gradín, por sua vez, ainda seria titular em toda a campanha do Campeonato Sul-Americano de 1919, quando a Celeste perdeu a decisão de 150 minutos contra o Brasil.

Nenhum dos dois, porém, viveu as glórias da seleção uruguaia na década de 1920. Delgado se aposentou em 1921, aos 32 anos, se tornando roupeiro do Peñarol – ofício que depois desempenharam o seu filho e o seu neto. Já Gradín não pôde participar das Olimpíadas de 1924 por causa da cisão que se deu entre os clubes do país, quando tinha trocado os carboneros pelo Olimpia. O atacante fez sua última partida pela Celeste em 1927, um ano antes de recusar a convocação aos Jogos de Amsterdã. O jogador vigoroso faleceu em 1944, aos 47 anos, na miséria. Dias antes, o elenco aurinegro foi ao hospital onde estava internado dedicar ao velho craque o título do Campeonato Uruguaio, que encerrava uma hegemonia de cinco anos do Nacional. Sua memória, hoje, é melhor lembrada pelo poema escrito por Juan Parra del Riego.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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