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A Conmebol coloca em xeque a relevância das Eliminatórias ao preferir manter o formato para 2026

Atendendo a um pedido das federações, a Conmebol pretende manter o formato de pontos corridos, mesmo com até sete classificados na América do Sul para a Copa

Repensar as Eliminatórias será um dos maiores desafios da Fifa para a Copa do Mundo de 2026. Com o inchaço gerado pelo aumento no número de seleções participantes, os formatos das competições qualificatórias precisarão ser alterados em sua maioria para oferecer um mínimo nível de disputa. E, na América do Sul, os presidentes das federações preferiram ignorar isso. Nesta segunda-feira, a Conmebol divulgou um comunicado em que expressa a intenção de preservar o modelo das Eliminatórias em pontos corridos. A decisão foi tomada durante reunião do conselho da entidade, em Santiago. O detalhe é que serão dez times brigando por seis vagas e por um lugar na repescagem. A quantidade de jogos irrelevantes será alta.

As Eliminatórias Sul-Americanas garantiam, ao longo das últimas três décadas, uma das melhores competições de pontos corridos do mundo. Em algumas edições, como na última, Brasil e Argentina dispararam e deram uma impressão de menor competitividade. Entretanto, no geral a briga quase sempre foi acirrada pelas quatro primeiras colocações e pelo lugar na repescagem. Com o impacto que o mando de campo exerce no continente, sobretudo por questões geográficas, imperar nas Eliminatórias era um desafio. Porém, o número de vagas dilatado reduz esse peso dos confrontos.

Era de se esperar que o formato fosse repensado, para aumentar o nível de emoção e de competitividade. Poderiam fazer como aconteceu em 1994, por exemplo, com grupos menores que reduzem as chances de alguém disparar. A questão é que os dirigentes não querem abrir mão do dinheiro que o atual formato proporciona. São nove partidas como mandante, o que garante uma enxurrada de dinheiro entre cotas televisivas, bilheterias e patrocínios. Preferiram não quebrar muito a cabeça para repensar o modelo.

A Conmebol deveria ser a responsável por oferecer alternativas. Encontrar outras formas lucrativas de preencher o calendário e não perder a relevância dos jogos. Mais confrontos com as seleções da Europa, algo levantado nas discussões recentes com a Uefa? Uma Liga das Nações em conjunto com a Concacaf, algo que já até pareceu se desenhar em outros tempos? Alguma valorização dos clássicos locais em novos formatos? Por enquanto, o caminho adotado é mesmo o mais preguiçoso e um tanto quanto arriscado a longo prazo, mesmo que confortável no curto prazo.

E isso não surpreende, afinal. A atual gestão da Conmebol, de Alejandro Domínguez, preferiu empanturrar o calendário com formatos que se tornam repetitivos e desvalorizam suas competições. Para nem entrar no futebol de clubes, prova disso é o que acontece com a Copa América. Mesmo boas histórias parecem desgastadas com o excesso de edições realizadas pela confederação. Entretanto, enquanto os torneios continuarem a encher os cofres da confederação, os cartolas não veem tantos problemas. Essa perda de interesse tende a atingir em cheio as Eliminatórias.

Dá para dizer que esse ciclo de 1998 a 2022 foi uma “era de ouro” para as Eliminatórias. Algumas vezes a disputa se arrastou, mas o formato era simples de se entender e valorizava o caráter regional do futebol de seleções sul-americano. Melhor ainda quando praticamente todos os times se viam com chances de buscar uma vaga no Mundial, mesmo que Bolívia e Venezuela não tenham conseguido. Entretanto, o inchaço do Mundial tende a tornar esse modelo sem sentido. Especialmente para Brasil e Argentina, os protagonistas da competição, que deverão se garantir com mais sobras mesmo quando não vierem tão bem.

Discutir possibilidades e pensar caminhos que tornem o futebol mais interessante deveriam ser praxe. Todavia, o que prevalece é mesmo a politicagem. A Copa do Mundo com 48 seleções já foi uma decisão bastante questionável, regida pelos interesses políticos nos corredores da Fifa. O mesmo acontece na definição sobre as Eliminatórias, com a Conmebol preferindo beneficiar os cartolas e aqueles que formam sua base de poder. Perde o futebol, com um torneio que tende a ser mais arrastado e com uma relevância menor.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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