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A Chape segue viva em seu sonho de América e escreverá um épico contra o River Plate

O futebol insiste em nos brindar com boas histórias. No entanto, por mais que todo mundo saiba e sinta isso, a imaginação humana não consegue prever o quão longe a realidade pode ir. Muitas vezes, nem mesmo a ficção consegue ser tão fantástica. E a mais nova prova disso está se desenrolando na Copa Sul-Americana. Chapecó viverá o seu maior episódio futebolístico nas próximas semanas. Graças ao clube que mexeu com clima da cidade de 200 mil habitantes no interior de Santa Catarina. A Chapecoense, que há uma década enfrentava sérios problemas financeiros, estará nas quartas de final da Copa Sul-Americana. Cumprirá o sonho de muitos times, ao poder enfrentar o River Plate no Monumental de Núñez. Terá a chance de desbancar o atual campeão da Libertadores, da Sul-Americana e da Recopa.

A façanha da Chape ao longo da última década já foi grande o suficiente. Da crise que obrigou o clube a mudar de nome, a recuperação veio até cedo demais, com o título do Catarinense em 2007. Para, a partir de 2009, os alviverdes escreverem sua incrível ascensão no Campeonato Brasileiro. O primeiro passo veio na Série D. Depois, foram mais duas temporadas batendo na trave na Série C, até subir mais um degrau. E aí, de imediato, os catarinenses já foram vice-campeões na Segundona. Para quem tinha o objetivo de apenas assegurar a permanência, com um elenco de orçamento abaixo dos rivais, a equipe deu um passo maior que as pernas. Mas não caiu. Candidata óbvia ao rebaixamento na Série A, a Chapecoense foi osso duro de roer na elite. Surpreendeu. Ficou. E se classificou à Sul-Americana.

Ver a Chape na competição continental já era impensável para os seus torcedores. Pois o time avançou até as oitavas de final, passando pela Ponte Preta. Até derrubar o favorito Libertad, acostumado a disputar Libertadores e Sul-Americana nos últimos anos. É fato que o Gumarelo não viveu grandes momentos nos últimos dois anos. Mesmo assim, era um adversário de nome para os alviverdes. Que não diminuíram e por pouco já não fizeram história em Assunção, ao ter a vitória nas mãos até os 48 do segundo tempo, quando os paraguaios buscaram o empate por 1 a 1. Mas ainda tinha o reencontro na Arena Condá, onde até os maiores times brasileiros costumam suar.

O ambiente era de festa nas arquibancadas, com 9,3 mil presentes. Apesar disso, Libertad até fez parecer que a experiência internacional pesaria, ao abrir o placar aos quatro minutos. Só que o gol sofrido não abalou a Chapecoense. Os catarinenses buscaram o empate logo aos oito minutos, com Túlio de Melo – veterano que pode não ter rodagem pela América do Sul, mas já disputou Champions e Liga Europa em seus tempos de Lille. Valeu demais ao Verdão. O jogo se seguiu bastante tenso, com poucas oportunidades de gol, e o goleiro Danilo aparecendo quando necessário. Já na segunda etapa, a Chape ficou com um a menos desde o primeiro minuto, com a expulsão de Wanderson. Teve suas oportunidades para virar, embora tenha contido a pressão dos visitantes também. O destino era mesmo a emoção. A disputa por pênaltis, com o placar repetido do duelo de ida.

Na marca da cal, preponderou a calma da Chapecoense. Danilo fez aquela catimba básica de goleiro e Rodrigo López isolou logo o primeiro chute do Libertad, depois que Bruno Rangel já tinha aberto o placar. Na sequência, todos fizeram. Neto, Cleber Santana e Gil mantinham os catarinenses em vantagem. E a responsabilidade de decidir coube a Tiago Luis. A promessa santista nunca se tornou o “Messi brasileiro”, como um dia o Marca estampou em sua capa. Mas cobrou o pênalti derradeiro com a precisão de um craque, mesmo com o goleiro Rodrigo Múñoz acertando o canto. Vitória por 5 a 3, Chape nas quartas de final.

O River Plate é o franco favorito para buscar seu quarto título continental consecutivo. O que pouco importa diante da grandeza do que a Chapecoense já conseguiu. Ainda que os riscos de rebaixamento no Brasileiro sejam grandes, e a permanência na elite seja mais vantajosa financeiramente para o clube, o momento é único. A chance de fazer história está nas mãos dos alviverdes. Vão de peito aberto para o Monumental de Núñez, sentir o clima de um dos estádios mais fantásticos do mundo. E tentarão dar sua própria pressão na Arena Condá, onde acontece a partida de volta. Quem sabe, para dar continuidade ao épico. O sonho permanece. Ainda mais quando ele já se fez realidade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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