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A angústia se fez alegria: o Atlético é campeão da América

Tijuana, Newell’s Old Boys e, por fim, Olimpia. Três momentos em que as chances se esvaiam, que a angústia tomava conta, que o tal azar parecia prevalecer. As esperanças da torcida, no entanto, nunca morreram. “Eu acredito” era o grito incessante, acompanhado por uma batida descompassada de tambor, que parecia representar o coração de cada um dos 60 mil presentes no Mineirão. Forte, brigador e, acima de tudo, sem se entregar jamais, o Atlético Mineiro fez valer essa confiança para se sagrar campeão da Libertadores.

A derrota por 2 a 0 no Defensores del Chaco foi revertida com um placar idêntico em Belo Horizonte. Desta vez, o Galo provou que a superioridade técnica é bem mais valiosa que o peso da camisa, ao se impor sobre o Olimpia e mostrar que só empenho não faz um vencedor. Ainda assim, a definição do título só veio nos pênaltis. Outra noite de Victor, santificado durante a competição. Aquele que escreve seu nome na história como o mais novo libertador da América. A América atleticana.

Vontade não faltou ao Atlético Mineiro e isso era evidente desde os primeiros minutos. Porém, também ficava claro que a pressa era inimiga dos anfitriões. Na tentativa de acelerar o primeiro gol, a equipe de Cuca era afobada demais. Não punha a bola no chão, pouco pensava na hora de criar. Preferia limitar-se aos chuveirinhos e era neutralizada por um Olimpia ciente de sua vantagem.

Para piorar, o Decano também sabia ser perigoso nos contragolpes. Atacava pouco, mas, quando o fazia, era com perigo. A melhor chance do primeiro tempo foi dos paraguaios, em um chute cruzado de Fredy Bareiro que Victor salvou. Assim como no jogo de ida, Alejandro Silva era o homem mais perigoso dos franjeados, avançando com liberdade pelas laterais. E só não abriu o placar por pura incompetência na conclusão.

A areia caia na ampulheta e o Atlético se complicava no próprio desespero. Faltava atitude, faltava coragem, faltava objetividade. Ronaldinho, outra vez, estava sumido em campo, mas seus companheiros de ataque também pecavam pelo excesso de erros. O intervalo veio e a Libertadores se distanciava cada vez mais ante tanta apatia.

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Não havia melhor para o Galo erguer a cabeça. A bronca de Cuca parece ter dado resultado e o time voltou com outra postura para o segundo tempo. Partiu para tudo ou nada e logo no primeiro minuto, veio o gol que aliviou a massa alvinegra. Jô encarregou-se de estufar as redes, de lembrar que o título ainda era possível. A deixa para uma pressão fortíssima dos atleticanos, que pareciam tornar o segundo tento questão de minutos.

Não foi tão fácil. Muito por conta do goleiro Martín Silva, que fechou a meta do Olimpia. O camisa 1 realizava uma série de milagres e, aos poucos, via o Galo gastar suas energias. Enquanto isso, os franjeados ainda esperavam aquele momento certo, o golpe fatal que mostraria quem era o Rey de Copas. Ele até veio, com Ferreyra, que perdeu um gol inacreditável. Era a sorte que parecia mudar de lado.

Nos cinco minutos finais, o Atlético ressuscitou. Silva operou outra defesa fantástica, Tardelli perdeu também perdeu uma ótima chance, impedido, e Manzur foi expulso. Com um a mais, os mineiros complementaram a superioridade técnica com a numérica. Uma matemática infalível para dar como resultado o segundo gol. De novo sofrido, aos 42 do segundo tempo. Com Leonardo Silva, o salvador da vez.

O massacre atleticano era tamanho que impressão era a de que o terceiro tento viria ainda no tempo regulamentar. Não aconteceu. Os alvinegros precisariam suportar mais 30 minutos de apreensão. Não tão doloridos, já que o Galo amassou o Olimpia em 25 deles. Faltou só o gol, que os livraria novamente dos pênaltis. Contudo, o calvário era necessário para finalizar o épico.

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Victor tratou de se consagrar como o herói desta Libertadores ao defender a cobrança de Miranda, a primeira do Decano. Alecsandro, Guilherme, Jô e Leonardo Silva, um a um, todos perfeitos ao converterem para o Atlético. E, na quinta cobrança para os paraguaios, a trave, que tinha privado dois gols aos mineiros no tempo normal, barrou o chute de Giménez. Vitória por 4 a 3. Mais uma vez, o impossível estava feito.

Os atleticanos deixam para trás anos de piadas, o hiato desde o Brasileirão de 1971, a angústia de ficar limitado a um papel secundário. O Galo se reafirmou como um dos grandes do futebol brasileiro. Foi além, ao chegar ao topo das Américas, ao colocar as mãos na Libertadores pela primeira vez. Agora, o Mundial de Clubes é o limite para uma torcida marcada pelo sofrimento, mas dona de uma alegria sem fim.

Formações iniciais

Galo Olimpia

Destaque do jogo

Jô. O atacante mudou o jogo quando o Atlético mais precisava. Incendiou o começo do segundo tempo, marcou o primeiro gol e protagonizou as melhores chances da equipe. Depois, acabou sufocado pela defesa fechada do Olimpia, mas fez sua parte ao converter seu pênalti. Ainda terminou como artilheiro da Libertadores, com sete gols.

Momento-chave

O gol perdido por Ferreyra, aos 39 do segundo tempo. Em contra-ataque do Olimpia, o centroavante driblou Victor e tinha o caminho livre para marcar, mas caiu sozinho e deu tempo para que a defesa atleticana se recuperasse. Se fizesse o gol, os paraguaios empatariam. Três minutos depois, Leonardo Silva ampliou para o Galo.

Os gols

1’/2T – GOL DO ATLÉTICO! Cruzamento de Rosinei pelo lado direito. Pittoni fura feio e a bola sobra para Jô. O centroavante finaliza prensado, a bola desvia e tira as chances de defesa de Martin Silva.

42’/2T – GOL DO ATLÉTICO! Cruzamento da direita e Leonardo Silva cai na área pedindo pênalti. O árbitro não marca, o zagueiro levanta e sobe para desviar de cabeça, encobrindo o goleiro Martin Silva.

Curiosidade

Ronaldinho é o sétimo jogador a conquistar a Libertadores e a Liga dos Campeões. Cafu, Dida, Walter Samuel, Juan Pablo Sorín, Carlos Tevez e Roque Júnior.

Ficha técnica

ATLÉTICO MINEIRO 2×0 OLIMPIA [Nos pênaltis, Atlético 4×3]

Atlético Mineiro Atlético Mineiro
Victor, Michel (Alecsandro, 27’/2T), Leonardo Silva, Réver e Júnior César; Pierre (Rosinei, no intervalo) e Josué; Diego Tardelli (Guilherme, 35’/2T), Ronaldinho e Bernard; Jô. Técnico: Cuca.
Olimpia Olimpia
Martín Silva, Julio Manzur, Hermínio Miranda e Salustiano Candía; Ricardo Mazacotte, Wilson Pittoni, Eduardo Aranda, Alejandro Silva (Matías Giménez, 26’/2T) e Nelson Benítez; Juan Manuel Salgueiro (Báez, 37’/2T) e Fredy Bareiro (Juan Carlos Ferreyra, no intervalo). Técnico: Ever Hugo Almeida.
Local: Mineirão (Belo Horizonte-BRA)
Árbitro: Wilmar Roldán (COL)
Gols: Jô, 1'/2T; Leonardo Silva, 42'/2T. Nos pênaltis, Alecsandro, Guilherme, Jô e Leonardo Silva marcaram para o Atlético; Ferreyra, Candia e Aranda marcaram para o Olimpia, Miranda e Giménez perderam
Cartões amarelos: Bernard e Luan (Atlético); Manzur, Giménez, Salgueiro, Benítez, Ferreyra e M. Silva (Olimpia)
Cartões vermelhos: Manzur (Olimpia)
Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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