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20 momentos de puro êxtase que devem se perder na final da Libertadores em campo neutro

A atmosfera na cidade se transforma. Todas as ruas e avenidas parecem fluir para o mesmo epicentro, o estádio. A maioria das pessoas caminham apreensivas, seja pela ansiedade da glória que pode vir ou pelo temor de ver o rival triunfar a poucos metros dali. O ar se rompe constantemente pelo som dos fogos ou dar gargantas apressadas, que já não querem mais guardar o grito de campeão. Até que, no meio da noite, o terremoto começa. Pode se transformar em luzes, em fumaças, nas cores dos papeis picados, no desenrolar das bobinas. A forma depende do hábito de cada torcida. Mas objetivo é sempre o mesmo: engrandecer a si e tornar ainda mais grandiosa a final da Libertadores.

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Desde 1960, avançar à decisão da Copa já é um prêmio oferecido aos torcedores. A chance de exibir para toda a América o fervor de sua própria paixão nas arquibancadas. Não importa o que se passará nos 90 minutos seguintes. Há um troféu que se materializa gigantesco, em formato de estádio, composto da mais pura essência de Libertadores. A partir do recebimento, então, limpa-se a alma e abre-se o peito para viver a máxima intensidade da decisão no quintal de casa.

Em poucos continentes, o fator campo possui tanto valor quanto entre os sul-americanos. É a chance de contar com a pressão da própria torcida. De submeter o rival às cansativas viagens. De fazer um pedido aos ancestrais e contar com as intempéries geográficas que muitas vezes interferem no que acontece em campo. Como ficaria a confiança do Boca Juniors sem a avalanche xeneize na Bombonera? O Atlético Nacional teria tanta certeza diante do Independiente del Valle, um time que uniu o Equador em torno de sua causa, mas nem de longe possuía o mesmo calor? O Atlético Mineiro viveria seu milagre contra o Olimpia em outro ponto perdido do continente? O Corinthians se libertaria longe do Pacaembu? Perguntas que ficam em um revisionismo intragável, só forçado pela mudança de regulamento na Libertadores.

A adoção do campo neutro pode ter suas vantagens. Vende melhor o “produto”, especialmente à medida que se dirige ao hemisfério norte. Pode nem ser esse desastre que muitos começam a pintar – afinal, se a fé move até montanhas, mover milhares de torcedores é fácil. Mas não dá para cair na falácia que tentam vender sobre decisões mais ‘equilibradas’. Não dá para achar que a estrutura e as carteiras da América do Sul se comparam às da Europa – até porque, mesmo os mais desprendidos do dinheiro, terão que continuar pagando o carnê na época do Mundial, e reduziriam outras famosas invasões. Não dá para se enganar achando que o espetáculo será igual, dividido meio a meio em algum estádio lendário. Haverá festa, sim, mas em proporções menores. Nada das ebulições duplas, uma em cada estádio. E os confetes forjados pela Conmebol.

A característica que mais reluz na Libertadores é a sua particularidade. A capacidade de cada clube para criar um encanto em si, uma mística em busca da Copa. Aquele detalhe da namorada (ou do namorado) que só conhece o charme quem está perdidamente apaixonado. É assim a cada final, que quase sempre nos oferece dois amores diferentes por ano – isso quando não temos a sorte de viver aquele antigo, realmente nosso. Que nos bota em êxtase duas noites a dentro, cada uma com suas cores e suas vibrações próprias. Que renova a nossa crença no futebol a partir do transe fervoroso de milhares, irradiado para o resto do continente desde as arquibancadas. E que, em campo neutro, perderá toda essa parcialidade de uma explosiva festa para si. Será ainda Libertadores, mas mais asséptica. Menos Libertadores.

Abaixo, para relembrar aquilo que deve ficar agora só na memória, relembramos 20 cenas ocorridas entre os torcedores da casa em finais de Libertadores de 2005 para frente – até porque vídeos antigos são mais raros. Para diferentes sensações, pegamos 19 clubes distintos. O único repetido é o Boca Juniors e sua Bombonera inflamada:

A ânsia do Atlético Nacional por reconquistar a Libertadores em 2016

A união dos equatorianos em torno do Independiente de Valle em 2016

A ebulição do Monumental pelo River Plate em 2015

Os bandeirões e o mar amarelo do Tigres em 2015

As luzes do San Lorenzo na espera de uma vida pela Copa em 2014

A chuva branca do Nacional no Defensores del Chaco em 2014

O ruído ensurdecedor no Mineirão com o gol de Leonardo Silva em 2013

O mosaico em 360 graus do Olimpia em 2013

A libertação corintiana com o apito final no Pacaembu em 2012

Uma noite de final de Libertadores na Bombonera em 2012

O Santos botando fogo no Pacaembu em 2011

O Centenário em amarelo e preto pelo Peñarol em 2011

A atmosfera vermelha para o Estudiantes em 2009

A calorosa recepção ao Cruzeiro no Mineirão em 2009

A torcida da LDU honrando o apelido do Estádio Casa Blanca em 2008

O Maracanã virando um caldeirão do Fluminense em 2008

Os fogos do Olímpico pelo Grêmio em 2007

O Beira-Rio de alma colorada em 2006

A vibração da torcida do São Paulo no Morumbi em 2005

Uma noite de final de Libertadores na Bombonera em 2007

Bônus:

O menino que driblou os seguranças e saiu na foto oficial do Colo-Colo em 1991

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Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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