Uli Hoeness: “A vantagem da Bundesliga é a independência de oligarcas, e isso eventualmente terá impacto favorável no médio prazo”
Ex-presidente do Bayern falou sobre o modelo de gestão da Bundesliga, o atual momento dos bávaros e a empolgação com Sadio Mané

Os debates sobre a injeção de capital na Bundesliga são frequentes. Muita gente que vê de fora defende que os clubes alemães deveriam se abrir a investidores estrangeiros. Internamente, porém, existe um apoio amplo à independência financeira e ao conceito de 50+1 – por mais que isso traga seu custo na competitividade, com o Bayern de Munique muito distante dos outros. Ex-presidente do clube e ainda hoje conselheiro, Uli Hoeness abordou o assunto em entrevista recente ao Sport Bild. Para o veterano, ainda que a Premier League tenha vantagem esportiva gerada pelo dinheiro, ele acredita que a independência da Bundesliga poderá ter impactos favoráveis no futuro.
Hoeness não chegou a fazer uma discussão crítica da supremacia do Bayern ou das distâncias na Bundesliga, bem como não abordou o patrocínio recebido do Catar ou mesmo a situação da Red Bull em Leipzig. Ainda assim, reforçou a ideia de gestão dos clubes alemães: “Eles não são melhores que nós, eles apenas têm mais dinheiro disponível. A vantagem esportiva da Premier League é comprada com dinheiro estrangeiro. Nossa grande vantagem é a independência dos oligarcas, de estados inteiros. Isso eventualmente terá impacto a favor da Bundesliga no médio prazo”.
Durante a conversa, Hoeness apontou inclusive a forma como o Bayern auxilia alguns clubes em dificuldade no futebol alemão – uma postura costumeira dos bávaros, para levantar fundos para garantir o licenciamento profissional e o pagamento de dívidas: “Quase não há clube na Bundesliga que não foi ajudado por nós. Rostock, Cottbus, Magdeburgo. Veja quão popular o Bayern é em St. Pauli, podemos nos orgulhar disso. Com essa postura conseguimos ajudar aqueles em necessidade e isso foi decisivo para mudar a opinião sobre o clube”.
Entre os exemplos positivos de gestão, o ex-presidente citou o Union Berlim, pela forma como vende jogadores importantes e permanece melhorando seu desempenho. Mas reconhece que tal modelo não seria viável para uma equipe que deseja competir com os gigantes de outras ligas: “É um clube muito bem sucedido, muito simpático. Eu gosto disso. Eles fazem um grande trabalho. Entretanto, é um conceito diferente. Você não pode ganhar a Champions League dessa maneira”.
A entrevista abordou outros assuntos. Hoeness não escondeu a empolgação com a chegada de Sadio Mané. Para o velho ídolo do Bayern, o senegalês pode estabelecer uma conexão única com a torcida e auxiliar na própria imagem do clube. Hoeness afirmou que ficou surpreso quando viu as imagens do atacante, logo após a goleada sobre o Eintracht Frankfurt, celebrando diante da torcida com o megafone nas mãos. Para ele, mesmo com as particularidades dos ultras, tal relação pode transcender.
“Sadio é incrível. Quando Hasan mencionou a transferência na reunião do conselho, eu disse: ‘Se conseguirmos, você pode comprar sem nossa permissão!’. O fato é que Hasan ter conseguido isso é uma obra-prima. Mané não bebe álcool, sua vida inteira consiste em jogar futebol. Esse é um sonho para o time e para a nossa imagem pública”, afirmou o dirigente.
O ex-presidente, inclusive, reiterou seu apoio ao trabalho realizado por Hasan Salihamidzic e Oliver Kahn à frente do Bayern: “Sempre estive 100% em apoio a Hasan, nos bons momentos e nos ruins. Todos na diretoria executiva se desenvolveram bastante nos meses recentes. E uma coisa é clara. Para mim, em 1979, ‘aprender fazendo’ com um faturamento de 10 milhões de marcos era mais fácil do que ‘aprender fazendo’ hoje, com 700 milhões de euros de faturamento. A pressão é maior. Não há dúvidas disso”.
Para Hoeness, é importante a maneira como o Bayern de Munique se posiciona para os jogadores. Para o ex-presidente, o clube construiu uma imagem sobre o seu ambiente que atrai grandes nomes. Há uma relação interna que favorece os bávaros nos últimos anos.
“Humanidade significa ser generoso de tempos em tempos, tolerar as fraquezas – o que não era vantajoso para o clube num primeiro momento. Mostrar que o Bayern não é um clube mercenário. A palavra se espalha”, declarou. “Os jogadores conversam. De Ligt falou com Robben e Lerby antes de se juntar a nós. Um jogador como Sadio Mané sabe o que faz o Bayern funcionar. Os franceses falam entre si. Quando trouxemos Ribéry, falei para Lizarazu e Sagnol ligarem para ele. A Europa inteira sabe agora que somos um clube familiar, que as coisas são humanas em nosso país. O Bayern não é um clube mercenário, no qual os jogadores só vêm por dinheiro”.
“Era meu objetivo que um clube de futebol se transformasse num grande clube no qual as pessoas gostassem de trabalhar. Não apenas os jogadores, mas também os demais funcionários. Fazia parte da minha filosofia questionar externamente quem acreditava estar no topo. Por outro lado, ajudar aqueles que estavam fracos e por baixo”, complementou Hoeness.
Tal postura do Bayern é importante inclusive para atrair talentos além das fronteiras. Questionado sobre uma declaração passada, de que os bávaros deveriam montar a base da seleção alemã, Hoeness não pensa mais assim: “Eu disse isso na Copa do Mundo de 2006. Hoje você precisa ser um clube global, você precisa tentar contratar os melhores jogadores do mundo. O critério é apenas bom ou ruim. Não é velho ou novo, não é negro ou branco, não é holandês ou alemão”.
Outro assunto abordado por Uli Hoeness em sua entrevista foi o restabelecimento do futebol alemão após a pandemia. Para o dirigente, a maneira como os estádios voltaram a lotar é surpreendente. Desta maneira, ele acredita na retomada do crescimento paulatino da liga.
“Eu duvidava que todos os torcedores voltariam de imediato. E agora o oposto é verdade. O entusiasmo se tornou ainda maior. É uma loucura. Neste momento, todos os temores se foram. E nós ainda tendemos a tornar tudo ruim, especialmente parte da imprensa. Acho que nosso governo está lidando bem diante das condições”, avaliou o veterano.



