Bundesliga

Piszczek se despediu do Borussia Dortmund com uma idolatria genuína que diz muito sobre honrar a camisa

O defensor passou dez anos no Signal Iduna Park e vai voltar para o time de sua cidade natal, na quarta divisão polonesa

A rodada final da Bundesliga guardou muitas despedidas. E o Borussia Dortmund ofereceu seu adeus a um dos jogadores mais identificados com o clube nas últimas décadas. Lukasz Piszczek chegou ao Signal Iduna Park numa temporada transformadora, em 2010/11, quando os aurinegros retomaram a Salva de Prata depois de anos de incerteza. Ao longo dessa caminhada, foi um dos jogadores mais dedicados do elenco e também um dos mais próximos da torcida. E se não deu para ir além do bicampeonato na Bundesliga em 2011/12, o polonês ainda experimentou a última glória antes de sair de cena, sendo um dos mais festejados durante a conquista recente da Copa da Alemanha. Aos 35 anos, o defensor volta para a Polônia e defenderá o clube de sua cidade natal, na quarta divisão. Fica para sempre a relação profunda que construiu no BVB.

Quando chegou ao Borussia Dortmund, com 25 anos, Piszczek já tinha uma carreira experimentada. Começou como atacante e estourou como artilheiro do Campeonato Europeu Sub-19 em 2004. Foi assim que o Hertha Berlim o descobriu, tirando o da base do Gwarek Zabrze. Antes de se firmar na capital, o novato acabou emprestado ao Zaglebie Lubin e defenderia o clube em suas três primeiras temporadas como profissional. Por lá, assumia funções mais ofensivas e acumulava gols. Depois de ganhar rodagem no Campeonato Polonês e causar impacto, mudou-se a Berlim em definitivo. Piszczek ficaria três anos no Hertha, começaria a ser deslocado à lateral e seria um dos melhores jogadores do clube na Bundesliga 2009/10, apesar do rebaixamento. Ao fim de seu contrato, ficava livre para buscar um novo destino. Escolheu Dortmund.

A ligação de Piszczek com o Dortmund começava antes mesmo de seu nascimento. Afinal, a cidade alemã possui uma grande comunidade de imigrantes poloneses, que chegaram ao Vale do Rühr para trabalhar na indústria e nas minas de carvão, e participaram da constituição do clube desde seus primórdios. A legião de jogadores poloneses não foi tão numerosa ao longo das décadas no BVB, mas Jürgen Klopp montou sua pequena colônia. Jakub Blaszczykowski já estava por lá quando Piszczek chegou, e Robert Lewandowski foi outra contratação daquele momento. Juntos, seriam fundamentais à ascensão da equipe a partir de 2010/11.

De início, Piszczek era concebido como um ponta direita pelo Borussia Dortmund. Porém, bastaram algumas rodadas para o novato tomar conta da lateral direita, mesmo com a presença do tarimbado Patrick Owomoyela no setor. Além do empenho na marcação, seu dinamismo e sua participação intensa foram fundamentais à afirmação. No Signal Iduna Park, se firmou como um dos melhores defensores da Bundesliga. E o sucesso falava por si. Conquistou dois títulos nacionais como parte fundamental da equipe, também foi importantíssimo na jornada até a decisão da Champions League. Em suas três primeiras temporadas, foram 25 assistências e seis gols anotados na Bundesliga, que ressaltavam sua capacidade no apoio. Ainda assim, era a dedicação vista à beira do campo que o valorizava no BVB.

A temporada de 2013/14 custaria um pouco do espaço de Piszczek, com uma lesão no quadril que já o fazia jogar no sacrifício durante os meses anteriores e que o tirou de quase metade da Bundesliga. A partir desse momento, os problemas físicos se tornaram mais frequentes e custariam seus minutos em campo. Mas não que diminuíssem sua importância nos vestiários ou junto à torcida. Quando estava em campo, Piszczek permanecia como um elo forte com a camisa. E sua imagem como um símbolo aurinegro se reforçaria, ainda mais com as mudanças internas e as saídas de nomes notáveis do começo da década de 2010.

O veterano era uma referência e um exemplo interno. Que, com o passar dos anos, não teve vaidades para se readaptar. Se o fôlego não era o mesmo de outros tempos para atuar na lateral, começava a aparecer no meio-campo e principalmente na zaga. Não perdia a liderança, não perdia a entrega, não perdia a lealdade. O respeito, aliás, ocorria com seus companheiros e com os adversários. Piszczek nunca foi suspenso em jogos de Bundesliga. Acumulou míseros 25 cartões amarelos e nenhum vermelho em suas 332 aparições pelo campeonato, contando também os tempos de Hertha. Foram somente 150 faltas cometidas, um número absurdamente baixo considerando sua função defensiva.

A temporada passada viu Piszczek voltar a ter frequência no time. Chegou aos 29 jogos, sua maior marca na Bundesliga desde 2012/13, muito utilizado no esquema com três zagueiros de Lucien Favre. Ainda assim, o fim de sua passagem pelo Signal Iduna Park se aproximava. A hora chegaria em 2020/21. O veterano encarou diferentes questões musculares e ficou mais tempo na reserva. Ao fim de seu contrato, o adeus era questão de tempo. Mas as últimas semanas, de maneira surpreendente, permitiram uma despedida até poética a Piszczek.

O polonês retomou a posição na lateral direita. Foi titular na incrível reta final do Dortmund na Bundesliga, ajudando o time a conquistar a vaga na Champions. E também disputaria os 90 minutos da final da Copa da Alemanha, dando sua contribuição à goleada por 4 a 1 sobre o RB Leipzig. Seria bastante celebrado no Estádio Olímpico de Berlim, lançado ao alto nos braços dos companheiros. Reapresentava seu melhor nível e era reconhecido como um dos grandes.

No último sábado, Piszczek disputou o derradeiro de seus 382 jogos pelo Borussia Dortmund. Com 264 aparições pela Bundesliga, ele é o segundo estrangeiro que mais vestiu a camisa aurinegra na competição, só atrás do brasileiro Dedê. O defensor usou a braçadeira de capitão e experimentou a última vitória, com os 3 a 1 sobre o Bayer Leverkusen. Uma pena que o adeus não tenha acontecido com o Signal Iduna Park cheio, como sua história merecia. Mas o elo com a Muralha Amarela será para sempre – onde uma camisa 26 gigante esteve estendida para o jogo final, junto com outras faixas deixadas lá de antemão pelos torcedores. O clube planeja fazer um amistoso de despedida, com arquibancadas lotadas, numa ocasião para o tamanho da ligação de Piszczek com o BVB.

“Foi muito emocionante quando entrei em campo antes do jogo. Vi toda a Südtribune preparada. Foi muito surpreendente, fiquei muito orgulhoso de receber uma despedida num clube como o Dortmund. Só posso agradecer aos torcedores pelo carinho”, declarou Piszczek. “Sabia que a situação não permitiria a presença dos torcedores. É assim que as coisas são. Espero que em algum momento eu possa vir aqui e possa dizer obrigado quando houver torcida novamente. Sinto falta deles nas arquibancadas, da energia gerada por eles. Quando você está em campo e vê a Südtribune cheia… Sentimos falta disso nos últimos meses e eu também sentirei no futuro”.

O fim da carreira de Piszczek diz muito sobre seu caráter. Ele vai defender o LKS Goczałkowice-Zdrój, localizado na cidadezinha de 6 mil habitantes onde nasceu. Foi lá onde ele começou sua trajetória, saindo aos 16 anos, e para lá que ele volta disposto a jogar na quarta divisão. Haverá ainda um clima todo familiar, já que seu pai e seu irmão também vivem o dia a dia no clube. E quando veterano pendurar as chuteiras de vez, sabe que sempre terá uma casa de portas abertas na Alemanha. Uma casa onde 80 mil pessoas cantarão seu nome a cada vez em que reaparecer.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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