Bundesliga

Os alemães viveram uma semana péssima na Liga Europa e outra vez a competição se torna uma decepção à Bundesliga

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A Alemanha apontava para uma temporada histórica nas copas europeias, ao colocar seis representantes nos mata-matas. No entanto, bastou uma fase da Liga Europa para velhos questionamentos retornarem. Os times da Bundesliga naufragaram de forma retumbante no torneio secundário da Uefa, mesmo contra adversários acessíveis. E ambos derrotados dentro de casa nesta quinta-feira. O Hoffenheim vinha de uma temporada instável, mas parecia capaz de despachar o Molde, ainda em início de temporada na Noruega. Depois do empate por 3 a 3 na Espanha, em que os alemães jogaram fora uma vantagem de dois gols, perderam também em Sinsheim por 2 a 0. Já o Bayer Leverkusen vem em mau momento e pegava um adversário difícil. Mas perder as duas contra o Young Boys não é nada lisonjeiro.

Contando as duas últimas décadas, a Bundesliga teve poucas campanhas relevantes na Copa da Uefa / Liga Europa. Os times do país não levaram um título sequer, com dois vices. Além disso, foram somente seis semifinalistas alemães. Os números se tornam ainda mais emblemáticos ao olharmos que a maioria destes casos se limitam a um passado já longínquo: Kaiserslautern (2001), Borussia Dortmund (2002), Bayern de Munique (2008), Werder Bremen (2009) e Hamburgo (2010). A única exceção nos últimos dez anos é o Eintracht Frankfurt, com uma caminhada fantástica até a semifinal em 2019, quando deixou a vaga na decisão escapar diante do Chelsea.

O Eintracht Frankfurt tantas vezes pareceu exceder suas possibilidades naquela edição, ao despachar oponentes do porte de Internazionale e Benfica. Entretanto, ver esse impacto de um clube alemão se torna cada vez mais raro. Não deveria existir um sentimento de inferioridade, considerando as campanhas razoáveis que acontecem na Champions League, com vários times do país batendo cartão nos mata-matas. De qualquer maneira, é impressionante como os insucessos se repetem, especialmente numa competição que deveria ser mais aberta e competitiva.

Não dá para comprar o discurso de que os times alemães abaixo da quarta posição são tão inferiores aos representantes das outras grandes ligas, exceção feita à Premier League. Por elenco, o Bayer Leverkusen não deixa a desejar em relação a Villarreal ou Roma, outros sobreviventes da atual edição do torneio. Da mesma maneira, o Hoffenheim não parece, no papel, exatamente inferior ao Granada, até por ter mais rodagem nos torneios continentais. Contudo, a decepção é evidente, por tudo o que a dupla germânica não apresentou neste início de mata-matas da Liga Europa. O Wolfsburg, vale lembrar, caiu logo nas preliminares.

Tantas vezes, uma boa campanha na Liga Europa depende das circunstâncias. Muitos times que terminam na terceira colocação em seus grupos na Champions caem com pinta de favoritos no torneio secundário. O sorteio também influencia, claro, com chaveamentos mais acessíveis. Mas a representatividade acaba se tornando aquém do que se espera de um país que, desde 2009, figura entre os quatro primeiros colocados do Ranking da Uefa.

O Bayern de Munique, dono absoluto da Bundesliga, costuma passar longe da Liga Europa e das quedas precoces na Champions. A última vez em que esteve no torneio secundário, em 2008, sucumbiu exatamente para o Zenit na semifinal. O Borussia Dortmund é outro que possui uma relativa estabilidade na Champions e, nas duas únicas vezes que disputou a Liga Europa desde retornar ao topo com Jürgen Klopp, derrapou contra Liverpool e Red Bull Salzburg. A missão, geralmente, recai sobre o resto do bolo que compõe o pelotão inicial da Bundesliga.

Schalke 04 (2012, 2017), Hannover 96 (2012), Wolfsburg (2015), RB Leipzig (2018) e Leverkusen (2020) chegaram a bater nas quartas de final da Liga Europa durante a última década. Borussia Mönchengladbach e Stuttgart foram até as oitavas. Augsburg, Hertha Berlim e Hoffenheim ainda figuraram nos 16-avos de final. Colônia, Freiburg e Mainz 05 ainda estiveram na fase de grupos. Porém, mesmo com toda essa diversidade, os clubes secundários da Alemanha parecem um nível abaixo do que poderiam. Especialmente quando, com um bom poderio financeiro, Werder Bremen e Hamburgo chegaram próximos de tocar o troféu da competição em 2009 e 2010.

Ainda que os modelos de Bremen e Hamburgo tenham se mostrado pouco sustentáveis com o passar dos anos, especialmente diante do flagelo dos Dinossauros na segunda divisão, talvez aquelas campanhas tragam alguns indicativos do que acontece. O perfil de investimento era um pouco diferente do que se nota como padrão na atual Bundesliga. Ambos contavam com um número razoável de jogadores tarimbados. Concentraram forças na Liga Europa e quase aproveitaram o momento, com resultados marcantes.

O caminho mais comum na Bundesliga é transformar o elenco num celeiro, capaz de desenvolver jogadores jovens e também captar promessas de outros países. É nesse caminho que muitos postulantes às primeiras posições correspondem, fazendo sua roda girar com a revelação de promessas e vendendo esses valores para garantir a manutenção do negócio. Não raro, todavia, falta um pouco mais de profundidade nos elencos e mais experiência para os confrontos europeus. Nota-se pela quantidade de deslizes.

Exigir que os clubes alemães invistam mais em jogadores renomados parece inviável, numa estrutura administrativa que foge do comum em relação a outros países da Europa. Há uma responsabilidade financeira muito maior e também uma administração que respeita o caráter associativo das instituições. Não dá para virar as costas à responsabilidade que impera na Bundesliga e ao próprio modelo que se volta mais aos torcedores. Porém, na cadeia alimentar que existe no futebol europeu, as equipes da Alemanha acabam se portando bem mais como revendedoras e não possuem o mesmo poder de mercado visto na Inglaterra ou na Espanha.

Feitas as devidas ponderações, apesar de tudo isso, o papel da Bundesliga na Liga Europa é menor do que os clubes deveriam almejar. Cair para Young Boys e Molde não tem a ver necessariamente com poder de mercado ou com as apostas dos clubes, mas também com uma falta de preparação e de foco maior no torneio. Financeiramente, sobretudo a um time de parte de cima de tabela como o Leverkusen, vale muito mais alcançar a Champions do que avançar uma ou duas fases na Liga Europa. A preocupação com o G-4 do campeonato nacional, hoje, é maior. Com isso, enquanto o pau come na competitiva liga, a copa europeia fica em segundo plano.

Esperar uma boa campanha dos alemães na Liga Europa vai mais do senso de urgência que os clubes sentem no torneio e também da maneira como a torcida abraça a ideia. No caso do Eintracht Frankfurt, foi notável o apoio massivo que rolou nas arquibancadas para empurrar as Águias até as semifinais, naquilo que parecia um compromisso com a tradição do clube. Além disso, Adi Hütter montou uma equipe competitiva e com jogadores de boa rodagem internacional, mesmo rodeado de promessas. A postura combativa do Frankfurt naquela campanha, especialmente contra adversários mais tarimbados, deveria ser considerada exemplar.

Bayer Leverkusen e Hoffenheim, por outro lado, sofreram tremendos apagões nos confrontos desta Liga Europa. Nas partidas de ida, os dois representantes alemães acumularam vacilos e dificultaram a missão para o jogo de volta. De qualquer maneira, a abertura que concederam dentro de casa e os erros fatais culminaram no fracasso. Até pelas opções ofensivas e pela qualidade do elenco, o Leverkusen se torna uma imensa decepção, por mais que o Young Boys domine o futebol suíço e cresça além das fronteiras. E isso ocorre num momento em que os Aspirinas patinam na Bundesliga, despencando desde que pintaram na liderança e pareciam ter forças para se meter na briga pela Salva de Prata.

Com as derrotas de Leipzig e Gladbach na ida da Champions, a tendência é que apenas dois clubes alemães sobrevivam rumo às quartas de final – os mesmos de sempre, Bayern e Dortmund. O patamar geral da Bundesliga se mantém no Ranking da Uefa e é bem difícil imaginar o país perdendo suas vagas nas competições continentais a médio prazo, mesmo na quarta colocação atualmente. Ainda assim, ver o coadjuvantismo na Liga Europa passa do razoável.

Além de questões estruturais, que são um ponto, falta uma cultura de Liga Europa mais arraigada entre os principais times da Alemanha. Se financeiramente o torneio não é tão atrativo, ele serve de instrumento de internacionalização e de termômetro à liga no interesse além das fronteiras. Derrocadas como as de Leverkusen e Hoffenheim só reforçam a imagem de que a Bundesliga é dominada por um ou dois caciques, quando o que se em campo vai além disso. Porém, os representantes do país também precisam justificar essa competitividade contra adversários mais acessíveis.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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