Bundesliga

Os 60 anos de Littbarski, o camisa 7 driblador que adicionava um toque de arte à seleção alemã

Ainda no início da carreira, quando dava os primeiro passos no Colônia, Pierre Littbarski ouviu um conselho de seu treinador: “Pegue a bola e deixe ela dançar. Faça algo belo”. O comandante era ninguém menos que Hennes Weisweiler, lenda do clube e um dos comandantes mais vitoriosos da Bundesliga. O jovem levaria aquelas palavras para a vida. Não é exagero dizer que, na história do futebol alemão, nenhum outro jogador dominou tanto a arte dos dribles. A Mannschaft contou com craques consagrados por outros tipos de virtudes, mas raríssimos por sua habilidade para gingar e enfileirar marcadores. Litti representou um toque de magia ao país nos anos 1980, que culminou na conquista da Copa do Mundo em 1990.

A qualidade de Littbarski era tão grande que muitas vezes ele foi chamado de “brasileiro”. E, segundo o próprio alemão, uma das pessoas que o rotularam assim foi Felipão, em um bem humorado encontro. Franzino e com as pernas tortas, o camisa 7 fugia do estereótipo do “tanque de guerra” germânico, mas tinha suas próprias armas. Ambidestro, ziguezagueava com os dois pés e confundia os marcadores, que não sabiam para qual lado ele arrancaria. A jogada em que passava a bola da direita para a esquerda, ou vice-versa, se transformou em marca registrada. E os predicados iam além, sobretudo pelos golaços de longe (com as duas pernas) e pelos cruzamentos precisos. Por muito apanhar, também aprendeu a se defender e não costumava desistir das jogadas.

“Como futebolistas, somos antes de tudo artistas, que vivem mais dos aplausos do que do dinheiro”, filosofava Littbarski. Tal pensamento se traduzia em campo, através de suas jogadaças e de seus gols de placa. A carreira nem foi tão vitoriosa quanto poderia, com muitos vices e campanhas que bateram na trave. No entanto, o título de campeão do mundo com a Alemanha Ocidental e a idolatria no Colônia já valem por toda sua trajetória. Litti chega aos 60 anos como um personagem emblemático ao futebol germânico, pelos sorrisos que provocava com seus dribles e por seu reconhecido senso de humor. O chamado ‘Gnomo de pernas tortas’ permanece adorado.

Littbarski nasceu na Berlim Ocidental em 16 de abril de 1960, às vésperas da construção do muro ao redor da cidade pelo regime da Alemanha Oriental. O garoto cresceu com os avós e o futebol servia mais como um passatempo, quando os planos era seguir com os estudos e tornar-se contador como o pai. Um episódio importante ao futuro futebolista ocorreu em 1974, durante a Copa do Mundo. Litti atuou como gandula no Estádio Olímpico, repondo a bola no empate entre Alemanha Oriental e Chile durante a fase de grupos.

Aquela partida representou um sonho a Littbarski. Morando a seis quilômetros do Muro de Berlim, o jovem estava acostumado a visitar parentes do lado oriental (o trânsito além da divisão era permitido aos ocidentais) e acompanhava a Oberliga vizinha. Como gandula, conheceu de perto alguns de seus ídolos. “Sabia o nome de todos os jogadores. Não havia muito futebol na televisão alemã-ocidental na época, então, como um garoto apaixonado por futebol, você assistia ao que podia – como um Carl Zeiss Jena contra Stal Mielec pela Copa da Uefa. Jürgen Croy [goleiro histórico da DDR] me agradeceu quando devolvi a bola para um tiro de meta. Aquele foi um momento especial para mim”, recontou, ao site da federação alemã. A aproximação aumentou seu sonho de seguir em frente na carreira.

Levado pelo avô, Littbarski já atuava nas categorias de base do Schöneberg, um pequeno clube amador da cidade. A empreitada dentro de campo ficou mais séria a partir dos 16 anos, quando os testes em outros times berlinenses se tornaram frequentes. O Hertha Berlim era o principal objetivo, mas a baixa estatura e o físico frágil o barraram após a peneira. Assim, ele ganharia a chance em outro Hertha da cidade, o Zehlendorf. Apesar da projeção inferior, a equipe fazia bom papel nas divisões de acesso e era reconhecida por suas prolíficas categorias de base. Tudo o que Litti precisava.

O talento do novato falou mais alto no ‘Pequeno Hertha’. Littbarski viveu bons momentos nos juniores do Hertha Zehlendorf e ganharia fama no país desde então. O adolescente liderou o título dos alviazuis no Campeonato Berlinense, o que garantiu uma vaga nas finais do Campeonato Alemão da categoria. A equipe acabaria com o vice nacional, derrotada pelo Duisburg na final. Apesar dos 5 a 2 favoráveis aos adversários no placar, Litti anotou ambos os tentos de seu time.

Era raro que jovens da Berlim Ocidental fossem observados por olheiros do resto do país, diante da burocracia para entrar na cidade cercada pelo muro. Mas o torneio de base serviu de vitrine a Littbarski. Receberia uma ótima oferta: estraçalhado pelo jovem nas quartas de final do torneio, o Colônia desejava adicioná-lo às suas fileiras. Litti torcia pelo dominante Borussia Mönchengladbach até aquele momento, mas não pôde recusar o convite feito pelos maiores rivais. Juntaria-se aos Bodes logo após o título da Bundesliga 1977/78, no qual interromperam o tricampeonato do Gladbach com uma conquista só garantida pelo saldo de gols.

A contratação de Littbarski seria viabilizada por Karl-Heinz Thielen, antigo ídolo do Colônia que trabalhava como diretor do clube àquela altura. Referência no ataque durante dois títulos nacionais dos Bodes na década de 1960, o veterano sabia o que estava fazendo. O técnico Hennes Weisweiler não estava tão impressionado assim e precisou ser convencido por Thielen de que o negócio realmente valia a pena. Porém, bastaram alguns treinos para que o comandante desse razão ao dirigente. A habilidade do atacante preponderava mesmo contra os atuais campeões da Alemanha Ocidental.

Littbarski sequer se aclimataria à base do Colônia. Weisweiler decidiu integrá-lo diretamente ao elenco principal. A estreia na Bundesliga aconteceu na terceira rodada, titular no empate fora de casa contra o Kaiserslautern. Duas semanas depois, a promessa anotou seu primeiro gol, para garantir o empate contra o Fortuna Düsseldorf. E, ainda que não fosse nome absoluto na equipe, o rapaz de 18 anos ganhou um bom número de aparições naquela primeira campanha com os Bodes. Foram 16 jogos e quatro gols anotados.

Não era simples a Littbarski competir por seu espaço no Colônia, porém. Em um elenco fortíssimo, o atacante disputava seu lugar com Roger van Gool – belga que havia sido a primeira contratação na história da Bundesliga a superar a barreira de 1 milhão de marcos. Dez anos mais velho, o companheiro fez um comentário nada animador ao garoto antes de sua estreia: “Aproveite, porque este será seu último jogo”. Além do mais, nos treinos, os colegas não aliviavam àquele moleque atrevido. O ponta arisco era um alvo fácil às entradas mais duras. Assim, ele aprendeu como se proteger cedo e também a dar o combate.

Hennes Weisweiler percebeu que limitar Littbarski apenas à ponta era um desperdício. Desta maneira, o garoto passou a atuar com liberdade para se movimentar – geralmente como meia ofensivo, às vezes mais adiantado como segundo atacante. Os dribles estonteantes poderiam abrir defesas em qualquer lado e o craque aproveitaria melhor sua aptidão para jogar com os dois pés. Sua evolução seria bastante rápida. Outro nome importante à sua aclimatação no clube foi o goleiro Toni Schumacher, de quem ganhou o apelido de “Litti”. O camisa 1 chegou a vender um fusquinha ao amigo, com o qual o novato fazia suas longas viagens para visitar a família em Berlim Ocidental.

No banco de reservas, Littbarski assistiu à eliminação do Colônia nas semifinais da Champions 1978/79, em histórico confronto com o Nottingham Forest de Brian Clough. Todavia, a partir de sua segunda temporada, o meia se tornou titular absoluto no Estádio Müngersdorfer. Não se ausentou em uma rodada sequer na Bundesliga, com 34 jogos e sete gols, e fez Van Gool se acostumar com o banco de reservas. O clube terminou o campeonato em quinto. Além disso, Litti disputou a final da Copa da Alemanha com os Bodes, em duelo no qual a equipe deixaria a taça escapar contra o Fortuna Düsseldorf. Pouco antes disso, Hennes Weisweiler havia saído do time, após bater de frente com medalhões e entrar em litígio com a direção.

A partir dos anos 1980, o Colônia se manteve como uma equipe importante na Bundesliga, mas não exatamente vencedora. O elenco passou por uma sensível renovação e, apesar da boa geração, faltou um pouco mais para os Bodes conquistarem seus títulos. Em 1980/81, além do oitavo lugar no Campeonato Alemão, a equipe sucumbiu nas semifinais da Copa da Uefa contra o Ipswich Town de Sir Bobby Robson. Já em 1981/82, bateria na trave dentro da própria Bundesliga, com o vice a três pontos do campeão Hamburgo. Em compensação, Littbarski não podia reclamar por si. Individualmente, seu futebol florescia. Era ajudado por Rinus Michels, contratado para substituir Hennes Weisweiler a partir de outubro de 1980.

O célebre técnico do Ajax também ocupara o imaginário de Littbarski durante a Copa de 1974, com o futebol revolucionário da Laranja Mecânica. Já em Müngersdorfer, os dois não tiveram uma relação tão positiva, mas o comandante explorava a qualidade técnica de seu jovem craque  e ele passou a balançar as redes com mais frequência, voltando a aparecer como ponta. Num elenco com boas alternativas ofensivas, Litti dobrou seu número de gols e se tornou artilheiro da equipe na Bundesliga 1981/82, com 15 tentos anotados. Abriu seu caminho, também, para se firmar na seleção principal da Alemanha Ocidental às vésperas da Copa do Mundo.

Nem teve como o técnico Jupp Derwall renegar Littbarski no Nationalelf, após a rápida ascensão a partir da seleção sub-21. Assim como acontecera no Colônia, ele causou impacto imediato na equipe que acabara de conquistar a Eurocopa. Sua estreia veio em outubro de 1981, num duelo contra a Áustria em Viena pelas Eliminatórias da Copa. O estreante de 21 anos anotou dois gols na virada por 3 a 1, que confirmou a presença dos alemães-ocidentais no Mundial – o primeiro deles, num lindo chute. Já na partida seguinte, ele contribuiu com um tento e três assistências nos 8 a 0 sobre a Albânia em Dortmund. Feito um furacão, o meia ganhou seu posto como titular. Participaria de todos os amistosos prévios até o início da Copa do Mundo.

A campanha da Alemanha Ocidental no Mundial da Espanha provoca um misto de sensações. Cheia de arrogância, a Mannschaft prometeu golear a Argélia na estreia, mas perdeu por 2 a 1. A classificação na fase de grupos só ocorreria depois da chamada ‘Desgraça de Gijón’, em que alemães-ocidentais e austríacos armaram o resultado para que ambos os times avançassem juntos. Contudo, o time de Jupp Derwall pegou embalo e terminaria a Copa se classificando à final. Uma das razões a esta mudança de ares veio muito graças a Littbarski, dono da camisa 7.

Durante a fase de grupos, três dos seis gols marcados pela Alemanha Ocidental tiveram assistências de Litti. Ainda assim, o meia cresceu na segunda fase, em triangular contra Inglaterra e Espanha que definiria um semifinalista. Após o empate por 0 a 0 com os ingleses, o Nationalelf eliminou os donos da casa graças ao triunfo por 2 a 1. Os dois tentos tiveram participação de Littbarski. No primeiro, aproveitou um rebote do goleiro Luis Arconada. Já no segundo, ao receber o passe de Paul Breitner dentro da área, o camisa 7 deu um corte humilhante em Santiago Urquiaga logo no domínio e rolou para o lado, quando Arconada saía para abafar. Com a meta aberta, Klaus Fischer balançou as redes.

A histórica semifinal entre Alemanha Ocidental e França teria mais de Littbarski. Numa sobra na entrada da área, o camisa 7 abriu o placar, após já ter acertado uma paulada no travessão. Na prorrogação, foi essencial à reação de sua equipe. Os dois gols no empate por 3 a 3 nasceram a partir de cruzamentos do jovem – o primeiro concluído por Karl-Heinz Rummenigge e o segundo escorado para Klaus Fischer emendar de bicicleta. Além do mais, Litti converteu a quarta cobrança na disputa por pênaltis. Contribuiria à classificação rumo à final. E se a Mannschaft pouco competiu na vitória da Itália por 3 a 1, que garantiu o tricampeonato mundial ao time de Enzo Bearzot, Littbarski terminou como um dos melhores em campo entre os derrotados. Foi um bocado fominha, é verdade, mas parte das jogadas diferentes do time nasceram de seus pés.

Littbarski permaneceu no Colônia após a Copa do Mundo. Sua temporada seguinte com o clube seria ainda melhor, com 16 gols na Bundesliga 1982/83, apesar da quinta colocação. E o que realmente contou à sua idolatria junto à torcida foi, enfim, o primeiro título: os Bodes conquistaram a Copa da Alemanha sob o brilho de seu craque. Aquela decisão da Pokal seria especialmente simbólica, pelo dérbi contra o Fortuna Colônia. Então na segunda divisão, os rivais locais eliminaram Dortmund e Gladbach em sua caminhada à final. Entretanto, diante de 61 mil em Müngersdorfer, o time de Rinus Michels mostrou quem mandava na cidade. Litti decretou a vitória por 1 a 0 aos 23 do segundo tempo, concluindo um rebote na área.

Após a saída de Rinus Michels, o Colônia continuou fazendo campanhas razoáveis na Bundesliga, suficientes para se garantir na Copa da Uefa. Littbarski permanecia como destaque, com mais 17 gols em 1983/84 e 16 em 1984/85. Em 1985, ainda ganhou o prêmio de gol mais bonito da temporada, em uma jogada de raça e habilidade que valeu até o sorriso do goleiro do Werder Bremen. Além do mais, os Bodes faziam papéis dignos nas competições continentais. Alcançaram as quartas de final da Copa da Uefa em 1984/85, antes de brigarem pela taça na temporada seguinte. A decisão contra o Real Madrid, no entanto, não traria boas lembranças. A derrota por 5 a 1 no Bernabéu encaminhou o título aos merengues ainda na ida e tornou a vitória por 2 a 0 inútil ao time de Georg Kessler no reencontro. De volta ao plantel após meses afastado por lesão, Litti pouco ajudou naquelas finais.

Pela seleção, Littbarski seguia intocável nas convocações, mas perdeu espaço na Euro 1984. Saiu do banco em duas partidas, na campanha que se encerrou ainda na fase de grupos. Fez gols importantes na classificação à Copa do Mundo de 1986, sem repetir o mesmo impacto no Mundial do México. A falta de ritmo por causa de uma lesão na preparação atrapalhou, embora o camisa 7 tenha sido utilizado com frequência pelo agora técnico Franz Beckenbauer durante o segundo tempo dos jogos. Na disputa por pênaltis contra o México, chegou a anotar o gol que botou os alemães-ocidentais nas semifinais. Entretanto, sua lesão se agravou e não sairia mais do banco. Do lado de fora, viveria outro vice, desta vez com a derrota para a Argentina na final.

“Em 1986, não éramos um time. Jogadores de Hamburgo, de Colônia e de Munique se sentavam em mesas separadas quando iam comer. Eu era o único que falava com todo mundo, era amigo de muita gente do Hamburgo e do Bayern. Nunca me esquecerei de um dia em que Beckenbauer me chamou de lado e me pediu para unir o time. Eu só respondi que era o trabalho dele. Fiquei feliz quando esta Copa acabou”, relembrou, à revista 11 Freunde em entrevista recente. As piadas e o jeito espontâneo faziam de Litti aquele jogador ‘bom de grupo’, importante ao ambiente da concentração.

Em 1986, Littbarski se despediu do Colônia. O meia aceitou uma proposta do Racing de Paris, que montava um ambicioso projeto. Os parisienses foram as compras e trouxeram um caminhão de reforços – em lista de novidades que incluía Enzo Francescoli, Luis Fernández, Rubén Paz e Pascal Olmeta. Dentro de campo, porém, a equipe não emplacou e o 13° lugar no Campeonato Francês esteve distante de satisfazer. Os números de Litti caíram drasticamente, com quatro gols em 32 partidas. Após a saída de outros membros do clube que falavam alemão, o camisa 7 passou a se sentir isolado na França e até mesmo uma suástica foi desenhada para provocá-lo na cerca de sua casa. Disputou apenas dois jogos na liga seguinte, antes de fazer as malas. Queria voltar ao Colônia.

O retorno de Littbarski a Müngersdorfer, verdadeiramente, solidificou sua imagem como ídolo na Alemanha. O negócio não seria um mero capricho do astro. Naquele momento, o Colônia não tinha dinheiro para realizar a transferência. Desta maneira, Litti tirou 500 mil marcos do próprio bolso e bancou parte da transação, em empréstimo sem juros pago posteriormente pelos Bodes. Viraria um líder do elenco e, segundo suas próprias palavras, apresentou seu melhor futebol sob as ordens de Christoph Daum – com Udo Lattek ocupando o posto de diretor esportivo na agremiação.

Naquele período, Littbarski desempenhou um papel mais importante na criação do que na finalização ao Colônia. O camisa 7 abria espaços e entregava os gols aos companheiros, acumulando assistências. Mais do que isso, também ajudava nos bastidores. Ele era o responsável por editar os vídeos na preparação aos jogos. Compilava estatísticas sobre as equipes adversárias, imprimia e repassava aos companheiros. Fazia sozinho um trabalho que, no futebol atual, demanda diversos especialistas.

Referência técnica da equipe em ascensão, Littbarski encabeçou as boas campanhas dos Bodes na Bundesliga, por mais que a Salva de Prata não tenha vindo. O time de Christoph Daum terminou na terceira colocação em 1987/88, antes de ser vice nas duas campanhas seguintes, ambas atrás do Bayern de Jupp Heynckes. Já na Copa da Uefa, os alemães-ocidentais chegaram às semifinais em 1989/90. Eliminaram a forte equipe do Estrela Vermelha, antes de sucumbirem à Juventus. Bodo Illgner, Jürgen Kohler e Thomas Hässler eram bons nomes do período em Müngersdorfer. 

A nova fase com o Colônia serviria para revigorar a importância de Littbarski na seleção. Enquanto estava na França, o meia sofreu com questionamentos às suas convocações. Recuperou-se a tempo de ser titular na Euro 1988, quando a Alemanha Ocidental caiu nas semifinais para a Holanda. E a verdadeira redenção ocorreu nas Eliminatórias da Copa de 1990. A Mannschaft correu riscos de se ausentar do Mundial, mas contou com o papel decisivo do camisa 7. Litti abriu caminho para a goleada por 6 a 1 sobre a Finlândia na penúltima rodada, até a decisão contra Gales no compromisso final em Colônia.

Naquele momento, só uma vitória interessava à Alemanha Ocidental para se confirmar na Copa de 1990. Aumentando as tensões do jogo, o Muro de Berlim começou a ser derrubado naquela mesma semana e Beckenbauer teve dificuldades em fazer seus jogadores se concentrarem na missão, quando o assunto nos vestiários era o futuro do país. Pois foram dois garotos nascidos na Berlim Ocidental que decidiram aquela partida. Companheiros no Colônia, Littbarski e Hässler tinham um incentivo a mais em Müngersdorfer. Após Gales abrir o placar e Rudi Völler empatar, o gol da vitória por 2 a 1 saiu no início do segundo tempo. Litti bagunçou a defesa pela esquerda e cruzou para Hässler completar no segundo pau.

Ante a ausência do lesionado Matthäus, Littbarski usou a braçadeira de capitão naquele simbólico jogo. E ainda perdeu um pênalti, que não atrapalhou a classificação da Alemanha Ocidental. Com a queda do muro, a festa pôde ir além das fronteiras do país pronto a se reunificar. Litti era um dos tantos com parentes que se reencontravam sem mais os empecilhos provocados pela divisão política. “Hoje em dia, quando vou a Berlim, ainda conheço os lugares antigos para onde ia. Eu penso: quando criança, costumava vir aqui, mas hoje a rua continua, não para no muro. Para mim, é algo especial. Atravessar o Portão de Brandenburgo hoje pode ser normal, mas ainda sinto arrepios”, contaria, ao site da federação, em 2019.

Já na Copa do Mundo, Littbarski começou como reserva e ganhou a posição durante a fase de grupos. Saindo do banco, o camisa 7 contribuiu com duas assistências na goleada por 5 a 1 sobre os Emirados Árabes Unidos. Depois, utilizado também a partir do segundo tempo, fez o gol no empate por 1 a 1 contra a Colômbia. Beckenbauer passou a escalá-lo como titular a partir das oitavas de final, formando uma trinca no meio-campo. Litti teve uma atuação particularmente acesa contra a Holanda, infernizando os marcadores laranjas com seus dribles. Também participou da vitória sobre a Tchecoslováquia nas quartas, antes de voltar à reserva na semifinal contra a Inglaterra, por conta de uma torção no joelho. Com a classificação, o veterano passaria a véspera da decisão em tratamento, mas pediu aos fisioterapeutas para guardarem segredo sobre suas dores. Seria escalado por Franz Beckenbauer para o último confronto em Roma.

Littbarski ocupou o meio-campo ao lado de Matthäus e Hässler contra a Argentina. Durante o segundo tempo, o camisa 7 quase marcou um golaço no Estádio Olímpico, em raro momento de brilhantismo na morna partida. Litti recebeu pelo lado esquerdo do ataque e partiu para cima da marcação. Passou no meio de três adversários, driblando em espaço reduzido, antes de arriscar o chute da meia-lua. A bola saiu muito próxima da trave de Sergio Goycochea. Apesar dos lamentos pela pintura que não entrou, o meia comemoraria o merecido triunfo por 1 a 0, graças ao pênalti convertido no fim por Andreas Brehme. Após tantos vices, o craque ergueria a mais importante das taças. E depois ainda atacaria de DJ na festa pela façanha.

“Seria uma injustiça na história do futebol se não tivéssemos vencido aquela final. Fomos muito superiores, tivemos uns 60 ou 70% de posse de bola. Os argentinos em nenhum momento tentaram jogar futebol. Em 1982 e 1986, eu não consegui dormir antes das finais. Em 1990, dormi feito um bebê na véspera, porque sabia que éramos superiores e ganharíamos”, relembrou Littbarski, em entrevista à revista Kicker nesta semana. “No fim do jogo, senti uma certa euforia em cada passe, porque sabia que ninguém tiraria a taça. O jogo poderia durar mais 20 minutos depois do gol que eles não pegariam na bola. Foi um momento muito prazeroso”.

Littbarski aposentou-se da seleção logo após o título mundial. Foram 18 gols e 25 assistências em 73 partidas pelo Nationalelf, com 18 aparições em Copas do Mundo. A partir de então, passou a se dedicar apenas ao Colônia. Foram mais três temporadas em Müngersdorfer. Os Bodes oscilaram neste período, alcançando no máximo a quarta colocação na Bundesliga 1991/92. Além disso, a equipe retornou à final da Copa da Alemanha em 1991, mas perdeu nos pênaltis para o Werder Bremen. Nada que atrapalhasse a adoração da torcida por Litti, que seguia acumulando gols e assistências.

Aquela campanha na Copa da Alemanha, aliás, guardou um momento especial a Littbarski. Após o Mundial da Itália, ele precisou operar os ligamentos do joelho e passou seis meses parado. Sua volta foi triunfal, ao comandar a classificação nas quartas de final contra o Stuttgart: “Foi o jogo mais emocionante da minha carreira. Nós enganamos o Stuttgart: no meu primeiro treino com a equipe antes da partida, entrei mancando nos vestiários, com cara de dor. Torcedores e jornalistas batiam no meu ombro para me consolar. Mas eu estava só blefando. No dia do jogo, quando anunciaram a escalação no estádio, omitiram meu nome. Dos vestiários, ouvi o murmúrio da torcida. Pouco antes de entrarmos, meu nome foi repentinamente anunciado. As pessoas enlouqueceram. Dei a assistência para o gol decisivo na prorrogação. Nunca tive melhores 120 minutos como atleta”.

O adeus de Littbarski ao Colônia veio em 1993. Aos 33 anos, o veterano encerrava sua passagem pelos Bodes como um dos maiores ídolos da história do clube. O camisa 7 é um dos cinco atletas que superaram os 500 jogos pela agremiação. Foram 504 aparições e 144 gols, que o colocam ainda no posto de sexto maior artilheiro. Embora só tenha conquistado aquela Copa da Alemanha de 1983, sua trajetória vai muito além. Pesa bem mais a magia que provocava em Müngersdorfer com seus dribles e a própria relação que criou com os torcedores, algo evidente após seu retorno de Paris.

Todavia, este não seria o momento de Littbarski pendurar as chuteiras. O medalhão abraçou um novo projeto e seria uma das estrelas internacionais na primeira temporada da J-League, ao lado de lendas como Zico e Gary Lineker. O veterano assinou com o JEF United Chiba e, em seu desembarque em Tóquio, foi recebido por 5 mil torcedores. Apesar das turbulências na vida pessoal, com o fim de seu primeiro casamento, o alemão conheceu sua nova esposa e seguiu com os lampejos em campo, apesar das campanhas medianas de seu time. Litti permaneceu dois anos por lá, com dez gols anotados em 63 partidas pelo Campeonato Japonês. Por fim, entre 1996 e 1997, disputou a segundona local com a camisa do Brummell Sendai, o atual Vegalta. Aposentaria-se só então, aos 37 anos.

“Eu nasci de novo no Japão. Não que eu estivesse insatisfeito com minha vida anterior, mas encontrei um novo lar e uma paz interior, que ainda hoje me guia e me acompanha. Acima de tudo, admiro o respeito com que os japoneses se tratam, a forma de lidar entre si. Na Alemanha, o julgamento é feito em segundos, muitas vezes com preconceito, sem conhecer a pessoa. Os japoneses só se decidem quando pensam em paz. Absorvi essa filosofia de vida, a convivência social e a coexistência cultural. Scolari disse que sou brasileiro. Mas, no fundo, aparentemente sou japonês”, contaria, à Revista 11 Freunde.

Fora dos gramados, Littbarski permaneceu ligado ao futebol. Em seus últimos anos como jogador, já treinava os juvenis do JEF United. Sua carreira à beira do campo, contudo, esteve distante da mesma relevância. Trabalhou em clubes como o Yokohama FC, o Avispa Fukuoka, o Vaduz e o Duisburg. Seu maior sucesso aconteceu à frente do Sydney FC, com o qual conquistou a Champions da Oceania e a A-League, além de participar do Mundial de Clubes de 2005. Na Bundesliga, limitou-se ao papel de assistente no Bayer Leverkusen e no Wolfsburg. Os Lobos, por sua vez, abriram suas portas ao veterano e ele atua há uma década no clube, a maior parte do tempo coordenando o setor de observação.

Desde 2018, Littbarski se tornou embaixador do Wolfsburg e passou a se dedicar mais à família. Afinal, o sobrenome pode continuar presente no futebol durante os próximos anos: filhos de seu segundo casamento, Joel e Lucien Littbarski tentam a sorte nas categorias de base. Se herdarem a habilidade do pai, podem buscar a elite da Bundesliga, ainda que repetir as mesmas façanhas pareça difícil. Os dribles e os feitos colocam Litti num lugar especial na história do futebol alemão.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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