Bundesliga

O processo foi antecipado, mas a chegada de Nagelsmann no Bayern era questão de tempo

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O anúncio de Julian Nagelsmann como novo treinador do Bayern de Munique provoca zero surpresas, ainda que o peso da negociação gere inúmeras discussões. Desde que o “técnico prodígio” surgiu no Hoffenheim, era mais do que esperada sua passagem pela Baviera – onde, aliás, ele nasceu. O Bayern chegou a sondá-lo algumas vezes, mas Nagelsmann se mostrou mais disposto a dar passos seguros antes de saltar à maior potência da Bundesliga e cumprir seu sonho de infância, no time pelo qual torcia quando criança. O RB Leipzig permitiu que seu nível de exigência aumentasse, ainda que num ambiente de pressão mais controlada. O projeto ao lado da Red Bull se prometia mais longo, mas, no fim, o senso de oportunidade voltou a aproximar Bayern e Nagelsmann. Desta vez, nenhum quis fechar as portas, iniciando um casamento promissor a partir de 2020/21 – mesmo que, mais uma vez, volte à tona a noção de que os bávaros predam o Campeonato Alemão ao tirar os protagonistas dos concorrentes.

Desde que os problemas internos de Hansi Flick vieram à tona e o treinador manifestou que não gostaria de seguir no clube, o Bayern não parecia ter outro nome em mente além de Nagelsmann. A escolha era um tanto quanto óbvia. Hoje, no mercado, é difícil encontrar treinadores com o renome necessário para assumir um gigante como o Bayern de Munique. Dentre aqueles sem contrato, talvez o técnico mais vitorioso seja Massimiliano Allegri. Não seria uma aposta, diante do próprio estilo de jogo, que quebraria a mentalidade mais ofensiva pregada na Baviera durante os últimos anos. De resto, ficava difícil vislumbrar qualquer um disponível.

O Bayern também não se mostrava tão propenso a realizar uma aposta, como ocorreu com Niko Kovac, num momento em que o próprio Nagelsmann já era visto como favorito. O croata chegou bem avaliado por seu período à frente do Eintracht Frankfurt, mas desde o princípio estava claro como uma identidade de jogo não era seu forte nas Águias. Foi o que aconteceu em Munique, com outros entraves de relacionamento. Pensando em outros treinadores de bons trabalhos recentes na Bundesliga, exceção feita a Nagelsmann, os outros nomes mais capacitados talvez fossem Marco Rose e Adi Hütter – ambos já abraçando novos projetos antes que Flick anunciasse sua saída, além de não aplicarem necessariamente a cartilha de jogo esperada na Baviera. Desta maneira, sobravam menos cartas na manga.

Alguns até poderiam sugerir Joachim Löw como uma possibilidade – uma loucura, na real. Considerando a maneira como o técnico da seleção bateu de frente com os “senadores bávaros” na Mannschaft ou mesmo a horrível empreitada de Jürgen Klinsmann na Allianz Arena há pouco mais de uma década, quando um tal de Jürgen Klopp foi preterido, não parecia nada provável. Outro concorrente especulado com mais seriedade era Erik ten Hag, de grande trabalho no Ajax e que dirigiu o segundo time do Bayern no início da década. Apesar da badalação, não seria alguém tão acostumado ao nível de desafio do primeiro escalão.

Sobrava Nagelsmann: um treinador promissor, ambicioso, de ótima comunicação, aberto a inovações, autoconfiante, com um estilo de jogo ofensivo e capaz de conduzir o Bayern por um longo tempo. Ainda que sua experiência em alto nível seja pequena e sua prateleira de títulos permaneça vazia, parece ser suficiente para que ele se colocasse como a melhor das opções e ainda indicasse uma segurança para o futuro dos bávaros. A diretoria não mediria esforços para trazê-lo, o que ficou bem claro, num contrato de cinco anos.

Existia ali, também, um desejo mútuo. Nagelsmann se sentiu mais preparado para assumir o Bayern, em condições que talvez não encontrasse num convite futuro. Primeiro, por sua própria rodagem nos últimos dois anos. O Leipzig foi o clube alemão que mais bateu de frente com os bávaros, mesmo que a vitória ou o título não tenham vindo. Além disso, o RasenBallsport se tornou habituado à Champions League e atingiu uma histórica semifinal com o comandante. Em Munique, Nagelsmann assumirá um projeto deixado por Hansi Flick, que até possui seus pontos de desgaste sobretudo nos bastidores, mas praticou o melhor futebol do mundo há menos de um ano. Há um elenco em transição, com algumas lideranças saindo, mas jogadores com qualidade suficiente para sustentar o Bayern no topo. E a escolha do jovem treinador indica carta branca para conduzir o projeto por alguns anos a mais.

Nagelsmann abriu o sorriso ao Bayern. Bastava, então, que os bávaros cuidassem do término com o Leipzig. Os Touros Vermelhos se mostraram insatisfeitos com a perda de seu técnico, mas, no fundo, não tinham muito o que fazer. Não dava para mantê-lo a contragosto. Por mais que surgissem declarações públicas de que o clube poderia barrar a transação e de que o técnico não “desejava começar uma guerra”, por não haver uma cláusula de rescisão, era uma jogada suficientemente arriscada para bloquearem. A Red Bull aceitou €25 milhões pela liberação, um valor abaixo das maiores cifras do futebol, mas que se torna inédito na transferência de um treinador e que impressiona mais se considerarmos a retração do mercado durante a pandemia.

Se muitos clubes montam projetos em cima de jogadores, Nagelsmann oferece um projeto ao Bayern a partir do comando. Quantos treinadores, hoje, possibilitam tal pensamento? É um pouco parecido com o que os bávaros fizeram com Pep Guardiola. O novato não possui os mesmos feitos do catalão quando desembarcou em Munique e nem a mesma grife, mas apresenta virtudes raras na função e um currículo ótimo a quem tem apenas 33 anos. É uma aposta que ele mesmo faz em si, além disso, considerando o que também deixou para trás em Leipzig. Nagelsmann estava aclimatado na Red Bull Arena e tinha controle dos processos. Há algumas semanas, declarou que pretendia cumprir seu vínculo até o fim. Voltar-se contra a sua própria palavra tira um pouco de sua credibilidade e ele certamente está ciente que a fogueira das vaidades na Baviera é maior. Ainda assim, aceita a proposta com bem mais prós que contras.

Diante do valor pago no negócio, é importante frisar que o prazo de validade de um treinador costuma ser menor que o de um jogador. O próprio Guardiola saiu do Bayern sem um clima tão favorável, com críticas entre antigos ídolos do clube e cobranças sobre a Champions que nunca se concretizou. Porém, ao acertar com Nagelsmann, os bávaros indicam acreditar num planejamento mais longo que o comum a um técnico. O novo comandante possui uma maleabilidade notável e já deu inúmeras provas de como é capaz de manejar talentos, com variações táticas, mas sem perder a mentalidade ofensiva. Nagelsmann possui uma personalidade marcante o suficiente para explodir com tão pouca idade e tende a lidar bem com a realidade dos corredores na Baviera. Além do mais, é uma face para encabeçar os próximos passos do clube, num momento em que ocorrem também trocas significativas na gestão, com a passagem de bastão entre ídolos e a chegada de Oliver Kahn como CEO.

Também é preciso ponderar que nem tudo será garantia de sucesso a Nagelsmann. A pressão por resultados no Bayern é logicamente imensa e, ainda mais depois de um eneacampeonato na Bundesliga, o mero risco de perder o título já cria cobranças maiores – como bem sentiu Niko Kovac. O bom relacionamento com os superiores também será necessário, num ambiente no qual o novo técnico será forasteiro em meio a ídolos que se conhecem há tempos. A vitória de Hasan Salihamidzic na queda de braço com Hansi Flick demonstra como o treinador, por melhor que seja, não possui a palavra final.

Há a própria relação com o elenco, num momento em que o núcleo mais antigo se enfraquece, com as saídas de Jérôme Boateng e David Alaba. Construir pontes com Manuel Neuer, Robert Lewandowski e Thomas Müller, as três maiores lideranças, é fundamental. Mas também há um processo em que destaques mais jovens assumem as rédeas. Não tende a ser uma relação tão simples, considerando que muitos jogadores eram favoráveis a Flick e a confiança sobre Salihamidzic está estremecida. Nagelsmann precisa se colocar além da escolha dos diretores e, na Alemanha, a maneira como ele lida com os vestiários costuma ser elogiada – mesmo que nunca tenha assumido um grupo tão estrelado. Não há dúvidas, afinal, que este pode ser um trunfo além de seus conhecimentos táticos. A proximidade de Flick com o plantel foi uma razão fundamental ao sucesso do Bayern numa temporada atípica e interrompida pela pandemia.

No papel, o Bayern de Munique continua com um time para seguir hegemônico na Bundesliga por mais alguns anos, assim como para integrar o grupo de favoritos à Champions League. Nagelsmann é um treinador mais capaz de manter a toada nos bávaros do que foi Kovac, além de se sugerir também mais flexível do que Flick, pelo menos para repensar as questões em campo e trazer diferentes soluções à equipe. Dependerá da química que criará em Munique, algo fundamental ao trabalho de qualquer treinador, e que influencia o rendimento em campo. Também pesará a renovação do grupo, com a direção reforçando nos últimos anos a tendência em apostar em jovens – num trabalho no qual o novo técnico primou tanto no Hoffenheim quanto no Leipzig. Considerando ganhos e riscos, é provável que a maioria dos membros do Bayern receba bem o novo comandante. Difícil pensar em alguém que pudesse se encaixar tanto no ambiente, pensando na evolução do trabalho.

O adeus de Flick

Hansi Flick, do Bayern (Foto: Imago / One Football)

Se a empolgação com Nagelsmann é expressa, isso não reduz o moral de Flick por aquilo que construiu na Baviera. Dá para considerar um pequeno milagre o que conseguiu o antigo assistente, ao assumir um elenco rachado e um time desorganizado após a saída de Niko Kovac. O treinador transformou o Bayern do risco de perder sua dinastia da Alemanha a se tornar um dos campeões mais arrebatadores da década no futebol europeu. A Champions 2019/20 está marcada na história pela forma como os bávaros levaram o título, numa campanha de méritos evidentes. E, mesmo que a eficiência não tenha se mantido na segunda temporada, não se pode culpar o técnico por isso. O Bayern enfrentou limitações no plantel que não foram criadas por Flick, quando ele mesmo alertava o entrave. Ainda assim, dentro dos problemas, o time caiu em pé na Champions e tem tudo para confirmar o eneacampeonato nacional nos próximos dias.

O que certamente não deixará saudades, para Flick ou para Salihamidzic, foi a disputa interna sobre a postura do Bayern no mercado de transferências e na condução das renovações contratuais. O treinador perdeu a batalha e, diante da intransigência, preferiu tomar um novo caminho. Será interessante notar, aliás, qual será a postura dos bávaros com Nagelsmann no mercado. Salihamidzic pode até ter saído com respaldo de seus pares na diretoria, mas ficou claro como as movimentações foram insuficientes e o time perdeu fôlego em relação à temporada anterior, até pela maratona de jogos que acabou imposta e que criou desfalques por lesão. Para boa parte da torcida, o diretor é o vilão na saída de Flick. Uma abertura maior precisará ser criada com o novo técnico, seja para reforços de ocasião, seja por promessas da base que consigam renovar gradualmente o elenco – mesmo que Nagelsmann não tenha (por enquanto) o perfil de interferir tanto na política de mercado.

Tal racha interno se expressaria até mesmo na forma como Flick anunciou seu adeus. Após a eliminação na Champions, o treinador se sentou com a diretoria e ambas as partes concordaram com o rompimento, que deveria ser comunicado dentro de algumas semanas. Flick se antecipou. Conversou com os jogadores após a vitória sobre o Wolfsburg e anunciou publicamente sem o consentimento de seus superiores. Até mesmo Karl-Heinz Rummenigge, seu principal aliado, desaprovou o ato e repreendeu o treinador publicamente. O anúncio de Flick já não significaria mais qualquer empecilho em seu trabalho. Era mais um desabafo, pela maneira como a situação chegou a um limite, sem que seus pedidos fossem atendidos internamente. Num conflito de personalidades com Salihamidzic, não levaram muito em consideração os méritos do treinador.

Não é isso, de qualquer maneira, que mancha a imagem de Flick com torcedores e jogadores. Pelo contrário, a gratidão e o reconhecimento permanecem, com muitos dando razão ao técnico no debate. E existe também uma compreensão pelo momento em que Flick tomou sua decisão. Surgia uma oportunidade dourada ao antigo assistente da seleção para substituir Joachim Löw. As relações do técnico com a federação são excelentes, todos já conhecem sua capacidade e a própria equipe nacional poderá desfrutar de algumas bases de seu trabalho no Bayern. As portas estão mais do que abertas para que o novo escolhido conduza o próximo ciclo.

Até fica a impressão de que Flick poderia ter feito mais no Bayern, se as fraturas fossem resolvidas e se a diretoria o ouvisse um pouco mais. Assumir uma seleção se sugere como um retrocesso, mesmo que seja a Alemanha, quando o técnico poderia construir um legado maior no futebol de clubes e até faturado mais dinheiro com isso. De qualquer maneira, a decisão também é plenamente justificável. Flick sabe o que o espera na Mannschaft e também quem o espera. Mais do que isso, chega com a Champions no currículo para recobrar o moral dos alemães na Copa do Mundo e na Euro 2024, que realizarão em casa. Por experiência e por vivência, é o nome perfeito para a Alemanha. E chega com um lastro raro também entre os treinadores de seleções, com um talento mais do que comprovado para recuperar o prestígio do Nationalelf.

Como segue o Leipzig

Jogadores do RB Leipzig comemoram (Stuart Franklin/Getty Images/OneFootball)

Por fim, o RB Leipzig também não parece enfrentar o fim do mundo com a saída de Nagelsmann. É claro que existem mágoas e elas foram expressas principalmente por Oliver Mintzlaff, chefe global do futebol da Red Bull. O que o Bayern pretende fazer com o treinador era um pouco o que o Leipzig oferecia: um projeto de longo prazo, para que ele se tornasse o protagonista do sucesso. Enquanto os bávaros estão estabelecidos, porém, era o jovem comandante quem impulsionaria os saxões. Durante os últimos anos, a evolução se evidenciava e o Leipzig se estabelecia como o segundo time mais competitivo do país, o mais próximo de encerrar o reinado dos multicampeões. Os Touros Vermelhos se tornaram a principal ameaça na Bundesliga e ainda podem terminar a temporada com seu primeiro título de elite, nas semifinais da Copa da Alemanha. Mas perdem a liderança.

De fato, parece que a trajetória de Nagelsmann no RB Leipzig foi interrompida no meio do caminho. Durante sua primeira temporada, o técnico dava continuidade ao que havia feito Ralf Rangnick, mas sabendo que alguns jogadores-chave sairiam em breve – como Timo Werner. Além de potencializar seu artilheiro, o treinador não precisou dele para alcançar as semifinais da Champions. Já superava as expectativas, com um resultado pontual, mas que indicava os acertos na Red Bull Arena. Na atual temporada, se o Leipzig não foi tão impactante na Champions, conseguiu ser mais regular nos torneios domésticos. Lidou bem com a perda de seu principal goleador, ao dividir mais as responsabilidades em campo. E, mesmo que um grande destaque individual não tenha surgido a partir das contratações, alguns jogadores mais jovens melhoraram seu nível e o time se mostrava coletivamente mais preparado – tanto que perseguiu o Bayern por mais tempo.

Nagelsmann larga tal processo pela metade, com um time com ampla margem de crescimento e bons jogadores que devem permanecer na Red Bull Arena, embora Dayot Upamecano vá acompanhá-lo ao Bayern. De qualquer maneira, o bastão deverá ser passado a outro treinador de ponta preparado há tempos dentro da estrutura da Red Bull. Segundo a imprensa alemã, nos próximos dias o Leipzig deverá confirmar a chegada de Jesse Marsch, americano que se projetou no New York Red Bulls e nos últimos dois anos vinha à frente do Red Bull Salzburg.

O desafio que encarará em Leipzig é parecido com o que Marsch superou no Salzburg. A transição em relação a Marco Rose, vice-campeão da Liga Europa, não era tão simples. Em certos aspectos, dá até para dizer que o americano superou seu antecessor. Teve resultados impactantes na Champions, mesmo com quedas precoces. Mais importante, contornou as dificuldades do time, vendendo jogadores fundamentais no meio do caminho, como Erling Braut Haaland. O Salzburg não deixou de cumprir seus objetivos, emendou participações consecutivas na Champions (um feito e tanto, considerando o histórico de fracassos nas preliminares do torneio) e manteve a regularidade sem segurar seus protagonistas. Marsch pode não ser tão jovem ou ter a badalação de Nagelsmann, mas se mostra igualmente capaz de promover o crescimento do Leipzig.

Talvez a maior questão para Jesse Marsch, e para o RB Leipzig, sejam as mudanças mais amplas. O diretor de futebol Markus Krösche é mais um que deixará a Red Bull Arena neste verão, indicando um impacto maior na reorganização do clube. Christoph Freund, diretor esportivo no Salzburg, é o principal candidato a assumir o cargo no Leipzig. Mas, considerando o trabalho bem feito independentemente dos dois profissionais que sairão, Marsch conta com bases confiáveis para pelo menos seguir conduzindo os Touros Vermelhos no G-4 da Bundesliga e figurando na Champions. O salto em relação ao Bayern é que se sugere mais distante, ainda mais quando os bávaros atrapalham o planejamento dos principais concorrentes.

A discussão de sempre sobre predadores

Nagelsmann e o troféu da Copa da Alemanha – Foto: Imago / One Football

Do ponto de vista ético, o Bayern não fez nada de errado. Os bávaros viram uma oportunidade de mercado em busca do treinador que mais apetecia seus planos e pagou por isso – um valor até mais caro que o usual. Não é que o RB Leipzig também costume ser o clube mais leal à competitividade na Bundesliga, como os protestos recorrentes nas arquibancadas de clubes menores ajudam a lembrar, e nem que a Red Bull tenha agido de maneira tão diferente quando buscou Nagelsmann no Hoffenheim. Mas a concentração de forças em Munique levanta discussões mais acaloradas e até pertinentes a quem deseja ver um equilíbrio maior na Bundesliga.

Tratar a ida de Nagelsmann ao Bayern como raiz do desequilíbrio na Bundesliga é um erro – assim como seria ao tratar a mudança de Marco Rose ao Dortmund ou de Adi Hütter ao Gladbach. Até existe um pouco de hipocrisia do lado bávaro, quando Rummenigge deu declarações recentes sobre a forma como os clubes não “deveriam inflacionar o mercado”. Mas a questão é muito mais complexa e profunda, pensando em formas de tornar os demais clubes mais competitivos financeiramente. Considerando a realidade particular da Alemanha, em que a chegada de donos estrangeiros e a criação de uma estrutura de clubes que desrespeite o poder dos torcedores são amplamente rechaçadas, os caminhos são menos numerosos. Depende de muito mais paciência e acertos para um crescimento sustentável – algo ao qual o próprio Bayern serve de exemplo, pela forma como ascendeu durante os últimos 50 anos.

Distribuir melhor o dinheiro da TV é um caminho, assim como pensar numa divisão dos prêmios garantidos nas competições europeias. Talvez a melhor alternativa seja estimular patrocínios e ações de marketing, até pela força da economia alemã. A hegemonia do Bayern, afinal, é muito relacionada à atratividade do clube a grandes empresas e à imagem vitoriosa que amplia as possibilidades comerciais. O futebol alemão pode ser mais forte com maior competitividade interna e maior visibilidade internacional, o que ajudaria a distribuição de recursos. Mas fica claro também que o prestígio do Bayern não é só uma questão econômica.

Dentre os demais clubes alemães, o RB Leipzig é aquele que menos precisa de €25 milhões, num valor mais indenizatório do que qualquer outra coisa. Em Munique, mais do que encher os bolsos, Nagelsmann poderá atingir ambições maiores e ampliar exatamente uma dinastia já existente. Mostra como o entrave não está apenas no Bayern “roubar os destaques dos outros”, mas no trabalho bem feito dos bávaros para se manter no topo e nos motivos que tornam o clube um chamariz aos melhores profissionais.

O Leipzig pode reclamar de deslealdade, mas sabe que não conseguirá tal poder só com milhões de euros, mas também necessita de prestígio e tradição. A diferença, neste ponto, não está na conta bancária. E não será Nagelsmann que ajudará a reduzi-la, num processo que é mais longo que o próprio aumento da competitividade interna. Não era a Bundesliga mais competitiva há 15 anos, afinal, que impedia o Bayern de reunir os principais jogadores. O que precisa ser feito é um fortalecimento estrutural mais amplo, e não o enriquecimento de um ou dois concorrentes para variar os candidatos à taça. Isso leva mais tempo e depende de um ambiente mais sustentável – algo que a Bundesliga já tem. Mas também precisa de mais mecanismos internos por esse equilíbrio e por mais relevância internacional. Não é uma conta simples de equacionar, e por isso mesmo não pode ser apenas reduzida a clichês.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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