Bundesliga

O inédito decacampeão se coroa na Alemanha: Bayern fatura décima liga seguida ao derrotar o Dortmund

Num clássico abaixo da média, o Bayern não precisou de muito esforço para vencer o Dortmund - em retrato da própria campanha

Pela primeira vez na história das grandes ligas europeias, uma equipe conquista o decacampeonato nacional. O Bayern de Munique nunca tinha ido além do tri até o início da atual sequência, mas triplicou a marca e, neste sábado, concretizou o passo além para os dois dígitos. A conquista não poderia ter ocasião mais emblemática, dentro da Allianz Arena, contra o Borussia Dortmund. Foi uma partida em nível abaixo de outros clássicos, sem a mesma intensidade, embora os aurinegros tenham buscado uma reação no segundo tempo. O Bayern não precisou apresentar seu melhor para vencer por 3 a 1, em gols que nem pareceram demandar esforço. Contudo, se o ineditismo engrandece o feito global, a repetição também gera questionamentos. E, dessa vez, numa campanha que reforça o tamanho das distâncias dentro da Bundesliga.

A menor pontuação do Bayern nos nove títulos anteriores foi de 78 pontos. Seria registrada em 2018/19 com Niko Kovac e também em 2020/21, sob as ordens de Hansi Flick. Os 75 pontos atuais deixam o Bayern abaixo de tal sarrafo, mas pronto para superá-lo. Todavia, já não dá mais para repetir as marcas de Jupp Heynckes e Pep Guardiola, que servem de ápice ao longo desta década. As oscilações da equipe atual ocorreram principalmente no segundo turno, que custou um pouco a empolgação nessa reta final. Também foi mais difícil de vislumbrar um perseguidor neste ano. O Borussia Dortmund já fez campanhas mais confiáveis que a atual e o mau início do RB Leipzig impediu que os Touros Vermelhos se estabelecessem como ameaça dessa vez.

Existe um clima de “mais do mesmo” que ronda a Bundesliga há um bom tempo, mas que nunca esticou tanto a corda quanto no período atual. E a própria maneira como a queda do Bayern de Munique na Champions League foi recebida, com o time aquém das caminhadas recentes, também tira o ânimo. A façanha do decacampeonato, que deveria ser mais celebrada, se torna um tanto opaca. E com alguns traços de turbulência, seja pela primeira temporada de Julian Nagelsmann abaixo da qualidade almejada ou pelos atritos ocorridos com as trocas recentes na diretoria.

Apostas que o Bayern de Munique fez nos últimos anos, especialmente na contratação de jovens defensores, não se pagaram. O time ganhou novos protagonistas, como Jamal Musiala, mas alguns desfalques acabaram muito sentidos ao longo do campeonato e a dificuldade de Nagelsmann em estabelecer um padrão de jogo fez os bávaros se colocarem abaixo do vivido no segundo ano com Hansi Flick – mesmo que ali já existissem instabilidades aparentes. A indefinição sobre o futuro de Robert Lewandowski, indiscutível protagonista com absurdos 33 gols, é outro ponto de reflexão sobre o futuro que deixa esse final de temporada em carne viva.

O resultado é uma campanha na qual o Bayern teve seus momentos impressionantes, sobretudo nas goleadas emplacadas no primeiro turno, mas na qual sofreu derrotas para adversários mais frágeis e teve uma sequência de reticências no segundo turno até o embalo final, que acaba afetado também pela eliminação na Champions. Os problemas da concorrência, num ano em que muitos clubes trocaram de técnico e a maioria não deu certo de imediato, é um ponto. Mas a falta de resistência ao Bayern dessa vez se combinou com um time de fragilidades mais expostas que em outros anos e que, ainda assim, dominou confrontos diretos – uma virtude nesse deca dos bávaros.

Existem questões estruturais mais amplas que são discutidas na Bundesliga, quanto ao equilíbrio de forças e à abertura a investimentos. Ver o Bayern como “malvadão” deturpa a realidade e não considera a enorme competência que existe na construção desse ciclo vitorioso. Porém, está claro que para os próprios bávaros existem malefícios nessa repetição que se criou. Por tabela, isso custa até o reconhecimento por aquilo que é incrível, mas virou paisagem, especialmente quando a imposição atualmente é menor que em outros títulos.

O jogo

O Borussia Dortmund tinha suas doses de coragem durante o início da partida, ao pressionar alto, o que garantia um duelo aberto. Quando o Bayern começou a encaixar seu jogo, não demorou a conseguir o primeiro gol. Serge Gnabry marcou aos 15 minutos. Depois de uma cobrança de escanteio, Leon Goretzka ajeitou para trás e Gnabry foi espetacular na conclusão. O meia matou na coxa e bateu sem deixar a bola cair, cravando na gaveta de Marwin Hitz, atônito. O BVB, que ainda não tinha criado perigo até então, sentiu o baque e não reagiu.

O Bayern manteve o jogo sob controle, sem precisar forçar muito. O Dortmund chegou pela primeira vez apenas aos 27, mas Erling Braut Haaland bateu para fora. A resposta viria com Gnabry, que chegou a balançar as redes, mas o tento acabou anulado por impedimento de Kingsley Coman. Não demorou para que os bávaros adicionassem mais um gol no placar, aos 34. Dan Axel Zagadou saiu jogando errado e Kimmich interceptou. O contragolpe seria fatal, com Thomas Müller dando a assistência e Robert Lewandowski escapando da marcação para chutar por baixo de Hitz. E o Bayern nem precisava de muito esforço, com Lewa chutando ao lado da trave na melhor tentativa de assinalar o terceiro antes do intervalo.

A partida se reavivou no segundo tempo, depois que o Borussia Dortmund despertou. Os aurinegros voltaram mais ligados do intervalo e ganharam um pênalti aos quatro minutos, em falta de Kimmich sobre Marco Reus. Emre Can cobrou e superou Manuel Neuer. Quase o empate saiu na sequência, numa saída de bola errada dos bávaros. Haaland abriu com Reus, mas Neuer abafou o chute nos pés do adversário. Já aos 15, houve a revisão de um pênalti para o BVB, mas a arbitragem avaliou que Benjamin Pavard chegou na bola antes de derrubar Jude Bellingham.

Depois de repetidos problemas, o Bayern aos poucos voltou a se soltar e a fazer boas jogadas pela linha de fundo, em velocidade. Lewandowski tentava aumentar sua conta e, depois de um chute para fora, parou em milagre de Hitz aos 24. Todavia, o duelo voltou a cair de ritmo com o passar dos minutos e o Dortmund não manteve o fôlego. Um novo sinal de vida surgiu apenas aos 35, em arrancada de Haaland que chutou prensado e viu Neuer salvar com a ponta dos dedos. No minuto seguinte, Haaland apareceu de novo com espaço e chutou por cima.

Todavia, quando o Bayern resolveu marcar mais um, sacramentou o resultado aos 34. Jamal Musiala, que tinha saído do banco, forçou a defesa de Hitz. A bola ficou viva na área e o próprio Musiala marcou. A partir de então, o Dortmund desistiu do jogo e o Bayern poderia emplacar uma goleada. Houve a reclamação de um pênalti, antes de Goretzka exigir uma defesaça de Hitz, em lance impedido. De qualquer forma, aquela vitória já bastava para a comemoração antecipada. Ao apito final, a cerveja rolou solta para celebrar o campeão.

O Bayern consuma o título com três rodadas de antecipação e soma 75 pontos. São 91 gols marcados e 30 sofridos, com destaque aos 33 tentos de Lewandowski, mais uma vez artilheiro. Na história, os bávaros chegam a 32 títulos no Campeonato Alemão, 31 deles faturados na Era Bundesliga e 19 enfileirados nos últimos 25 anos. O Dortmund, em segundo na tabela, soma 63 pontos. Ao menos, a vaga na próxima Champions League já foi assegurada pelos aurinegros.

Veja os gols do jogo:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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