Bundesliga

O dia em que Heynckes fez cinco gols e impôs um inimaginável 12 a 0 sobre o Dortmund

Jupp Heynckes viveu o futebol alemão como poucos na história. De sua estreia como jogador ao atual momento como técnico, lá se vão 54 anos dedicados quase que exclusivamente à Bundesliga – exceção feita aos trabalhos na Península Ibérica e à breve aposentadoria, interrompida no último mês pelo Bayern de Munique. Neste contexto, o Borussia Dortmund faz parte de sua trajetória. Sempre do lado oposto. O BVB é exatamente o time que o veterano mais enfrentou como técnico, indo para o 46° jogo neste sábado, durante a visita ao Signal Iduna Park. Além disso, o antigo centroavante também encarou os aurinegros em outras 15 oportunidades dentro de campo. Coleciona grandes episódios, muitos deles amargos ao Dortmund.

O primeiro encontro de Heynckes com o Dortmund aconteceu em setembro de 1965, quando tinha apenas 20 anos. O centroavante era uma das referências no ataque do Borussia Mönchengladbach. Entretanto, pela frente desafiava um dos melhores times dos aurinegros na história, que se tornariam campeões da Copa da Uefa meses depois. E os Potros sofreram com os visitantes, em noite eletrizante: vitória por 5 a 4 do BVB, com tripleta do ídolo Lothar Emmerich. Nem a presença do magistral Günter Netzer ajudou o Gladbach. O novato passou em branco, apesar de ter sofrido o pênalti que resultou no primeiro gol.

Ao longo de sua trajetória como jogador, por Borussia Mönchengladbach e Hannover 96, Heynckes acumulou seis vitórias, seis empates e três derrotas contra os aurinegros. Anotou oito gols. E o encontro mais emblemático foi justamente o último. Coincidentemente, também o último jogo de sua carreira profissional. As duas equipes se enfrentavam pela rodada final da Bundesliga 1977/78. O timaço do Gladbach ocupava a segunda colocação na tabela, mas precisando de um milagre para erguer a Salva de Prata pelo quarto ano consecutivo. O rival Colônia estava na liderança, com a mesma pontuação, mas dez gols de vantagem no saldo. Além disso, os Bodes enfrentavam o lanterna e rebaixado St. Pauli, em Hamburgo.

O que aconteceu no Rheinstadion naquele dia, até hoje, causa desconfianças. O Gladbach defenestrou o Borussia Dortmund como nunca mais deve ocorrer: goleou o time de meio da tabela por incríveis 12 a 0. Artilheiro histórico dos Potros, Heynckes foi justamente o maior responsável pelo massacre, autor de cinco tentos – os três primeiros ainda na meia hora inicial da partida. Mesmo assim, o placar impensável não deu o tetracampeonato aos alvinegros. O Colônia também fez sua parte, enfiando 5 a 0 sobre St. Pauli e ficando com o título, três gols à frente no saldo. O centroavante de 32 anos se despedia em alta, mas sem a Salva de Prata.

Após a partida, obviamente, surgiram suspeitas de manipulação de resultado e a federação alemã chegou a investigar o Dortmund. Entretanto, representante de ambos os lados ainda juram que a humilhação foi produzido puramente pela postura impetuosa do Gladbach. Autor do último gol da equipe, o capitão Herbert Wimmer afirmou até mesmo que, de certa forma, o vice-campeonato foi positivo por não levantar mais suspeitas sobre a índole de sua equipe. Os aurinegros, de qualquer maneira, acabaram multados pela diretoria e perseguidos pelos próprios torcedores. O então jovem técnico Otto Rehhagel foi demitido no dia seguinte, reconstruindo sua reputação somente anos depois, no Werder Bremen. Já o goleiro Peter Endrulat, reserva, que ganhou uma oportunidade naquela partida, viu sua carreira relegada ao ostracismo.

“Nós estávamos em grande forma e queríamos ser campeões, enquanto o Dortmund estava em ritmo de férias. As pessoas diziam no banco de reservas o número de gols que precisávamos marcar para superar o Colônia. Quando já vencíamos por 9 a 0, eles queriam três mais. Eu me lembro de responder: ‘Vocês ficaram malucos?'. Ainda conseguimos marcar os três. Mas, infelizmente, o Colônia também”, relembrou Heynckes, em 2010. Com os cinco gols daquela partida, o centroavante chegou a 323 em sua carreira, 243 pela Bundesliga. Permanece como o maior artilheiro da história dos Potros.

Os encontros como técnico

Após uma temporada de hiato, Jupp Heynckes iniciou sua carreira como técnico em 1979, assumindo o Borussia Mönchengladbach. E os embates com o Borussia Dortmund se tornaram ainda mais corriqueiros. Em oito temporadas à frente dos alvinegros, sofreu apenas três derrotas para os aurinegros, enquanto somou nove vitórias. Entre elas, uma goleada por 6 a 1 em 1986 e um eletrizante 6 a 4 em 1983 – este, sob a inspiração do jovem Lothar Matthäus. Em 1987, o treinador iniciou sua primeira passagem pelo Bayern de Munique. Acumulou títulos, mas o cartel contra o Dortmund foi mais equilibrado, com três vitórias para cada lado. No jogo mais importante, o único valendo taça, melhor para os rivais. O BVB se sagrou campeão da Supercopa da Alemanha de 1989 ao arrancar o 4 a 3 aos 43 do segundo tempo, graças a um tento Andreas Möller. Título notável em tempos não tão gloriosos assim no Westfalenstadion.

Quando o Dortmund montou o maior time de sua história, Heynckes assumiu o papel de algoz. Afinal, foi o seu Real Madrid quem frustrou os sonhos do bicampeonato da Champions em 1997/98, nas semifinais. A vitória merengue no Bernabéu por 2 a 0 encaminhou a classificação à final, na qual Predrag Mijatovic encerrou o jejum de 32 anos sem o título continental. E o comandante se deu bem até mesmo quando disputou o Dérbi do Vale do Ruhr. Em sua única temporada à frente do Schalke 04, em 2003/04, empatou o jogo do primeiro turno da Bundesliga e buscou a vitória por 1 a 0 no Westfalenstadion. Ebbe Sand anotou o gol, embora o herói tenha sido o goleiro Frank Rost, ídolo eterno dos Azuis Reais. Ele pegou dois pênaltis, cobrados por Jan Koller e Torsten Frings. Ao final da temporada, o treinador acabou demitido.

Já o momento mais relevante da rivalidade entre Heynckes e o Dortmund veio a partir de sua segunda passagem pelo Bayern de Munique. Em 2011/12, os aurinegros fizeram os bávaros sofrerem, vencendo os três embates. Impuseram dois vice-campeonatos à equipe, na Bundesliga e na Copa da Alemanha, com requintes de crueldade. Na “decisão” do Campeonato Alemão, a cinco rodadas do fim, Robert Lewandowski anotou o gol do triunfo por 1 a 0 no Signal Iduna Park. A noite, de qualquer maneira, ficou marcada pelo pênalti desperdiçado por Arjen Robben. Roman Weidenfeller agarrou a cobrança sem dar rebote e Neven Subotic foi gritar no ouvido do desconcertado craque. E na final da Pokal, a contundente goleada por 5 a 2, com tripleta de Lewandowski, em uma das melhores atuações sob as ordens de Jürgen Klopp.

A desforra de Heynckes viria na temporada seguinte, sua “última” pelo Bayern. A histórica, da Tríplice Coroa. Em cinco clássicos, foram três triunfos bávaros e dois empates – ambos pela Bundesliga, reconquistada pelos alvirrubros. O treinador derrotou os rivais na Supercopa e os eliminou nas quartas de final da Copa da Alemanha. Por fim, o momento mais doce, com a conquista da Liga dos Campeões, na redenção de Robben aos 44 do segundo tempo em Wembley. Seria, outra vez, um último jogo marcante à carreira do técnico. Mas o novo capítulo se iniciou em 2017 e o Dortmund volta a aparecer em seu caminho neste sábado. Para um pouco mais de história.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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