Bundesliga

O adeus a Uwe Seeler: uma lenda das Copas do Mundo, o maior jogador do Hamburgo e o ídolo que todo alemão adorava ter

Uwe Seeler superou os 500 gols na carreira e disputou quatro Copas do Mundo, mas foi ainda mais amado por sua personalidade e pelo sorriso constante

Qualquer lista de maiores lendas do futebol alemão terá, entre os primeiros citados, o nome de Uwe Seeler. O centroavante escreveu a história de diversas maneiras. É o maior ídolo da história do Hamburgo, com 496 gols pelo clube, 404 marcados só pelo Campeonato Alemão. Já pela seleção, disputou quatro Copas do Mundo e liderou o time em partidas memoráveis. A dimensão de Seeler, porém, não se restringe a números dilatados ou momentos grandiosos. Ele ocupa uma posição ainda maior como ídolo. Serviu de inspiração a gerações e gerações de craques locais, por seu talento e também por sua postura. E se fez mais querido pelo lado humano, sempre sorridente, sempre amável, sempre humilde. O apelido de “Nosso Uwe”, espalhado pela Alemanha, traduzia isso. Como ele gostava de dizer: “Não há nada mais bonito que ser normal, e esse sou eu”. Aos 85 anos, Seeler falece como uma figura popular há décadas no esporte. Que, de tão amado, faz um país inteiro sentir que perdeu alguém próximo. Assim o artilheiro era adorado muito além de suas façanhas nos gramados.

Os feitos de Seeler são mais ligados à quantidade titânica de gols do que necessariamente aos títulos. O centroavante conquistou o Campeonato Alemão pelo Hamburgo, encerrando um jejum de 32 anos, e também uma Copa da Alemanha, além de ter dominado os torneios regionais na época anterior à Bundesliga. Entretanto, os troféus nacionais são mais escassos em sua carreira do que seu talento sugeria. Amargou alguns vices e, na seleção, atravessou exatamente o jejum entre a conquista da Copa de 1954 e a da Euro 1972. Nada que diminua a importância do artilheiro, do capitão, do ídolo de tanta gente. Não há como falar das glórias do futebol alemão sem citar o exemplo de Seeler, mesmo que ele não estivesse presente no topo do pódio.

Seeler não é “só” o maior jogador da história do Hamburgo, mas talvez o maior cidadão de Hamburgo no último século. O atacante resumiu o espírito da cidade e não a deixou nem mesmo quando recebeu uma suntuosa proposta da Internazionale nos anos 1960. Amava os seus. Isso garantia uma veneração por lá, mas também em outras tantas cidades da Alemanha, que amavam o capitão honorário da Mannschaft. Mesmo cinco décadas depois de sua aposentadoria, era alguém sempre festejado. E recebe digníssimos tributos diante de seu adeus, aos 85 anos. Segundo a família, o idoso faleceu “de maneira pacífica”, apesar de alguns problemas de saúde acumulados nos últimos anos. Deixa a esposa Ilka (com quem era casado desde 1959), três filhos e sete netos, além de uma legião de fãs ao redor do país.

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O futebol e a cidade de Hamburgo foram sinônimos de Uwe Seeler desde que ele chegou ao mundo. O garoto nasceu no município, em 5 de novembro de 1936, filho de um trabalhador das docas do porto. O emprego braçal, porém, era apenas uma ocupação parcial de Erwin Seeler. Em tempos nos quais o futebol ainda era amador no país, ele precisava da vida dupla para seguir sua carreira nos gramados. Foi um grande goleador nos times operários da cidade. Quando tinha 21 anos, chegou a disputar as “Olimpíadas dos Trabalhadores” e anotou sete gols num triunfo por 9 a 0 sobre a Hungria. Logo passou pelos clubes esportivos da cidade, primeiro pelo Victoria Hamburgo, até assinar com o poderoso Hamburgo SV em 1938.

Durante a década de 1940, Erwin Seeler foi um dos jogadores mais célebres do Hamburgo. O futebol seguiu em frente na Alemanha, mesmo com o início da Segunda Guerra Mundial, e os Dinossauros foram campeões regionais três vezes até 1945. O atacante também precisou se unir ao time da Luftwaffe, a força aérea da Alemanha nazista, antes de retornar ao HSV ao final da guerra. O veterano permaneceu no Hamburgo até 1949, com mais de 200 partidas disputadas, antes de se tornar jogador-treinador em equipes menores do norte do país. Sua veia boleira, naturalmente, seria transmitida aos dois filhos homens.

Cinco anos mais velho, o primogênito era Dieter Seeler. Ele começou na base do Hamburgo com nove anos de idade, levado pelo pai. Entretanto, o grande talento ficava por conta do caçula, Uwe. Sua história no HSV começou em 1946, quando tinha dez anos, e também ingressou nas categorias de base graças ao progenitor. Chegava muito mais talhado a se provar, já que estava acostumado a jogar com o irmão e com meninos mais velhos nas ruas de Hamburgo. Eram tempos mais serenos, também, de uma Alemanha que iniciava sua reconstrução após a queda do nazismo. O futebol não corria mais risco de ser interrompido por bombardeios.

As trajetórias de Dieter e Uwe foram distintas. O irmão mais velho não ganhou espaço na equipe principal do Hamburgo de imediato e, em 1952/53, o ponta de 21 anos foi completar sua transição no Altona 93 – concorrente dos Dinossauros na Oberliga Nord, a divisão regional na qual os times competiam no Campeonato Alemão. O Seeler mais novo, enquanto isso, chamava bastante atenção nas categorias menores do HSV. Não à toa, sua ascensão aconteceu de maneira acelerada, enquanto concluía os estudos e já trabalhava no porto. Sua estreia com o Hamburgo aconteceu em agosto de 1953, aos 16 anos, durante um amistoso. Por causa da idade, ele precisou de uma permissão especial para se juntar de vez ao elenco adulto. Logo mostrou-se um fenômeno.

A integração de Uwe Seeler ao time do Hamburgo aconteceu na temporada 1954/55, quando o clube tentava recuperar o título na Oberliga Nord após um modesto 11° lugar na temporada anterior. Já sua estreia oficial, em agosto de 1954, ocorreu pela Copa NHV contra o Holstein Kiel. O centroavante de 17 anos marcou simplesmente quatro gols na goleada do HSV por 8 a 2. Não era preciso saber tanto de futebol para perceber que um craque despontava naquele momento, unindo qualidade e um espírito de luta incansável – mas sem perder a disciplina, com apenas uma expulsão em toda a carreira. Também se dedicava demais ao trabalho, a ponto de ser chamado de “campeão mundial de treinos”.

Seeler reunia as características de um atacante letal. Era baixo (com apenas 1,68 m) e um tanto quanto rechonchudo, mas compensava com muita impulsão e também uma força física acima do comum, para lidar com zagueiros grandalhões. Sabia usar o corpo para abrir espaços e também tinha potência nas arrancadas. Posicionava-se como raríssimos e exibia enorme eficiência nas finalizações, tanto com os pés quanto com a cabeça. As acrobacias no jogo aéreo, aliás, eram uma especialidade do garoto. Também possuía um canhão no pé direito, rendendo vários golaços. Isso sem contar a qualidade técnica no trato com a bola, especialmente para driblar em espaços curtos, e na preparação de jogadas aos companheiros. “Marquei muitos grandes gols e vários importantes ao longo da minha carreira. Voleios, peixinhos e mesmo com a minha nuca. Mas nunca me importei se eram bonitos ou não. Para mim, a melhor coisa era ver a bola passando pela linha”, diria, anos depois, ao site da Fifa.

Seeler era tão excepcional que virou titular do Hamburgo na primeira temporada. E também não demorou a ser reconhecido por Sepp Herberger, técnico da Alemanha Ocidental campeã do mundo. O atacante participou da seleção sub-18 durante pouco mais de um ano, entre 1953 e 1954, com incríveis 15 gols anotados em 10 jogos. Em outubro de 1954, então, Herberger não titubeou na hora de chamar o prodígio para a equipe adulta da Mannschaft, apenas quatro meses depois do famoso Milagre de Berna. O adolescente saiu do banco durante um amistoso contra a França, em sua estreia pela equipe nacional. Começaria a chamado regularmente a partir disso.

A primeira temporada de Uwe Seeler na Oberliga Nord já foi maravilhosa. O atacante marcou 28 gols em 26 partidas. O Hamburgo foi campeão regional e se classificou para a fase final do Campeonato Alemão, mas acabou superado pelo lendário Kaiserslautern de Fritz Walter no quadrangular semifinal. Seeler ganhava experiência contra os maiores jogadores do país e não deixaria de elevar seu nível. O centroavante marcou 32 gols em 29 partidas na Oberliga Nord em 1955/56. O HSV de novo foi campeão, mas sucumbiu diante do Borussia Dortmund no quadrangular semifinal do Campeonato Alemão. Aquela temporada ainda marcou um vice na Copa da Alemanha, em decisão perdida contra o Karlsruher. O lado bom ficava para a companhia de Dieter Seeler, que fizera sucesso no Altona e acabou recontratado pelos Dinossauros em 1955.

O Hamburgo era reconhecido como um dos times mais fortes da Alemanha Ocidental naquele momento. Não tinha quem não se rendesse ao talento dos irmãos Seeler e, sobretudo, à fome de gols de Uwe no comando do ataque, já uma das personalidades mais populares do país. Entretanto, os Dinossauros insistiam em bater na trave durante a perseguição ao título nacional. O HSV foi tricampeão da Oberliga Nord em 1956/57, com 31 gols de Uwe Seeler em 26 aparições. Perdeu a decisão do Campeonato Alemão diante do Borussia Dortmund. O mesmo filme se repetiu em 1957/58, com mais 21 gols para a conta de Seeler em mais 23 partidas na Oberliga Nord. A final nacional seria perdida contra o Schalke 04.

Um consolo para Uwe Seeler viria através da seleção alemã-ocidental. A Copa do Mundo de 1958 foi o seu primeiro torneio internacional. O centroavante de 21 anos formou a equipe titular com ídolos nacionais, como Fritz Walter, Helmut Rahn e Hans Schäfer. Seu primeiro gol em Mundiais veio logo na estreia, contra a Argentina, dando um carrinho dentro da área para virar o placar e permitir a vitória por 3 a 1. Também mandou uma paulada de fora da área e anotou um golaço nos 2 a 2 contra a Irlanda do Norte, que confirmou a classificação na fase de grupos. A Mannschaft chegou até as semifinais, quando Seeler ainda deu a assistência no gol de honra durante os 3 a 1 para a Suécia. Seria ausência apenas na decisão do terceiro lugar, contra a França, lesionado.

Aquele seria um momento importante para o amadurecimento do futebol de Uwe Seeler. Logo as almejadas conquistas começariam a acontecer. Ainda não deu em 1958/59. O Hamburgo foi tetra na Oberliga Nord, com 29 gols do matador, mas viu o Kickers Offenbach avançar no quadrangular semifinal do Campeonato Alemão. Como parte do reconhecimento, ao final de 1959, Seeler foi pela primeira vez votado à Bola de Ouro – com somente dois pontos, ficou distante da conquista de Alfredo Di Stéfano. Mas aquele já era um aperitivo ao que viria em 1959/60, quando ninguém seguraria o centroavante.

Seeler anotou absurdos 36 gols em 26 partidas pela Oberliga Nord, liderando o hexacampeonato do HSV. O artilheiro chegou a fazer seis gols num triunfo por 10 a 2 contra o Holstein Kiel, o recorde de sua carreira. Já na fase final do Campeonato Alemão, foram mais 13 tentos em sete compromissos. Só não balançou as redes em uma das partidas pelo quadrangular semifinal, o que não atrapalhou a classificação dos Dinossauros. Um daqueles tentos, inclusive, recebeu o apelido de “Gol do Século”: uma linda acrobacia já caído, para vencer Hans Tilkowski, seu companheiro de seleção que na época defendia a meta do Westfalia Herne.

Já a decisão aconteceu contra uma forte equipe do Colônia, estrelada por Rahn e Schäfer, além de contar com o jovem Karl-Heinz Schnellinger. Diante de 70 mil torcedores em Frankfurt, o Hamburgo ganhou numa emocionante virada por 3 a 2, com todos os gols marcados no segundo tempo. Seeler fez dois. O primeiro foi o de empate, logo depois que os Bodes abriram o placar. O HSV virou com Gert Dörfel, mas o Colônia igualou o marcador de novo aos 41 da etapa final. Coube a Seeler decidir aos 43, fuzilando uma bola que sobrou quase em cima da linha. Seu destino era a glória. Seria carregado nos braços da torcida no Waldstadion, antes do retorno triunfante a Hamburgo. Aquele troféu encerrava um jejum de 32 anos do clube no Campeonato Alemão. Consagrava grandes nomes, incluindo também “Charly” Dörfel, Klaus Stürmer e Dieter Seeler.

Eleito o melhor jogador da Alemanha Ocidental em 1960, Uwe Seeler também foi reconhecido na Bola de Ouro. O atacante terminou como terceiro mais votado da Europa. Ficou abaixo do barcelonista Luis Suárez e do madridista Ferenc Puskás, ambos destaques em títulos continentais de suas equipes. O troféu do Campeonato Alemão também permitiu que o Hamburgo fizesse sua estreia na Copa dos Campeões da Europa. Seria um desempenho bastante respeitável. O HSV passou nas oitavas pelo Young Boys, com dois gols de Seeler nos 5 a 0 na Suíça, antes do empate por 3 a 3 na Alemanha Ocidental. Já nas quartas, o Hamburgo conseguiu uma virada épica diante do Burnley. Os ingleses ganharam por 3 a 1 em casa e tomaram o troco por 4 a 1 no Volksparkstadion. Seeler marcou dois gols e deu uma assistência, num jogo que movimentou o país, numa rara transmissão ao vivo pela televisão. Já na semifinal, o desafio era o incensado Barcelona. Evaristo de Macedo garantiu o 1 a 0 no Camp Nou, enquanto os Dinossauros fizeram 2 a 1 no Volksparkstadion. Seeler marcou o segundo, que daria a classificação, até que Sándor Kocsis descontasse aos 45 do segundo tempo e forçasse um jogo extra. Na Bélgica, Evaristo de novo marcou no 1 a 0 para o Barça e botou o time na final contra o Benfica.

Também em 1960/61, o Hamburgo não teve sorte no Campeonato Alemão. Hepta na Oberliga Nord, com mais 29 gols de Seeler, o time caiu no quadrangular semifinal do torneio nacional – mesmo com tentos do centroavante nos seis jogos. E foi nessa época que a história fantástica do craque com os Dinossauros quase chegou ao fim. O técnico Helenio Herrera tinha o atacante em alta conta e queria levá-lo para o seu ambicioso projeto à frente da Internazionale. Os nerazzurri ofereceram 1,2 milhão de marcos alemães para o HSV, naquela que poderia se transformar na maior transferência da história até então. Já o salário do craque seria de 155 mil marcos, com bônus de 500 mil pela assinatura, uma fortuna para a época.

O episódio gerou grande comoção na Alemanha Ocidental. Os torcedores do Hamburgo pediam para que seu ídolo ficasse. Já o dono da Adidas, Adi Dassler, que era amigo do centroavante, ofereceu a representação da marca no norte do país para tentar convencê-lo a não se mudar. Em tempos nos quais o futebol alemão seguia sem adotar o profissionalismo, aquela era a única maneira de competir com o dinheiro italiano. Seria decisivo um encontro de Seeler com Sepp Herberger. O craque conversou com o técnico da seleção e ouviu que suas convocações ficavam em xeque pela transferência. Na época, era bem mais difícil chamar um atleta em atividade no exterior, mesmo na vizinha Itália. O risco de abandonar a Mannschaft mexeu com o artilheiro.

No fim, Seeler optou por ficar no HSV, com um salário de apenas 6 mil marcos, além do contrato com a Adidas. “Dormi inquieto durante as conversas e cancelei a última. Herrera não entendeu a minha recusa, a Inter era o melhor do futebol mundial na época, eles contratavam quem desejavam. Abri mão de muito dinheiro, mas eu sempre fui feliz por tomar essa decisão”, refletiria anos depois, à Kicker. Ainda naquele período, o atacante escreveu em carta aberta que estava pensando em “nossa casa, nossa família e nosso futuro seguro” ao ficar em Hamburgo. Foi quando ganhou o apelido que marcou sua carreira: “Uns Uwe” – o “Nosso Uwe”, em alemão, numa alcunha que pegou no restante do país após o milagre contra o Burnley pela Champions.

O comprometimento de Seeler com a seleção seria recompensado. O centroavante passou a usar a braçadeira de capitão a partir de setembro de 1961. Para celebrar, marcou três gols numa vitória sobre a Dinamarca. O Hamburgo chegou ao oitavo título consecutivo na Oberliga Nord de 1961/62, com mais 28 gols do artilheiro, mas de novo não teve sucesso na fase decisiva do Campeonato Alemão. Nada que atrapalhasse a reputação de Seeler rumo à Copa de 1962, como principal figura da Mannschaft num momento de transição em relação aos campeões de 1954. Foram 18 gols do craque em 21 partidas no ciclo preparatório rumo ao Mundial do Chile. Na fase final do torneio, seria o vice-capitão, com o veterano Hans Schäfer vestindo a braçadeira.

A Alemanha Ocidental fez uma campanha mais curta na Copa de 1962, eliminada nas quartas de final pela Iugoslávia. Seeler marcou dois gols no torneio. Assinalou o segundo nos 2 a 1 sobre a Suíça, em arrancada que deixou os zagueiros na saudade, e também o segundo nos 2 a 0 sobre o Chile, num característico peixinho. De volta à Alemanha Ocidental, estava na hora de ser campeão novamente. O Hamburgo se consagrou eneacampeão na Oberliga Nord de 1962/63, com direito a 31 gols do centroavante. O time sucumbiu na fase final do Campeonato Alemão novamente, ao cair no quadrangular semifinal. A compensação veio na Copa da Alemanha. O HSV levou a taça ao derrotar o Borussia Dortmund por 3 a 0 na decisão em Hannover. Seeler fez três gols numa tarde imparável.

Aquele momento seria de transição para o futebol na Alemanha Ocidental. Enfim, o profissionalismo era adotado e uma liga nacional unificada saía do papel, com a Bundesliga. A Oberliga Nord deixava de representar a elite regional. Seeler se despediu da competição com inacreditáveis 267 gols em 237 partidas. Já pela fase final do Campeonato Alemão, mesmo com apenas um título, o centroavante balançou as redes 40 vezes em 42 aparições. Iniciava-se uma nova era, mas sem que o artilheiro de 26 anos perdesse a sua magia.

O Hamburgo não fez uma campanha tão impressionante assim na primeira edição da Bundesliga, em 1963/64, com a sexta posição. Contudo, não dava para imaginar outro artilheiro para o campeonato inaugural além de Seeler. O centroavante guardou 30 gols, 10 a mais que o segundo colocado na lista. Dos 30 jogos que participou, marcou em 20, incluindo três tripletas na caminhada. Os Dinossauros ainda alcançaram as quartas de final da Recopa Europeia, eliminados pelo Lyon, mas com direito a uma revanche diante do Barcelona nas oitavas. Seeler marcou dois gols no maluco 4 a 4 dentro do Camp Nou e, depois do 0 a 0 no Volksparkstadion, resolveu o jogo de desempate realizado na Suíça. O Barça vencia até os 20 minutos do segundo tempo, quando Seeler marcou dois gols e decretou a virada por 3 a 2.

Os anos áureos do Hamburgo tinham passado naquele início de Bundesliga. Os Dinossauros já não ofereciam um conjunto tão forte ao redor de Seeler e passaram a frequentar o meio da tabela. O centroavante também lidava com problemas físicos. Anotou 14 gols em 19 partidas pela Bundesliga 1964/65, mas perdeu a reta final da campanha ao romper o tendão de Aquiles – numa lesão que quase encerrou sua carreira. Passou seis meses em recuperação, paparicado pelos fãs ao longo de todo o trabalho físico, e começou a usar uma chuteira especial confeccionada pela Adidas. Com o físico mais frágil, também perdeu jogos na Bundesliga 1965/66 e contribuiu com 11 gols em 23 aparições. Nada que rompesse sua influência na seleção, ainda titularíssimo e capitão, mesmo com a troca no comando de Sepp Herberger para Helmut Schön.

O gol da classificação para a Copa de 1966 saiu dos pés de Seeler. A equipe faria uma partida decisiva contra a Suécia no Estádio Rasunda, precisando ganhar para evitar os riscos. Os escandinavos saíram em vantagem, mas a virada por 2 a 1 foi arrancada pelo centroavante. Seeler deu um carrinho na pequena área e decretou o triunfo fundamental. Dizia que aquele era o gol mais bonito de sua carreira, pela importância do momento, transmitindo confiança após a longa lesão. Era a certeza de que seguia em alto nível. Aquela partida também marcaria a estreia de Franz Beckenbauer pela seleção, com apenas seis partidas disputadas na Bundesliga. Seeler foi consultado por Schön antes do chamado e o capitão respaldou a oportunidade para o futuro Kaiser.

A Copa de 1966 é geralmente lembrada com amargor na Alemanha Ocidental, mas possui sua importância. A geração dos anos 1960 começa a acolher os futuros craques dos anos 1970. Seeler era um espelho para jovens como Beckenbauer, Wolfgang Overath, Sepp Maier e Jürgen Grabowski. Às vésperas de completar 30 anos, o centroavante continuava com um papel fundamental no comando do ataque. O gol que selou a classificação na fase de grupos foi anotado por Seeler, concluindo a vitória por 2 a 1 sobre a Espanha aos 39 do segundo tempo. Já nas quartas de final, também marcou o seu nos 4 a 0 sobre o Uruguai, com um foguete direto no ângulo. Só não evitaria a derrota para a Inglaterra na polêmica decisão em Wembley. Perdia a chance de levantar o troféu como capitão. Deixava o campo de cabeça baixa, numa imagem que passou a simbolizar a frustração alemã.

A carreira de Seeler parecia se aproximar do final. O centroavante fez 10 gols na Bundesliga 1966/67, em temporada na qual o Hamburgo voltou à final da Copa da Alemanha. Uma nova ordem ficava expressa no país com os 4 a 0 do Bayern, com Gerd Müller marcando dois gols na decisão. Seu herdeiro no comando de ataque da seleção começava a despontar. Apesar da derrota, como os bávaros também tinham ganhado a Recopa Europeia em 1966/67, o HSV recebeu a outra vaga para o torneio continental em 1967/68. Seeler voltou ao seu melhor com oito gols em nove jogos, artilheiro da competição, incluindo alguns tentos decisivos na quartas contra o Lyon e na semifinal contra o Cardiff City. A decisão seria perdida diante do forte Milan dirigido por Nereo Rocco. Já pela Bundesliga 1967/68, o veterano guardou mais 12 gols.

Naquele momento, Uwe Seeler decidiu se aposentar da seleção. Tinha 31 anos e relatava o estresse da carreira profissional. Uma decepção tinha acontecido pouco antes, na eliminação durante a fase de classificação para a Euro 1968, mesmo com um gol épico marcado pelo centroavante na vitória sobre a Iugoslávia dentro do Volksparkstadion – seu único pela Mannschaft em Hamburgo. O capitão chegou até a disputar uma partida de despedida em abril de 1968, contra a Suíça. Só que o seu desejo não duraria tanto, entre as necessidades de Helmut Schön e a qualidade que ainda oferecia. Seeler viveu sua melhor temporada na Bundesliga em 1968/69, com 23 gols. Ainda ficou sete tentos abaixo de Gerd Müller na artilharia, mas atormentava as defesas e acumulava grandes atuações. Assim, não recusou o chamado do Nationalelf para reassumir a braçadeira de capitão em setembro de 1969. Chegaria embalado para a sua quarta Copa do Mundo, com 17 gols na Bundesliga 1969/70.

Aos 33 anos, Seeler era o jogador mais tarimbado daquela Alemanha Ocidental na Copa de 1970. Agora, com a companhia de Gerd Müller na linha de frente, formando um ataque extremamente físico e letal. Apesar das características parecidas entre os centroavantes, a inteligência prevalecia para que eles se complementassem. Gerd saiu como artilheiro do torneio, com 10 gols anotados. Mesmo assim, Uwe teve sua melhor participação na competição, excelente na leitura dos espaços e cirúrgico em tantos momentos. Ficava mais comprometido com o trabalho de armação, recuando ao meio e distribuindo as chances ao companheiro.

O show particular do veterano começou na estreia contra Marrocos, um jogo teoricamente fácil que se complicou aos alemães. A virada por 2 a 1 começa com um giro de Seeler para bater no cantinho. A rodada seguinte teve gol e assistência do capitão nos 5 a 2 sobre a Bulgária. Já diante do Peru, o veterano arrancou pela direita e cruzou perfeitamente para a cabeçada de Gerd Müller, com uma tripleta nos 3 a 1. Quem via o medalhão de 33 anos encarando a marcação se surpreendia. E ele degustaria sua revanche contra a Inglaterra nas quartas de final, com a emocionante virada por 3 a 2, após os Three Lions abrirem dois gols de vantagem.

O empate aos 37 do segundo tempo surgiu num lance famoso de Seeler. Schnellinger fez um cruzamento frontal e o camisa 9 se desvencilhou da marcação para cabecear. Estava de costas para o gol, mas acertou a parte de trás da cabeça na bola e conseguiu encobrir o goleiro Peter Bonetti. Um lance definitivo de seu instinto de artilheiro. “Não acho que aquele gol é algo que você pode treinar. Era mais como transformar a necessidade em uma virtude. A bola estava passando pela minha cabeça e eu estava correndo para trás, algo que não é fácil por si. A bola bate na minha nuca e depois entra, algo que você não faz sem um pouco de sorte”, comentaria anos depois, ao site da Fifa.

Durante a semifinal contra a Itália, Seeler seria um dos protagonistas no Jogo do Século. Criou chances e buscou a bola nos 120 minutos extenuantes, mas acabou frustrado pelo goleiro Enrico Albertosi, com defesas decisivas diante do veterano. Apesar da idade, o camisa 9 permaneceu em campo até o fim. Tempo suficiente para ajeitar uma bola de cabeça no segundo tento de Gerd Müller, o terceiro da Alemanha Ocidental, que forçava o empate. Entretanto, a Azzurra fecharia o placar em 4 a 3 e avançaria à decisão. Restaria o consolo do bronze à Mannschaft, com a vitória por 1 a 0 sobre o Uruguai, em que Seeler acertou uma bola no travessão.

Seeler se despedia das Copas do Mundo com algumas marcas excelentes. Era o recordista em partidas na competição àquela altura, 21 no total, superado apenas em 1998 por Lothar Matthäus. Era o único a ter assinalado pelo menos dois gols em quatro Mundiais diferentes, o que só Miroslav Klose repetiria. Totalizou nove gols em Copas, sexto maior goleador da competição na época, no mesmo patamar de Eusébio e Vavá. Seu lugar como um personagem histórico do torneio estava gravado. Valia aquela máxima: “se Seeler nunca ganhou uma Copa do Mundo, azar da Copa do Mundo”. Décimo colocado na Bola de Ouro de 1970, ele acabaria levando pela terceira e última vez o prêmio de melhor jogador da Alemanha Ocidental, um reconhecimento também pelo conjunto da obra.

A despedida de Seeler da seleção aconteceu em setembro de 1970, durante um amistoso contra a Hungria. Na ocasião, se tornou o primeiro esportista da história do país a receber a Cruz do Mérito, principal honraria do governo. Se faltaram alguns meses para o centroavante pintar na Copa de 1954, ele também veria de fora o sucesso de seus antigos pupilos, com a conquista da Euro 1972 e da Copa do Mundo de 1974. “É claro que eu gostaria de me tornar campeão do mundo, mas qual é o ponto? Meu treinador na base costumava me dizer: ‘Uwe, uma coisa você nunca deve se tornar: ganancioso’. E ele estava certo, ganância é o pior. Estou feliz com minha vida. É prazeroso e bom que eu seja realmente bem-vindo em todos os lugares. Isso confirma que eu não fiz muita coisa errada”, refletiria à Kicker. Foram 43 gols em 72 partidas pelo Nationalelf, permanecendo como o oitavo maior artilheiro da equipe nacional. Posteriormente, seria nomeado como capitão honorário e seria figura central na cerimônia de abertura do Mundial de 1974, apresentando a nova taça ao lado de Pelé, tamanha a sua representatividade.

Os últimos dois anos como profissional de Seeler foram totalmente dedicados ao Hamburgo. Marcou nove gols na Bundesliga 1970/71 e outros 11 em 1971/72. Seu último jogo, como deveria ser, teve arquibancadas abarrotadas do Volksparkstadion e uma linda homenagem contra uma seleção de craques europeus – que incluía lendas como Eusébio, Gordon Banks, Bobby Moore, Gianni Rivera, Bobby Charlton e George Best, além de companheiros de seleção como Franz Beckenbauer, Sepp Maier e Gerd Müller. Seeler despediu-se da Bundesliga com 137 tentos em 239 partidas. Mesmo sem viver seu auge na fase moderna do Campeonato Alemão, Uns Uwe aparece como 20° maior goleador da história da competição – igualado com Thomas Müller, que logo deve ultrapassá-lo. No total, são 404 gols pelo campeonato nacional, somando os diferentes períodos históricos. Somente Cristiano Ronaldo e Lionel Messi balançaram as redes mais vezes nas grandes ligas europeias.

Apesar da aposentadoria em 1972, Seeler não se afastou dos gramados totalmente. Ele continuava jogando com outros antigos profissionais e promovendo jogos solidários. Um episódio anedótico aconteceu em abril de 1978, quando atuou pelo Cork Celtic em uma partida pelo Campeonato Irlandês – sem saber que valia pela liga, num jogo arranjado pela Adidas. Aos 41 anos, o craque marcou dois gols, apesar da derrota por 6 a 2 diante do Shamrock Rovers. Já em 1987, ele seria uma das figuras mais carismáticas da Copa Pelé, o Mundialito de Masters organizado no Brasil por Luciano do Valle. A Alemanha Ocidental não faria boa campanha, mas o veteraníssimo Seeler, já com seus 50 anos, conquistou o público com sua respeitável pança e os lampejos de craque.

Seeler teve uma aposentadoria tranquila. Ele continuou trabalhando como representante da Adidas (posto que ocupava desde a recusa da proposta da Inter) e também como dono de uma companhia de materiais esportivos. Sua grandeza, entretanto, expressava-se a cada vez que retornava ao Volksparkstadion. O Hamburgo teve períodos gloriosos e conquistou até a Copa dos Campeões nos anos 1980, mas Seeler continuou respeitado como maior ídolo da história do clube. Chegou a passar três anos como presidente, entre 1995 e 1998, renunciando ao cargo após a revelação de um escândalo financeiro envolvendo outros dirigentes – do qual não estava ciente. Não precisava de cargo para ser exaltado como a maior figura dentro do HSV.

As homenagens para Uwe Seeler vieram em vida. Em 2003, ele recebeu o título de cidadão honorário de Hamburgo. Já em 2005, o HSV inaugurou uma estátua de bronze de 3,5 metros de altura que representava seu pé direito. Além de toda a história escrita em campo, Seeler também era bastante querido pelo jeito humilde e amigável. Isso ficou expresso em 2016, quando ele reapareceu no Volksparkstadion para seu aniversário de 80 anos. Oferecia a todos sorrisos e cumprimentos. Ganhou um bolo especial do clube, enquanto todos os torcedores usavam máscaras de seu rosto, já velhinho. Era como se toda a cidade tivesse um avô especial.

Durante os últimos anos, as aparições de Seeler no Volksparkstadion eram mais raras. Um acidente de automóvel tirou parte de sua audição em 2010 e, nos últimos anos, com problemas no equilíbrio, os acidentes domésticos se tornaram mais frequentes. Já dentro de campo, o Hamburgo não dava motivos para sorrir, com todo o drama na segunda divisão da Bundesliga. De qualquer forma, se os torcedores ainda precisavam de uma prova de grandeza do clube, bastava uma lembrança do antigo centroavante da Mannschaft. Seeler representava o espírito da cidade. E assim permanecerá por gerações, mesmo que não esteja mais presente em vida.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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