Bundesliga

Mané adiciona capacidade de decisão ao Bayern e representa uma quebra na política de mercado do clube

Por toda a sua história com o Liverpool, Sadio Mané chega ao Bayern com um protagonismo raro de se ver em reforços dos últimos anos

A contratação de Sadio Mané pelo Bayern de Munique chama atenção não apenas por seu impacto. Trazer uma figura consagrada como o senegalês não é exatamente o padrão de mercado dos bávaros ao longo dos últimos anos. O atacante chega já como um movimento de força na janela de transferências, diante do risco de perder Robert Lewandowski em breve. Além disso, é também um necessário protagonista depois de uma temporada na qual o time de Julian Nagelsmann deixou a desejar. Carrega consigo uma grande bagagem, mesmo que não signifique um gasto exorbitante do Bayern. Um investimento que teoricamente vale bastante, por tudo o que aporta à Baviera e pela mensagem que transmite aos companheiros.

Os €32 milhões pagos a Sadio Mané não constituem um valor exatamente baixo, considerando que o atacante entraria em seu último ano de contrato com o Liverpool. No entanto, é um montante aquém daquilo que o craque custaria em condições normais. Não é do tipo de oportunidade de mercado que surge muitas vezes e as justificativas são claras, pelo altíssimo nível apresentado pelo atacante ao longo de sua carreira. Aos 30 anos, chega numa condição de protagonista, o que poucas vezes se viu na Baviera ao longo da última década.

Mané se coloca apenas como o 11° reforço mais caro da história do Bayern de Munique. Porém, o padrão do clube é gastar alto quase sempre em jovens. Mané é o mais velho dos 20 jogadores mais caros já comprados pelos bávaros. A lista inclui 16 futebolistas que não passavam dos 25 anos no momento da transferência e 11 deles tinham no máximo 23 anos. Para o Bayern, os investimentos mais altos quase sempre estiveram atrelados ao longo prazo e à continuidade, por mais que alguns desses novatos tivessem boa experiência em alto nível – como Arjen Robben e Franck Ribéry. Assim, dá para dizer que o currículo de Mané é único entre os reforços mais badalados dos alvirrubros nas últimas décadas.

Não foram tantas vezes que o Bayern pagou caro por jogadores um pouco mais velhos, a exemplo do que aconteceu com Arturo Vidal, comprado aos 28 anos da Juventus. Contudo, mesmo que o volante viesse de um bom momento, não tinha o protagonismo internacional de Mané ou mesmo as conquistas do atacante. O senegalês desembarca em Munique para tornar maior uma história já grandiosa e consagrada. Medalhões do tipo fogem da estratégia geralmente planejada pelos alemães, até por terem menos tempo em alto nível para a sequência de suas carreiras.

Durante a última década, o Bayern também garantiu o empréstimo de estrelas que vinham em baixa, como James Rodríguez ou Philippe Coutinho. Igualmente buscou os serviços de destaques do futebol alemão que pertenciam a outros clubes – como Miroslav Klose e Mats Hummels, que vieram mais velhos, já reconhecidos em Copas do Mundo. Mas nenhum deles que surgisse num contexto tão eloquente quanto Mané. Talvez os casos mais próximos ao do senegalês tenham sido os de Xabi Alonso e Luca Toni. Entretanto, enquanto o italiano não tinha tamanha regularidade por clubes, o espanhol vinha numa idade mais avançada após faturar a Champions com o Real Madrid. Nenhum deles sugeria a capacidade de rendimento do senegalês.

A contratação de Mané ainda não significa que o Bayern gastará rios de dinheiro no mercado. Até pela gestão econômica do clube, isso não vai mudar de uma hora para outra, e as circunstâncias específicas do negócio enfatiza tal ideia. Mesmo assim, o negócio sugere uma face que pode ser mais explorada pelo clube na janela de transferências. Por mais que a Bundesliga não seja o campeonato nacional mais competitivo, os bávaros se colocam entre os maiores clubes do mundo e aparecem como favoritos à Champions sempre. Podem atrair mais essas estrelas, não necessariamente por dinheiro, mas sim por possibilidade de triunfar.

O Bayern de Munique pode representar uma ampliação da grandeza de Mané. O atacante conquistou todos os títulos possíveis com o Liverpool e figura entre os grandes de Anfield. Entretanto, ainda tinha a ambição de se provar em outro ambiente. As limitações da Bundesliga atrapalham, vide as escolhas recentes de David Alaba e do próprio Robert Lewandowski, que preferiram deixar o clube em busca de novos desafios. Apesar disso, a importância do Bayern na Champions é enorme para também pinçar astros de outros lugares. Mané reforça essa possibilidade.

E também será interessante pensar na própria maneira como Mané adiciona possibilidades comerciais ao Bayern. Primeiro, pela imagem que carrega após tantos sucessos nos últimos anos. Depois, pela própria penetração que possui no continente africano. Os bávaros não possuem tantos ídolos nascidos na África em sua história, exceção maior feita ao ex-zagueiro Samuel Kuffour. Mané também é um diferencial neste sentido e pode estreitar os laços do clube com o continente, num momento em que apenas reservas de seu elenco são africanos. O senegalês traz uma reputação que gera mais olhares.

Neste primeiro momento, é mais difícil cravar como Mané será utilizado no Bayern, até pela indefinição em relação a Lewandowski. O clube possui uma tradição de contar com pontas decisivos e isso regeu o sucesso por muito tempo, em especial nos anos de Robben e Ribéry. No entanto, não surpreenderá se o senegalês ganhar mais liberdade para se movimentar a partir do centro, apoiando no 3-4-2-1 usado por Nagelsmann em diferentes momentos da temporada. Garantir esse espaço ao atacante, aliás, será uma das prioridades para repensar a formação dos bávaros. Não há dúvidas que ele chega já com uma influência na forma de moldar a equipe para seus maiores desafios.

Por enquanto, a janela de transferências do Bayern é bastante positiva. Além de Mané, o clube também garantiu as contratações de Ryan Gravenberch e Noussair Mazraoui, enquanto Niklas Süle e Marc Roca foram as perdas. O elenco ganha mais profundidade, ao passo que os bávaros recebem reforços prontos para brilhar, o que nem sempre foi praxe nas janelas recentes. Era necessária uma resposta do clube, entre os entraves que se veem na mudança de gestão e pela falta de atividade no mercado de temporadas recentes. Mané é uma das melhores respostas possíveis, por aquilo que adiciona e também pela forma como reforça as credenciais do Bayern. A ambição tende a contagiar outras lideranças internamente.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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