Mais do que o milagre na rodada final, o Heidenheim representa uma escalada fantástica desde a quinta divisão até a estreia na Bundesliga
Treinado desde 2007 por Frank Schmidt, técnico que cresceu a poucos metros do estádio do clube, o Heidenheim será o 57° time diferente a participar da Bundesliga

O Heidenheim chega à Bundesliga com o pé na porta. O acesso conquistado pelos rubroazuis é dos mais impressionantes da história – e não só no futebol alemão. Ficará gravado na retina o jeito como o Hamburgo teve sua festa usurpada pelos concorrentes, graças aos dois gols nos acréscimos do segundo tempo que fizeram o Heidenheim vencer o Jahn Regensburg por 3 a 2 e subir pela primeira vez à elite nacional. O épico deste domingo, porém, é a ponta o iceberg de uma história sensacional. O Heidenheim é um clube que nunca tinha disputado as divisões profissionais na Alemanha até este século e ascendeu a partir da quinta divisão nos últimos 20 anos, sem um retrocesso sequer. Toda essa caminhada foi liderada por Frank Schmidt, o técnico que chegou ao clube de sua cidade natal em 2003 como jogador e assumiu o comando a partir de 2007. Já pinta logo de cara como o treinador mais longevo das cinco grandes ligas europeias.
O Heidenheim está sediado na cidade homônima de 50 mil habitantes, localizada na região de Baden-Württemberg, logo na fronteira com a Baviera. Será vizinho de Freiburg e Hoffenheim na elite – além do Stuttgart, se os alvirrubros garantirem a permanência. A agremiação foi fundada ainda em 1846, para a prática sobretudo da ginástica. O departamento de futebol surgiu em 1910 e se viu limitado às divisões amadoras. Por muito tempo, o maior orgulho ficava por conta de seus talentos revelados. Walter Birkhold é considerado um dos maiores jogadores amadores da história da Alemanha e, na década de 1960, recusou propostas da Bundesliga porque não quis se profissionalizar. Já Horst Blankenburg depois faria sucesso no Ajax tricampeão europeu.
Em campo, o Heidenheim se limitava a ser um time de terceira divisão entre as décadas de 1960 e 1970. No máximo, conseguia aparições esporádicas na Copa da Alemanha, mas com eliminações imediatas. A situação piorou durante as décadas de 1980 e 1990, quando o time variou entre a quarta e a quinta divisão do Campeonato Alemão. A verdadeira guinada aconteceu mesmo a partir de 2003/04, quando os rubroazuis conquistaram o acesso na Verbandsliga Württemberg, equivalente à quinta divisão. A partir de então, a equipe não retrocederia mais em sua escalada rumo à elite.
O ano de 2007 seria importante ao Heidenheim em diversos aspectos. Primeiro, porque o departamento de futebol se separou totalmente da estrutura poliesportiva da agremiação e, desta maneira, passou a operar dentro das regras exigidas pelas entidades profissionais da Alemanha – o que era necessário, visando o acesso à terceirona. Depois, porque o técnico Frank Schmidt iniciou seu trabalho em setembro daquele ano. Uma escolha certeira para o cargo, de um cara que havia nascido na cidade de Heidenheim e crescido a poucos metros do estádio do clube.
Volante de carreira modesta, Schmidt rodou somente pelas divisões de acesso do Campeonato Alemão, embora tenha jogado o Mundial Sub-20 de 1993 quando despontava na base do Nuremberg. Já no final da trajetória, o meio-campista voltou à cidade natal em 2003 e conquistou em campo o acesso na quinta divisão com o Heidenheim. Já tinha 33 anos quando pendurou as chuteiras e nem queria ser técnico, quando recebeu o convite para assumir em 2007. A sugestão do presidente Holger Sanwald era de que ficasse “pelo menos por algumas partidas”. Ficaria por mais de 500, para realizar uma revolução.
Schmidt conquistou seu primeiro acesso no Heidenheim na terceira temporada à frente do clube, em 2008/09. Já era um feito imenso, por marcar o retorno dos rubroazuis à terceirona depois de três décadas de ausência. O salto também provocou a transição profissional completa da agremiação. E o Heidenheim se deu bem, sempre se mantendo na parte de cima da tabela na terceira divisão. Foram quatro campanhas entre o quarto e o nono lugar, até que a nova promoção viesse em 2013/14. O Heidenheim ocupou a liderança durante quase toda a campanha e confirmou o acesso inédito à segundona com antecedência. Também ficou com o título, mesmo com a concorrência do RB Leipzig naquela temporada.

Desde então, o Heidenheim virou uma equipe estável na segunda divisão da Bundesliga. Foram só duas campanhas na metade inferior da tabela, e apenas em 2017/18 existiu algum risco de rebaixamento. O time ainda fazia bonito na Copa da Alemanha, como em 2018/19, quando eliminou o Bayer Leverkusen e forçou um 5 a 4 diante do Bayern de Munique. Paralelamente, os rubroazuis passaram a rondar o acesso na segundona. Quase aconteceu em 2019/20, quando o Heidenheim ultrapassou o Hamburgo na reta final para ficar na terceira posição e disputar os playoffs de acesso. Após o empate por 0 a 0 fora, a equipe cedeu o 2 a 2 em casa contra o Werder Bremen, que se safou do descenso pelos gols como visitante. Os rubroazuis teriam que continuar a remar. Nas duas temporadas posteriores, ficaram na oitava e na sexta colocação da segunda divisão. Até que o acesso viesse dessa vez.
O Heidenheim não era exatamente o principal candidato ao acesso, mas aproveitou uma edição aberta da segundona. Os rubroazuis rondaram a zona do acesso desde as primeiras rodadas. Os muitos empates frearam um pouco as pretensões de início, mas o time emendou uma sequência de vitórias em novembro e fechou o primeiro turno na terceira colocação. Foram alguns jogos emocionantes, com destaque aos 5 a 4 sobre o Jahn Regensburg decidido apenas aos 49 do segundo tempo – e isso depois que os oponentes tinham empatado a partida aos 47. Era uma mostra da emoção maior que ainda estava por vir.
Já no segundo turno, o Heidenheim manteve um nível mais alto. Conseguiu permanecer entre a terceira e a segunda colocação na tabela, com somente duas derrotas. Os rubroazuis não conseguiam desbancar o Darmstadt na liderança, mas venceram o confronto direto. Mais importante era a ultrapassagem sobre o Hamburgo, que tinha ficado boa parte do campeonato na zona de acesso direto. A partir de abril, o Heidenheim se preservou na segunda colocação em oito das nove rodadas antes da partida final. Assim, chegou com a vantagem sobre o Hamburgo na tabela durante a decisão diante do Jahn Regensburg. E aconteceu tudo de mais apoteótico neste domingo: a vitória por 3 a 2 de virada, com os gols decisivos aos 48 e aos 54 do segundo tempo. O milagre que tirou o Hamburgo da zona de acesso e ainda rendeu o título ao Heidenheim, graças ao tropeço do Darmstadt, goleado pelo Greuther Fürth e ultrapassado no saldo.
O detalhe é que o Heidenheim aparece como um competidor modesto mesmo para os parâmetros da segunda divisão. A folha salarial dos rubroazuis os colocaria, por si, no meio da tabela. No mercado de transferências, o clube não gastou mais do que €350 mil – e isso porque vendeu Tobias Mohr ao Schalke 04 por €1,1 milhão. Já o estádio local, a Voith Arena, possui uma média de público que não passa dos 11,1 mil – mas que deve chegar aos 15 mil de lotação com frequência na primeira divisão.
Frank Schmidt se confirma como um dos melhores técnicos do futebol alemão. A trajetória do comandante de 49 anos é para poucos, ao sair da quarta divisão e colocar um time modesto na elite. São 586 partidas à frente do Heidenheim, com um aproveitamento de 54% dos pontos. Pode não ser nada espantoso, mas a maneira como transformou os rubroazuis é especial. Além do senso coletivo que imprime na equipe, é bastante elogiado por sua liderança e pela capacidade de comunicação. A parceria com o clube tende a se estender por mais um bom tempo, com o atual contrato do técnico vigente até junho de 2027. Poderá dar alguns passos maiores na Bundesliga.
Já o elenco do Heidenheim chama atenção por ser composto quase que em sua totalidade por atletas alemães. Há muita gente com dupla nacionalidade, mas não que os rubroazuis invistam tanto em estrangeiros. Destes, os principais são o volante Lennard Maloney, berlinense de nascimento que já atuou pelos EUA na base, e o meia Kevin Sessa, alemão de ascendentes argentinos. Ainda assim, os grandes destaques são outros. O goleiro Kevin Müller e o zagueiro Patrick Mainka deram sustentação ao sistema defensivo. Já no ataque, a produção de gols se dividiu entre o ponta Jan-Niklas Beste e principalmente o centroavante Tim Kleindienst. Não à toa, foram os dois autores dos gols dramáticos no jogo do acesso.
Kleindienst ainda merece um capítulo à parte, como principal destaque do Heidenheim nestes anos recentes. Revelado pelo Energie Cottbus, o camisa 10 chegou a passar pelo Freiburg sem emplacar. Teve um empréstimo ao Heidenheim em 2016/17, antes de retornar ao time em 2019/20. Foi um dos responsáveis por levar a equipe aos playoffs de acesso e marcou os dois gols contra o Werder Bremen, sem sucesso. O centroavante também jogou brevemente no Genk, antes de voltar para arrebentar no Heidenheim. Sempre registrou dois dígitos de gols pelo clube na segundona. Mas nada comparado com a atual campanha: foram 25 tentos, que renderam a ele a artilharia do torneio. E o terceiro contra o Jahn Regensburg tem uma importância estratosférica.
Com 69 gols e 18 assistências, Kleindienst é o segundo maior artilheiro da história dos rubroazuis. Só fica atrás de Marc Schnatterer, lenda local que vestiu a camisa do clube de 2008 a 2021, firmando-se como principal referência nos acessos anteriores. Kleindienst ainda pode acreditar que a vitrine no Heidenheim oferecerá novas oportunidades em sua carreira. O clube, afinal, impulsionou bons jogadores como Robert Andrich, Niklas Dorsch, Florian Niederlechner e Robert Glatzel.
É natural imaginar que o Heidenheim corre o risco de sofrer um rebaixamento imediato na sua temporada de estreia na Bundesliga. É um clube de uma cidade pequena, com poucas possibilidades financeiras. Todavia, há diferentes caminhos para a manutenção, que outros times pequenos já mostraram nos últimos anos. Além disso, a qualidade do trabalho realizado por Frank Schmidt é grande o suficiente para acreditar na capacidade dos rubroazuis em evitar a queda. Certamente não vai ser uma missão tão difícil quanto esse acesso que os novatos conseguiram buscar nos acréscimos do segundo tempo – e para ferir a alma de um gigante como o Hamburgo.
Das ist für Dich, Frank! 🫶
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— 1. FC Heidenheim 1846 e. V. (@FCH1846) May 28, 2023



