Bundesliga

Lewandowski se despediu como gigante do Bayern mais pelos feitos do que pela idolatria

Lewandowski é uma lenda do Bayern em números e conquistas, mas não necessariamente em pertencimento e adoração

Robert Lewandowski deixou o Bayern de Munique figurando entre as lendas do clube. A grandeza do artilheiro na Allianz Arena é evidente – provada com gols, títulos, prêmios individuais. Lewy gravou seu nome como o segundo maior centroavante da história do clube, o que não é pouco, considerando o peso de Gerd Müller para os bávaros. Entretanto, a idolatria ao redor do polonês é relativa. Nada tão unânime assim. A maneira como a saída rumo ao Barcelona aconteceu deixa seus ruídos, enquanto outras figuras da história recente do Bayern possuem uma ligação emocional maior com a agremiação. Faltou mais identificação, um entrave já reclamado anteriormente e que se escancara no ato final – algo que discutem tanto Frank Linkesch, na Kicker, quanto Raphael Honigstein, no The Athletic. A excelência de Lewandowski não é suficiente para cravá-lo como alguém mais preponderante que outros craques no coração da torcida.

Nem dá para dizer que o passado ligado ao Borussia Dortmund atrapalha tanto a dimensão de Lewandowski, mesmo que outros ídolos contemporâneos tenham o Bayern no DNA. O centroavante deixou para trás sua relação com os aurinegros dentro de campo, se elevando como jogador. De um excelente goleador, Lewy virou um nome histórico na Baviera. Superou as suas marcas, as suas conquistas, o próprio ápice que se imaginava à sua carreira. Fez valer tudo o que os bávaros esperavam na contratação e excedeu as expectativas com o passar dos anos. Mas isso em números, não em totalmente sentimentos.

Os fatos

A estatura de Lewandowski se erige em fatos. Por duas vezes foi eleito o melhor do mundo, em prêmios que os jogadores do Bayern passaram quase quatro décadas sem levar. Também ganhou a Chuteira de Ouro duas vezes, quebrando um hiato de quase cinco décadas. Em apenas oito anos, fez outros jogadores fantásticos ficarem para trás e se transformou no segundo maior artilheiro do clube. Tornou-se o maior goleador dos alvirrubros na Champions League em todos os tempos. Conquistou a Bundesliga oito vezes, sendo um dos principais motivos para que tal dinastia se renovasse.

Outro fato: quando se falar do Bayern campeão da Champions em 2019/20, o primeiro nome mencionado será o de Lewandowski. O centroavante simbolizou o futebol avassalador do time de Hansi Flick e chegou ao seu auge. Há memórias que não se apagam, com incríveis 15 gols e seis assistências em dez aparições. Não ter balançado as redes na decisão contra o PSG é um porém, mas ele teve grande impacto e contribuiu ao altíssimo rendimento da equipe – em especial nos 8 a 2 sobre o Barcelona. Ele era o protagonista, por mais que o conjunto tenha potencializado seu sucesso individual com uma engrenagem coletiva muito bem montada. Curiosamente, era também uma versão menos autocentrada e mais participativa de Lewy.

Em momentos nos quais o nível de atuação coletiva não era tão brilhante, Lewandowski também impulsionou o Bayern. A hegemonia na Bundesliga está na conta do centroavante, que auxiliou treinadores em xeque e períodos instáveis – por mais que esse efeito não tenha sido o mesmo na Champions. Seus gols sempre pintariam no placar, e isso era uma vantagem imensa para sustentar a dinastia dentro da competição. Prova disso é que, mesmo quando os bávaros sofreram uma queda nas duas últimas temporadas, Lewy teve números ainda mais absurdos no Campeonato Alemão. Conseguia fazer até o que parecia impossível.

E a lenda de Lewandowski na Baviera se concretiza pela maneira como ele desafiou a maior das lendas, Gerd Müller. Der Bomber está eternizado como maior goleador da história do Bayern e isso dificilmente vai ser rompido. Em compensação, Lewy conseguiu desbancar o recorde de gols em uma só edição da Bundesliga. Foram 41 tentos em 29 partidas, uma marca espantosa. O centroavante, aliás, conquistou os aplausos não somente pela forma como balançou as redes com frequência. As honras e o respeito a Gerd no final de sua vida também valeram a reverência ao polonês. Algo manchado meses depois, pelo jeito como Lewandowski escolheu ter seu adeus.

Os sentimentos

O profissionalismo em campo e a fome de gols não foram suficientes para que Lewandowski criasse uma relação tão carnal com a torcida do Bayern. É um gigante do clube, mas não necessariamente o mais amado – também por não ser o mais apaixonado pela camisa, com uma frieza que não se resumia ao trabalho diante dos goleiros. Se por um lado é difícil competir com uma instituição como Thomas Müller no elenco atual, mesmo Manuel Neuer conseguiu construir uma identificação maior vindo de fora, pela maneira como representa a agremiação acima de tudo. Em termos de encantamento, Lewy permanece muito abaixo de contemporâneos como Franck Ribéry e Arjen Robben, os craques genuínos das gerações mais recentes e igualmente passionais. E isso para não colocar em discussão nomes como Philipp Lahm e Bastian Schweinsteiger, que unem tanto qualidade técnica quanto enraizamento.

A esta altura da carreira, a personalidade não se transformaria mais para Lewandowski. Sua idolatria não se tornaria tão maior no Bayern, mesmo que engrandecesse mais sua história. E não se pode negar que o centroavante atingiu o topo no clube. Faturou os principais títulos, estabeleceu seus recordes, não deixou de vencer. Seria plenamente compreensível que desejasse sair para se experimentar em outro lugar, se aproximando dos 34 anos. Lealdade, afinal, não era exatamente uma virtude de sua carreira – como os torcedores do Dortmund tão bem remoem. Mesmo antes do Barça, Lewy flertou com Real Madrid e Chelsea, mas sua permanência foi muito mais pelo Bayern do que pelo atacante. Porém, o ato final não precisava ser da forma como foi, com a insatisfação tornada pública e a merda jogada no ventilador.

Lewandowski não foi nada polido em sua postura. Que os dirigentes do Bayern fizessem jogo duro, algo natural para não liberar o seu melhor jogador, o centroavante não fez questão de poupar sua relação com o clube. A maneira como Lewy forçou as coisas expôs os seus erros, mesmo que Hasan Salihamidzic e Oliver Kahn não façam uma gestão tão elogiosa. De um atleta inegociável por seu talento, o artilheiro virou negociável por sua atitude. Manter um jogador insatisfeito não era uma boa decisão e os alvirrubros se despediram do centroavante sem remorsos. Mas também sem tantas homenagens, sem tanta emoção, sem tanta reverência. A frieza do polonês foi ainda maior em seu adeus, nada lisonjeiro.

É provável que o tempo cure parte das mágoas. Lewandowski merece ser lembrado como um dos maiores da história do Bayern e os motivos para isso são vastos. Também garantiu lembranças inexoráveis, das atuações avassaladoras nos clássicos contra o Dortmund a jogos inacreditáveis como aquele dos nove minutos mágicos contra o Wolfsburg. Será onipresente em escalações campeãs durante oito anos, tantas vezes como face principal. Idolatria, contudo, não é uma competição de números. É pertencimento e adoração. Nestes aspectos, a impressão é de que o centroavante poderia ter sido maior. Não foi e se tornou menor pela forma como tudo acabou.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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