Bundesliga

Javi Martínez escreveu uma bonita história em seus nove anos no Bayern – e com impacto imediato, apesar dos altos e baixos

Javi Martínez não será um dos primeiros nomes citados quando o poderoso Bayern de Munique da década de 2010 for escalado. Mas, em nove anos de clube, o volante escreveu uma das histórias mais vitoriosas de um jogador espanhol fora de seu país. Sua carreira nem sempre foi linear e o meio-campista enfrentou problemas sérios de lesão. Entretanto, contratação mais cara dos bávaros quando chegou à Allianz Arena em 2012, o camisa 8 foi uma peça-chave para a montagem do esquadrão da Tríplice Coroa em 2012/13. E, mesmo como coadjuvante, ficaria para experimentar todas as glórias enfileiradas pelos alvirrubros desde então. Conforme já esperado, o Bayern não renovará com Martínez e o liberará aos 32 anos. O carinho da torcida permanece, a um jogador que sempre se dedicou bastante à camisa.

Quando o Bayern desembolsou €40 milhões pela rescisão de contrato de Javi Martínez em 2012, trazia um ótimo prospecto ao seu meio-campo. O volante de 23 anos vinha em alta no Athletic Bilbao, protagonizando a campanha do time de Marcelo Bielsa rumo à decisão da Liga Europa em 2011/12. Também era uma figura frequente nas convocações da seleção espanhola, reserva tanto na conquista da Copa de 2010 quanto no título da Euro 2012. Era um jogador de muita presença física, que sabia construir o jogo de trás e representava um perigo pelo alto. Tornava-se uma arma ao que pedia Jupp Heynckes na época. Encaixou-se como uma luva no meio-campo bávaro.

Até então, Luiz Gustavo e Anatoliy Tymoshchuk eram as opções mais frequentes na cabeça de área. Ambos tiveram seus momentos no Bayern, mas não eram unanimidades. A chegada de Javi Martínez transmitia mais segurança e parecia garantir um jogador para tomar conta do setor por anos no clube. Não foi exatamente o que aconteceu, mas o impacto inicial do basco é inegável. O camisa 8 formou uma dupla muito sólida ao lado de Bastian Schweinsteiger. Dava mais tranquilidade à marcação e permitia que o companheiro se soltasse no apoio. Mesmo longe dos holofotes, o meio-campista foi uma das razões da guinada do Bayern em 2012/13. E ele faria uma excelente Champions League, titular absoluto na equipe que amassou Juventus e Barcelona, antes da conquista contra o Borussia Dortmund. Seu lugar na história estava assegurado ali. Na Supercopa de 2013, ainda fez um gol no último minuto da prorrogação contra o Chelsea, que forçou os pênaltis e deu o título ao Bayern.

A quebra na sequência de Javi Martínez não demoraria, com a contratação de Pep Guardiola. O novo treinador passou a usar primeiro Bastian Schweinsteiger e depois Philipp Lahm como cabeça de área. Assim, Martínez deixava de ser imprescindível. Além do mais, o espanhol começou a conviver com as lesões, operando a virilha no início da temporada 2013/14. Quando aparecia na equipe, muitas vezes acabava deslocado à zaga. As conquistas se repetiam, mas os minutos em campo eram escassos. Em 2014/15, Martínez só disputou um jogo da Bundesliga, com uma ruptura dos ligamentos. Também seria pouco usado em 2015/16, com problemas nos meniscos. Ainda que a mudança no comando tenha custado seu papel no time, a falta de continuidade correspondia mais às dificuldades em se manter saudável.

As maiores sequências de Javi Martínez no Bayern desde a tríplice coroa aconteceram com Carlo Ancelotti. Não escapou das oscilações, mas se firmou como zagueiro e na segunda temporada retomou o posto de volante. Já com Niko Kovac, as chances como titular também não eram seguidas. Em momentos nos quais os bávaros pareciam abaixo do poderio de outrora, o espanhol representava ainda uma liderança importante nos vestiários. E seria principalmente assim que encerraria sua passagem sob as ordens de Hansi Flick. Acima dos 30 anos, sua utilização se tornou mais rara, com novas opções à zaga e outras contusões que custavam sua sequência. Todavia, mesmo como reserva, o camisa 8 pôde reconquistar à Champions. E daria sua contribuição ao 2020 vitorioso, com o gol que valeu o título na Supercopa Europeia contra o Sevilla, de novo na prorrogação.

Javi Martínez foi herói contra o Sevilla (Foto: Imago / One Football)

Javi Martínez entrou de vez em quando na atual temporada, mas virou uma cartada na manga durante a Champions. Diante dos muitos desfalques da equipe, o volante foi improvisado como centroavante na eliminação contra o Paris Saint-Germain. Não deu muito certo. Aquela partida, de qualquer maneira, ressalta como o meio-campista sempre esteve pronto para dar seu melhor aos bávaros. Quando chegou, até mesmo abriu mão de parte dos seus salários, para facilitar o negócio – o que já gerou um respeito entre os torcedores. Uma pena que seu físico tenha atrapalhado tanto, mas o auge, embora curto, gravou seu nome naquele 2012/13 brilhante. E o veterano se despede da Allianz Arena com um provável eneacampeonato na Bundesliga, além de ter erguido a Orelhuda da Champions em duas oportunidades distintas.

“Estou muito orgulhoso e feliz de ter feito parte da família do Bayern durante nove anos. Gostaria de agradecer esse magnífico clube e, sobretudo, nossos torcedores. Nunca vou me esquecer. Desde o primeiro dia senti como o clube é especial. Sempre dei tudo em campo e estou muito feliz pelos títulos que ganhamos juntos. O Bayern e seus torcedores sempre vão permanecer em meu coração”, declarou Javi Martínez. O meio-campista deve igualar Franck Ribéry como o estrangeiro com mais títulos na história da Bundesliga, nove no total. Com 266 partidas, também ocupa a décima colocação entre os estrangeiros com mais aparições pelo clube.

Diretor geral do Bayern, Karl-Heinz Rummenigge resumiu bem a trajetória do meio-campista: “Foi uma decisão difícil quando contratamos Javi, porque era uma cifra recorde para o clube. Esta decisão acabou sendo acertada: Javi deu uma enorme qualidade à nossa equipe e, pessoalmente, se encaixou maravilhosamente conosco. Agradeço a Javi por todos esses anos tão bonitos e exitosos. Ele seguirá sendo sempre um integrante importante da família do Bayern”. Segundo dados da Opta, Javi Martínez é o jogador com maior percentual de vitórias na história da Bundesliga, entre aqueles com pelo menos 100 aparições, ganhando 82% dos compromissos em que esteve em campo.

A saída de Javi Martínez reforça um pouco mais o momento de transição do Bayern. David Alaba não quis renovar seu contrato, enquanto Jérôme Boateng acabou descartado pela diretoria. Do time campeão em 2012/13, restam apenas Thomas Müller e Manuel Neuer. Há uma clara passagem de bastão, promovendo novos protagonistas e aliviando a folha salarial. No caso do camisa 8, o adeus é compreensível. Mesmo que os 32 anos permitam jogar profissionalmente por mais um tempo, o alto nível dos bávaros exigia mais. A própria maneira como o clube o manteve no elenco, apesar de toda a instabilidade de seu físico, indica uma consideração alta à figura do espanhol.

Agora, resta saber qual será o próximo passo de Javi Martínez. O jogador tem seu nome ligado a clubes da MLS e da J-League, mas também pode ensaiar uma volta para casa. Mesmo rescindindo o contrato com o Athletic Bilbao, o meio-campista ainda possui uma reputação alta em San Mamés e sua saída era compreensível na época – sem a forçada de barra que ocorreu com Fernando Llorente, por exemplo. Se quiser voltar, parte da torcida certamente abrirá as portas. Diante de sua idade e de seu histórico de lesões, o negócio possui seu nível de incerteza e seus riscos, pensando que dificilmente o veterano seria titular absoluto. Mas, considerando sua experiência e sua própria ligação com os Leones, seria um vencedor dentro do elenco. E certamente o camisa 8 traz uma mentalidade diferente por tudo aquilo que viveu no Bayern. Ter tamanha reputação num clube tão poderoso diz muito sobre a pessoa de Javi, ainda que sua carreira não tenha acompanhado tal ritmo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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