vive o renascimento de sua carreira no . O veterano experimentou uma aposentadoria um tanto quanto forçada após conquistar a tríplice coroa com os bávaros, diante do alinhamento dos dirigentes com Pep Guardiola. Saiu no ponto alto de sua carreira, mas sabendo que poderia render um pouco mais. Apesar do episódio, o treinador não guardou mágoas e retornou a Baviera diante da primeira necessidade, resgatando o moral do time após a passagem oscilante de Carlo Ancelotti, e já mirando mais um título da Bundesliga. Neste intervalo, entretanto, o comandante preferiu manter seu retiro a assumir outros endinheirados de Europa.

Neste domingo, em entrevista ao FAZ, Heynckes revelou que recebeu propostas para dirigir o Chelsea e o Paris Saint-Germain logo após a conquista da Liga dos Campeões, em 2013. No entanto, aos 68 anos, preferiu a aposentadoria, não se aventurando em dois clubes sustentados por magnatas, nos quais as cobranças por resultados costumam ser bastante altas. Largaria o descanso apenas quatro anos depois, com o novo chamado do Bayern.

“Roman Abramovich queria visitar a minha casa, para me convencer a treinar o Chelsea. Eu disse: ‘Não, obrigado. Meu trabalho acabou. O dono do PSG queria trazer toda a sua comitiva, incluindo os seus chefes de cozinha, para fazer um jantar na minha fazenda. Eu também não quis isso. Desfrutei de uma maravilhosa paz durante quatro anos, em que fiz apenas o que eu queria”, afirmou Heynckes. A temporada 2013/14 marcou o retorno de José Mourinho ao Chelsea, se entendendo com Roman Abramovich após sua saída turbulenta na primeira passagem pelo clube. Sob as ordens do português, os Blues terminaram a Premier League na terceira colocação e chegaram às semifinais da Champions. Já o PSG buscou Laurent Blanc como substituto de Carlo Ancelotti e foi bicampeão da Ligue 1, eliminado justamente pelos ingleses nas quartas de final da Liga dos Campeões.

Apesar do longo período parado, Heynckes demonstra suas qualidades neste retorno ao Bayern. Arrumou o time que não apresentava um padrão com Carlo Ancelotti, retomando alguns dos preceitos exibidos na época da tríplice coroa, com uma defesa sólida e rapidez nos ataques. Além disso, alguns craques em litígio com o italiano voltaram a crescer sob o comando do alemão. O resultado disso é que, desde então, os bávaros venceram 16 das 18 partidas disputadas desde então, derrotados apenas uma vez, pelo Borussia Mönchengladbach. Eliminaram o Dortmund na Copa da Alemanha e deram o troco contra o PSG na Champions, apesar da classificação na segunda colocação do grupo. Já na Bundesliga, arrancaram rumo à liderança e já acumulam 16 pontos de vantagem.

Ao longo da entrevista, Heynckes ainda abordou outros tópicos. Questionado sobre o que almeja em suas equipes, ele respondeu: “Quero uma estrutura em que tudo seja homogêneo e harmonioso. Essa é a arte do futebol. É como um xadrez em que as peças se movem sozinhas. E aqueles atletas que fazem isso intuitivamente são definitivamente os melhores. Essa é a assinatura de um grande treinador. O trabalho do técnico é juntar isso. Por exemplo, o que James tem jogado mostra como o futebol apresenta esta intuição. A base para isso acontece diariamente no campo de treinamentos. Essas coisas precisam ser constantemente repetidas, corrigidas e aperfeiçoadas. Não é sempre fácil, porque o homem prefere sua zona de conforto. A perfeição não existe no futebol, por mais que você chegue perto em alguns jogos. Mas você precisa tentar, trabalhar com muito cuidado e com muita consciência. Eu sempre fiz isso, mesmo como jogador. Prestei atenção em todos os aspectos. Sou uma pessoa muito precisa, também como técnico”.

Heynckes também falou sobre o momento em que recebeu o convite para voltar ao Bayern. Ele assistiu à derrota por 3 a 0 contra o PSG como um torcedor, não como um treinador. Então, a partir daquele jogo, percebeu que precisava começar o trabalho como a construção de uma casa, iniciando pelo alicerce, a defesa. Além disso, o veterano garante que o reinício não tem causado estresse, já que o trabalho duro é sua abordagem própria, exigindo a exaustão para alcançar a precisão, o esforço e a consciência.

“Em meu coração, sou um técnico ofensivo que ama o futebol atrativo. Mas eu também sei exatamente o que é necessário para o sucesso, uma boa defesa. O controle dos treinamentos durante os meus três primeiros meses foram bem difíceis, porque muitos jogadores estavam machucados. Na intertemporada em Doha, nós novamente chegamos ao nível de intensidade e de qualidade nos treinamentos que tivemos na época da tríplice coroa. Para o returno, queremos mandar um sinal que seja notado na Bundesliga. Conseguimos isso na vitória sobre o Leverkusen. Estou otimista sobre a segunda metade da temporada. É importante manter o ritmo, a tensão. Foi como aconteceu em 2013, quando já éramos campeões do Alemão em abril, mas seguimos assim até o fim. A arte de ser treinador é ter todos os jogadores disponíveis nos últimos quatro meses, de fevereiro a maio. E todos precisam estar no topo não apenas de suas condições físicas, mas também na força e na energia”, analisou.

Perguntado sobre a falta de competitividade na Bundesliga, que diminui o interesse do público, o veterano exibiu sua crítica: “Você está absolutamente certo. Eu compartilho a opinião com muitas pessoas, de que é necessário ter mais variedade no topo da tabela e mais empolgação com a luta pelo título. O único é que não podem acusar o Bayern, que trabalha com sucesso e usa as suas vantagens. É muito difícil para qualquer um conseguir isso. Mas a liga seria realmente melhor se existisse uma competição, como era contra o Dortmund de Klopp. Hoje, vejo que o Dortmund ainda é o mais capaz de conseguir isso, quando a calma voltar e os jogadores estiverem sadios. O Leipzig também, porque eles fazem um grande trabalho. A diferença é que apenas o Bayern consegue segurar o jogador que quiser. O que aconteceu com Naby Keita nunca se veria aqui”.

Por fim, o técnico falou sobre a relação com o profissionalismo, comparando com os seus tempos de atacante:  “O que eu ganhava é nada, perto dos valores atuais! Eu gostaria de mostrar o meu primeiro contrato profissional, de 1964. Eu ganhava 160 marcos por mês! Pena que eu não tenho mais esse papel, senão eu iria pendurar no nosso vestiário. Todos os jogadores iam rir tanto que não conseguiriam treinar. Mas o futebol de hoje tem um espírito diferente, somas bastante diferentes. Se isso é melhor, eu tenho dúvidas. Há jogadores excelentes que trabalham profissionalmente e ganham exorbitantemente, você precisa aceitar isso. O que eu não concordo é quando jogadores medíocres, que não são profissionais, ganham muito. Aqui no Bayern, temos jogadores 100% profissionais. Mas você precisa dar o exemplo. É claro que as camisas não permanecem no chão do vestiário após o treino, há uma faxineira que toma conta disso. Eu digo aos jogadores que essa poderia ser a mãe deles. Demando respeito, primeiro com as pessoas, depois com a própria profissão”.