Bundesliga

Guia da Bundesliga 2020/21: Schalke 04

Cidade: Gelsenkirchen, na Renânia do Norte-Vestfália (260 mil habitantes)
Estádio: Veltins Arena (62,2 mil espectadores)
Técnico: David Wagner (desde julho de 2019)
Posição em 2019/20: 12°
Participações na Bundesliga: 52
Projeção: fugir do rebaixamento
Principais contratações: Gonçalo Paciência (A, Eintracht Frankfurt), Vedad Ibisevic (A, Hertha Berlim), Sebastian Rudy (M, Hoffenheim), Hamza Mendyl (D, Dijon), Mark Uth (A, Colônia), Ralf Fährmann (G, Brann), Steven Skrzybski (A, Fortuna Düsseldorf), Nabil Bentaleb (M, Newcastle)
Principais saídas: Weston McKennie (M, Juventus), Alexander Nübel (G, Bayern), Daniel Caligiuri (M, Augsburg), Bernard Tekpetey (A, Ludogorets), Cedric Teuchert (A, Union Berlim), Pablo Insua (D, Huesca), Jonas Carls (D, Vitória de Guimarães), Jonjoe Kenny (D, Everton), Michael Gregoritsch (A, Augsburg), Jean-Clair Todibo (D, Barcelona)
Brasileiros no elenco: nenhum
Time na estreia da Pokal: Ainda não estreou

Nem mesmo os times rebaixados terminaram a temporada tão em baixa quanto o Schalke 04. Os Azuis Reais atravessam uma crise histórica, que não se limita ao que acontece dentro de campo. Obviamente, passar 16 rodadas consecutivas sem vencer na Bundesliga (maior marca já registrada pelo clube na competição) não é para orgulhar ninguém. Mas a situação se torna ainda mais dramática pelas sucessivas decisões horríveis da direção e pelo rombo financeiro que se amplia. Diante de um cenário tão incerto, a salvação será um alívio em Gelsenkirchen, por mais que o clube tenha potencial para se assegurar no meio da tabela.

O vice-campeonato na Bundesliga 2017/18 parece ter acontecido séculos atrás. A temporada seguinte foi dolorosa ao Schalke 04, com o risco evidente de rebaixamento e a permanência carimbada por Huub Stevens, treinador histórico que largou a aposentadoria para ajudar os Azuis Reais. O passo seguinte da transformação parecia bem feito, com a escolha de David Wagner – com histórico de jogador pelo próprio clube e uma boa passagem à frente do Huddersfield, excedendo as expectativas ao levar a equipe à Premier League após décadas. E o começo dessa nova história até saía melhor do que a encomenda, com o bom primeiro turno.

Se antes o objetivo do Schalke era se reconstruir e passar longe da zona de rebaixamento, a metade inicial da Bundesliga colocou o time na rota da Champions. Tudo bem, o campeonato equilibrado permitia tal aproximação e as oscilações dos Azuis Reais também indicavam que não era uma equipe totalmente pronta. Mas os resultados afirmavam que a escolha de David Wagner foi bem feita e que o clube começava a se encontrar, com um jogo mais incisivo e de talento individual. Porém, a ilusão não durou tanto assim, após a virada do ano.

O segundo turno começou sofrível ao Schalke 04, com muitos empates. O moral do elenco passou a ser dinamitado pelas goleadas logo depois e o ataque sequer marcava gols. E a parada por causa da pandemia, que poderia dar calma a David Wagner corrigir os problemas, aprofundou ainda mais a crise. Foram sete derrotas em nove rodadas, com 22 gols sofridos e apenas cinco anotados. Os Azuis Reais entraram em espiral e nada parecia capaz de atenuar o clima pesado em Gelsenkirchen. Pelo contrário, o ambiente redor piorava as perspectivas de recuperação.

O Schalke foi um dos clubes que admitiu abertamente como o impacto financeiro da pandemia deixava o seu futuro incerto e, por isso mesmo, liderou a pressão pela volta da Bundesliga. O presidente Clemens Tönnies chegou a oferecer sua indústria para produzir os testes de COVID-19. No fim das contas, o cartola deixou seu cargo no fim de junho, mas por assuntos externos. Já muito questionado pelos problemas na gestão esportiva, o empresário fez declarações racistas no início da temporada e o clube passou o pano, apesar dos pedidos da torcida para que renunciasse. Depois, já em meio à pandemia, demitiu funcionários e quis complicar a devolução do dinheiro dos ingressos à torcida. E então surgiram denúncias à maneira como os funcionários de sua empresa alimentícia estavam expostos ao vírus, com o local virando até mesmo um foco de disseminação da doença. Saiu do Schalke para “cuidar dos negócios”.

O fim da gestão de Tönnies, após quase 19 anos, é um problema a menos ao Schalke. Mas seus partidários continuam na alta cúpula e os débitos pesam nas contas. Ao menos tempo, há outras tantas questões que atravancam o futebol. A péssima gestão dos contratos e da renovação dos atletas é um ponto primordial aos resultados insatisfatórios dos Azuis Reais. Nesta temporada, a saída de Alexandre Nübel foi a que mais incomodou, com o jovem capitão assinando com o Bayern após recusar a renovação. E mesmo o excesso de lesões ou a falta de alternativas no elenco minaram os resultados na Veltins Arena.

Como resultado, David Wagner precisará resolver os entraves do futebol com várias bombas caindo ao seu redor. Há uma questão anímica no Schalke, que explica tantos momentos ruins e afetou a última temporada. Wagner, reconhecido por sua boa relação com os atletas na Inglaterra, agora precisará redescobrir a confiança dos Azuis Reais. E isso porque não ganha muitas alternativas ao elenco. Sem dinheiro e numa atmosfera tão pessimista, o Schalke cada vez mais deixa de ser um clube atrativo a bons jogadores.

Nesta janela de transferências, os únicos reforços são Vedad Ibisevic e Gonçalo Paciência. São duas boas opções ao ataque, ainda que não pareçam jogadores para elevar o patamar do elenco. Ibisevic, em especial, é quem cria mais expectativas pela maneira como abraçou os Azuis Reais. Aos 36 anos, ganhará apenas bônus pelo desempenho e vai doar seus salários à caridade, enquanto tenta deixar uma última boa impressão no futebol alemão. De resto, David Wagner tentará aproveitar jogadores tarimbados que estavam emprestados por outros cantos, como Sebastian Rudy e Mark Uth.

Weston McKennie foi a principal negociação do Schalke, em saída positiva pelo dinheiro que entrou, apesar da importância do meio-campista. Muito pior, além do adeus de Nübel, foi a mudança de Daniel Caligiuri para o Augsburg ao final de seu contrato. Aos 32 anos, o meia ainda dava sua contribuição em Gelsenkirchen. Também se foram jogadores que deram um caldo durante seus empréstimos, como Jonjoe Kenny e Michael Gregoritsch. Mas, diante da situação, enxugar a folha de pagamentos era necessário.

Sem muita saída, o Schalke precisará montar uma mescla de jogadores mais rodados e outros garotos imaturos para o nível que se exige no clube. O gol é o primeiro problema, sem que o jovem Markus Schubert se mostrasse pronto à missão, mas a volta do ex-capitão Ralf Fährmann pode preencher o buraco. Na zaga, Ozan Kabak é uma das maiores promessas da posição no futebol europeu e tende a crescer, mas não deve segurar o fardo sozinho. Matija Nastasic e Salif Sané, que deveriam ajudá-lo, estão machucados. E outro a começar a temporada no estaleiro é Omar Mascarell, que ganhou a braçadeira de capitão e foi um dos melhores da equipe na temporada passada. Com isso, Rudy e Nabil Bentaleb voltam a ser importantes na cabeça de área.

Também na faixa central, com a venda de McKennie, Suat Serdar ganha mais peso na hierarquia. O meio-campista viveu grande primeiro turno, pela forma como acelerava o jogo e se aproximava do ataque. Fez muita falta na reta final da campanha por suas lesões. O mesmo comentário cabe a Amine Harit, outro a arrebentar na metade inicial da campanha e desfalcar durante o período de crise. Resta saber quem ele alimentará na linha de frente. Apesar de alguns valores, como Benito Raman e Rabbi Matondo, o ataque pouco produziu. O veterano Guido Burgstaller terminou a temporada em branco. Até por isso, Ibisevic e Paciência são tão essenciais neste recomeço, bem como Uth.

A Copa da Alemanha deixou um suspense sobre como será o início de temporada do Schalke, já que a partida contra o Türkgücü Munique foi adiada por questões jurídicas – desta vez, com os adversários. Mas não que a pré-temporada desse tantos motivos para a torcida acreditar em uma reviravolta, com derrotas para adversários das divisões de acesso e compromissos adiados por casos de coronavírus. A tradição até permitiria acreditar que os Azuis Reais dariam a volta por cima sem tanto esforço. A realidade, no entanto, é muito mais cruel e joga sobre as costas do time o peso de uma responsabilidade que nem é só dos atletas ou da comissão técnica.

O treinador

O Schalke é o primeiro grande trabalho de David Wagner na Alemanha. O treinador começou na base do Hoffenheim e passou quatro temporadas à frente do segundo quadro do Borussia Dortmund, trabalhando na mesma comissão técnica de Jürgen Klopp. Foi quando o Huddersfield teve a ideia de contratá-lo e veria que realmente fez um bom negócio. As dimensões do Schalke são totalmente diferentes e isso foi perceptível pela pressão da temporada passada. Wagner precisará trabalhar com um orçamento curto, o que já acontecia na Inglaterra, mas suas tarefas vão além. Se já parece difícil encontrar variações ao jogo, pior é realizar isso com o moral em frangalhos.

A referência

Idade não é muito problema a Suat Serdar. Afinal, na temporada passada, a maior parte dos destaques do Schalke tinha seus 20 e poucos anos. O meio-campista é um deles e compensou o investimento realizado junto ao Mainz 05. Depois de uma temporada de adaptação, virou uma peça central com David Wagner, importante ao próprio estilo do time. É uma fonte importante de gols e uma válvula de escape ao ataque, trabalhando com intensidade de área a área. O time sentiu sua falta e se manter saudável será um ponto importante nesta nova campanha.

O reforço

Aos 36 anos, Ibisevic não seria uma contratação para animar tanto os torcedores do Schalke. O contrato de baixo risco e a própria postura do atacante, todavia, ajudam a transformar essa receptividade. E diante das carências dos Azuis Reais é um nome experiente para contribuir a curto prazo. Ibisevic tem sete temporadas com dois dígitos de gols na Bundesliga. Não chegou a tanto na última campanha, até por ter passado parte dos jogos no banco, mas seus sete tentos garantiram a guinada do Hertha Berlim. Apesar da braçadeira na Velha Senhora, aceitou um desafio tamanho em Gelsenkirchen. E parece motivado a marcar seu nome no novo clube.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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