Guia da Bundesliga 2020/21: Bayern de Munique
Cidade: Munique, na Baviera (1,4 milhão de habitantes)
Estádio: Allianz Arena (75 mil torcedores)
Técnico: Hansi Flick (desde novembro de 2019)
Posição em 2019/20: 1°
Participações na Bundesliga: 55
Projeção: adivinha?
Principais contratações: Leroy Sané (A, Manchester City), Alexander Nübel (G, Schalke 04), Tanguy Nianzou Kouassi (D, Paris Saint-Germain)
Principais saídas: Thiago Alcântara (M, Liverpool), Lars Lukas Mai (D, Darmstadt), Christian Früchtl (G, Nuremberg), Ivan Perisic (A, Internazionale), Philippe Coutinho (M, Barcelona), Álvaro Odriozola (D, Real Madrid)
Brasileiros no elenco: Nenhum
Time na estreia da Pokal: não estreou
Nas últimas temporadas, a hegemonia do Bayern de Munique parecia mais suscetível. Tanto Carlo Ancelotti quanto Niko Kovac não fizeram trabalhos convincentes e, se ainda continuavam com o melhor elenco da Alemanha, os bávaros davam mais brechas para que os concorrentes se aproximassem. No entanto, menos de um ano de casa permitiu que Hansi Flick já se gravasse como um dos treinadores mais importantes da história do clube. Resolveu muitos problemas após a demissão de Kovac e transformou seu time em uma máquina de empilhar vitórias. A Tríplice Coroa foi a merecida consequência a uma equipe que não teve rival que se equiparasse.
Sendo assim, o favoritismo do Bayern hoje talvez seja menor apenas que dos tempos em que Jupp Heynckes passou o bastão a Pep Guardiola. É até difícil apontar defeitos em uma equipe que terminou a temporada da maneira como aconteceu. As duas únicas derrotas sob as ordens de Flick vieram em seu primeiro mês de trabalho. No segundo turno da Bundesliga, apenas o RB Leipzig foi capaz de arrancar pontos, no empate sem gols dentro da Allianz Arena. Foram 16 vitórias consecutivas, incluindo uma série de inapeláveis goleadas e um futebol hipnotizante.
Até poderia se pensar que a paralisação na pandemia prejudicaria o Bayern, dado o embalo do time até março. Pelo contrário, os bávaros agiram como se nada tivesse acontecido e pareciam mais seguros. Tudo beirou a perfeição: a forma física, a construção tática, a qualidade técnica. Algumas vezes, o time pôde tirar o pé do acelerador sem deixar de vencer. Mas, quando realmente quis jogar pra valer, não teve quem batesse de frente. A conquista da Champions League foi irretocável, com a goleada por 8 a 2 sobre o Barcelona servindo de marco à competição continental.
Nem tudo continuará como antes na Baviera. Philippe Coutinho e Ivan Perisic foram jogadores importantes ao elenco, como bem mostraram na Champions, mas não tiveram seus empréstimos ampliados. Já Thiago Alcântara encerrou seu ciclo de sete anos no Bayern da maneira mais apoteótica possível, com uma senhora atuação na final da Champions. Vai para o Liverpool por seu desejo, querendo um novo desafio. É um talento cuja maestria não será suprida no mercado e que pode fazer muita falta em jogos grandes, mas cuja ausência deverá ser diluída na Bundesliga. O meio-campo está bem resguardado. Quem pode fazer mais falta é David Alaba, outro propenso a sair. E a diretoria não se ajudou quando realizou críticas públicas à postura do agente do austríaco, o que parece diminuir as chances de sua continuidade.
O Bayern, em outra via, terá novidades. Nenhuma delas com o peso da contratação de Leroy Sané, um sonho de consumo antigo e que finalmente chega depois de uma temporada prejudicada pelas lesões. O jovem não pode deixar seu estrelismo atrapalhar o ambiente, mas bola tem para se tornar titular absoluto e aumentar o potencial ofensivo dos bávaros. É mais um herdeiro a Franck Ribéry e Arjen Robben nas pontas. Se o adeus aos veteranos indicava uma nova era ao clube, em pouco tempo ela se provou igualmente gloriosa e com uma equipe até mais completa. A ausência das duas lendas não será mais chorada.
Afinal, o Bayern de Munique vive um momento irrepreensível. Robert Lewandowski é o grande protagonista desse novo reinado europeu, e se beneficiou também com a chegada de Hansi Flick. O time se tornou menos dependente dos gols do polonês, ao mesmo tempo em que passou a oferecer mais recursos para que o artilheiro balançasse as redes e também abrisse espaços aos companheiros. Foi o melhor jogador da temporada europeia. Esse processo também tem a ver com a redescoberta de Thomas Müller. Velho conhecido de Flick na seleção alemã e desafeto de Kovac, o alemão não só voltou a jogar tudo o que sabe, como ajudou seu entorno a saber mais de bola. Deu assistências a rodo.
Se a chegada de Sané empolga, isso também tem a ver com o encaixe nas pontas, bem resguardadas por Serge Gnabry e Kingsley Coman. Gnabry se prova cada vez mais um dos grandes achados do Bayern, ao se transformar em protagonista do timaço e responsável por atuações desconcertantes. A Champions elevou mais seu moral. O mesmo vale para Kingsley Coman, que ainda sofre com as lesões, mas voltou no momento certo para anotar um gol inesquecível diante do Paris Saint-Germain. E, no excesso de competições, é importante ter rotação.
A cabeça de área, sem Thiago, ainda tem dois caras que foram melhores que o espanhol na última Bundesliga. Não existe centímetro quadrado de grama dentro de campo que Joshua Kimmich não domine. Transferido da lateral de volta ao meio-campo na temporada passada, foi a engrenagem que fez o time girar e contribuiu com muitos momentos decisivos. Leon Goretzka, por sua vez, agora sim justifica todas as expectativas ao seu redor. A inteligência para ver o jogo permanece, mas agora também sobra gana e potência para empurrar a equipe. Os dois ainda contam com Corentin Tolisso e Michaël Cuisance, o novo prodígio que os bávaros esperam estourar, com mais chances de aparecer no meio.
A temporada de Benjamin Pavard na lateral direita foi muitíssimo positiva, mas não tanto quanto o fenômeno chamado Alphonso Davies. Teoricamente improvisado na lateral esquerda, o canadense se transformou no melhor da posição na temporada, consistente na marcação e imparável no apoio. David Alaba precisou ser deslocado ao miolo da zaga pelo excesso de lesões e isso não foi problema, até potencializando a saída de bola e aumentando a capacidade técnica por ali. Jérôme Boateng foi outro a se recuperar com Hansi Flick, enquanto os retornos de Lucas Hernández e Niklas Süle após lesão ajudam bastante. Ainda chegou Tanguy Nianzou, zagueiro de 18 anos para ficar de olho, após deixar o PSG de graça.
E no gol, há um monumento chamado Manuel Neuer. O melhor goleiro da década viveu uma temporada que lembra o porquê é tratado como uma lenda, quando parecia dar sinais de declínio. Sua atuação na final da Champions fica na memória. E o capitão dá sua resposta no momento em que Alexandre Nübel chega como o seu possível sucessor, por mais que a impressão seja de que o camisa 1 irá render por muito tempo. É ver como será a relação entre os dois, quando Sven Ulreich ainda servia como um bom reserva.
Se há um motivo para desconfiar do Bayern, aliás, é esse: uma implosão interna. Só isso parece ser suficiente para provocar uma decepção na Bundesliga. Em contrapartida, o grupo se mostrou bastante fechado durante a Champions e notava-se tal ligação pelo trabalho coletivo dentro de campo. Talvez nem as rusgas pontuais sejam suficientes para atrapalhar. Também dá para dizer que falta um lateral direito reserva ou um centroavante mais preparado que o garoto Joshua Zirzkzee para suplantar Lewa, mas aí é procurar pelo em ovo. Obviamente, o Bayern não será campeão com 100% de aproveitamento. Tem deficiências, como os próprios espaços às costas da zaga viraram preocupação na Champions. Mas, neste estágio de solidez, fica muito mais difícil derrubá-los.
Criticar a falta de competitividade da Bundesliga é natural e seria importante pensar em mecanismos para diminuir as distâncias. Não é isso, porém, que torna a competição menos interessante, dado o bom nível técnico geral. E também não é isso que diminui os méritos do Bayern. Hoje, Hansi Flick tem nas mãos a equipe que mais vale a pena sentar diante da TV e assistir. Há uma profusão de lances plásticos, de jogadas bem construídas, de gols anotados. Mas dá ainda mais gosto a vontade como os alvirrubros querem a bola e não deixam de lutar por ela em momento algum, com uma intensidade exemplar. Essa força do Bayern, por mais contraditório que seja, também valoriza a Bundesliga.
O treinador
Hansi Flick jogou no Bayern de Munique durante a virada dos anos 1980 e foi pupilo até mesmo de Jupp Heynckes. Fez uma carreira razoável como meio-campista, antes de treinar o Hoffenheim nas divisões amadoras e ser assistente de Giovanni Trapattoni no Red Bull Salzburg. Depois disso, atuou como assistente de Joachim Löw por oito anos na seleção. Tinha uma relação excelente com os jogadores e era um dos responsáveis pela organização tática da Mannschaft. Presente no tetra em 2014, assumiu por três anos como diretor esportivo da federação. Depois foi chefe-executivo do Hoffenheim, antes de deixar o cargo e aceitar a volta ao Bayern, como assistente de Niko Kovac a partir da temporada passada. Deveria ser um interlocutor na comissão técnica, para ajudar na relação conturbada com o elenco e auxiliar o chefe a organizar um time até então sem identidade. Em quatro meses, foi promovido com a demissão do croata. E não poderia existir outra escolha mais bem-vinda ao Bayern.
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A referência
O Bayern tem uma série de jogadores importantes, em todos os setores. Mas negar a preponderância de Robert Lewandowski seria um sacrilégio. É um dos maiores atacantes da história do futebol alemão e a temporada passada serviu para consolidar esse posto. Sua média de gols na Bundesliga era anormal e ele conseguiu se superar no último ano. Abocanhou ainda a artilharia da Copa da Alemanha e da Champions, mesmo não centralizando as atenções na fase final. Havia uma cobrança grande para que o polonês se provasse no torneio continental. Aconteceu, e não se pode mais negar sua grandeza. Aos 32 anos e faminto, não deixará de brilhar tão cedo.
O reforço
Leroy Sané queria o Bayern de Munique. O atacante esperava um pouco mais de respaldo no Manchester City, o que não acontecia, e a volta para a Alemanha se abria com o interesse do clube. A espera de um ano, no fim das contas, foi benéfica em certos sentidos. Sané não chega achando que é a última bolacha do pacote e os bávaros podem enquadrá-lo em uma mentalidade de grupo, para que possa fazer o coletivo render muito mais. Mas, sem dúvidas, quando o calo apertar, será um jogador para bater no peito e garantir vitórias difíceis. Tem uma dose de talento que, mesmo em um elenco tão completo, é rara de se encontrar.



