Bundesliga

Dono do Hertha teria contratado empresa de espionagem para criar complô e derrubar o presidente do clube

Segundo processo na justiça israelense, Lars Windhorst contratou uma empresa do país para minar o presidente do Hertha e não pagou pelos serviços depois da renúncia do dirigente

A regra do 50+1 na Alemanha permite que proprietários tenham mais de 50% das ações dos clubes, mas não necessariamente do poder decisório. É o que acontece no Hertha Berlim, por exemplo. O magnata Lars Windhorst possui 64,7% das ações da Velha Senhora, mas é um parceiro limitado que não tem a palavra final no conselho do clube, com a maioria dos votos ainda pertencente à associação. Entretanto, por mais que o empresário publicamente se submetesse à situação, mesmo discordando do 50+1, na verdade ele agia por baixo dos panos. Nesta semana, o Financial Times teve acesso a documentos da justiça israelense e revelou que Windhorst contratou uma empresa do país com “espiões corporativos” para derrubar o presidente do Hertha, Werner Gegenbauer. O proprietário foi processado pela própria companhia, que alegava não ter sido paga pelos serviços, mas o caso foi fechado pelos lesados diante da publicação das informações na imprensa.

Segundo reportagem do Financial Times, Windhorst contratou uma empresa de inteligência israelense, que realizou a operação clandestina para derrubar o presidente do Hertha. Publicamente, o empresário também se posicionava contra o cartola e rompeu relações definitivamente em março de 2022. O complô acabaria cumprindo o seu objetivo dois meses depois, em maio, quando Werner Gegenbauer (que já tinha sua imagem bastante abalada em outras alas do clube) deixou a presidência da Velha Senhora após 14 anos no cargo. Conforme o relatório da Shibumi Estratégia Limitada, a companhia de espionagem baseada em Tel-Aviv, “o projeto foi cumprido com sucesso”. Entretanto, a Shibumi resolveu processar Windhorst por levar o calote.

Diante da reportagem, o Hertha Berlim publicou um comunicado nesta sexta-feira: “Diante do artigo publicado pelo Financial Times sobre uma ação movida em Tel Aviv contra Lars Windhorst e sua companhia, Tennor Holding, nossos comitês decidiram que os eventos ali mencionados serão avaliados por um escritório de advocacia. Além disso, a Tennor foi solicitada a dar uma declaração detalhada”. Vale reforçar que o posicionamento é do clube, não de seu dono, que não responde pelos comitês. A revista Kicker adiciona que, em carta, o Hertha solicitou uma declaração juramentada de Windhorst sobre o assunto até segunda-feira.

O processo na justiça israelense cobra de Windhorst €1 milhão pelos oito meses de serviços prestados pela Shibumi. Além disso, havia uma cláusula que prometia €4 milhões caso o objetivo fosse atingido. Nada disso foi pago. Os documentos dizem que Windhorst contratou a empresa israelense para “planejar e desenvolver uma estratégia que melhorasse sua reputação”. Entretanto, as provas indicam o complô para atingir o presidente Gegenbauer, em operação chamada de “Euro 2020”. Outros registros revelam a insatisfação de Windhorst, que teria pagado “enormes quantias de dinheiros à Shibumi com pouco serviço apresentado”. Já o representante da empresa reclama que foram prometidos milhões de euros, mas que “trabalharam dia e noite sem receber”.

A ação da Shibumi se voltou a contatar apoiadores, opositores e familiares de Gegenbauer. Segundo o relatório, uma equipe de 20 espiões foi envolvida na operação, muitas vezes disfarçados. Visavam obter informações e promover uma campanha contra o dirigente. A companhia também criou perfis falsos de torcedores em fóruns, para criticar o cartola e publicar charges, e também para alimentar canais de fake news no Telegram. Igualmente foi lançado um site para exigir a saída de Gegenbauer, de 72 anos, da cadeira principal do Hertha. Existia até mesmo o planejamento de uma manifestação pública para mobilizar a torcida, mas o evento acabou cancelado em conjunto com a assembleia geral dos berlinenses, em decorrência da pandemia.

Ao Financial Times, a Shibumi disse “não saber sobre o caso” e afirmou ser um “erro”. Windhorst, através de um porta-voz, se defendeu dizendo que a acusação era um “absurdo”. O processo acabou retirado da justiça israelense pouco depois da publicação da denúncia pelo Financial Times. Windhorst não chegou a apresentar sua defesa na justiça.

Lars Windhorst é considerado um prodígio da informática. O empresário montou sua primeira companhia aos 16 anos e fez fama na Alemanha pela precocidade, ganhando seus primeiros milhões na década de 1990. Entretanto, a companhia quebrou e o magnata declarou falência em 2003. Precisou recomeçar com novos negócios, atualmente à frente da Tennor Holding, que atua em diferentes áreas. De qualquer maneira, o passado de Windhorst gera questionamentos desde sua chegada ao Hertha, com outras denúncias sobre negócios ilegais. Ele já enfrentou processos sobre fraude e peculato, além de ter bens apreendidos por uma corte londrina. A consultoria Deloitte renunciou sua posição como auditora da companhia de Windhorst em 2016. Enquanto isso, o Handelsblatt, um dos principais jornais especializados em economia da Alemanha, chegou a questionar a ética do empresário, com comportamentos classificados como “imorais” e “gananciosos”.

Windhorst se integrou ao Hertha Berlim em novembro de 2019, desembolsando €224 milhões para comprar 49,9% das ações. O empresário prometia colocar a Velha Senhora na Champions League e aproveitar o potencial comercial da agremiação em Berlim. O dirigente indicou Jürgen Klinsmann ao conselho diretivo, numa turbulenta passagem do ex-atacante que durou 76 dias, e depois recorreu a Jens Lehmann. Também fez contratações de peso no mercado de transferências, que se mostraram pouquíssimo produtivas, com o time quase sempre brigando contra o rebaixamento na Bundesliga.

Já em 2020, Windhorst desembolsou mais €150 milhões para atingir 64,7% das ações do Hertha. Todavia, continuava com poder limitado no conselho diretivo. Apesar de mudanças na gestão, a equipe seguiu sem engrenar dentro de campo. Em fevereiro de 2022, o empresário admitiu publicamente o arrependimento em investir no clube, mas apontou que não desistiria do objetivo. Quando o alemão chegou, a expectativa era de que ele aproveitasse uma guinada do Hertha para colocar o clube na bolsa de valores e o vendê-lo com lucro logo depois. Entretanto, o time passa longe desse esperado impulso, com apenas seis pontos nas sete primeiras rodadas da Bundesliga 2022/23. Os investimentos no elenco caíram drasticamente na atual temporada.

Em meio aos resultados ruins, a relação de Windhorst com Gegenbauer ruiu e o presidente acabou apontado não só pelo empresário como o principal culpado pela falta de resultados do Hertha. Uma campanha pública se realizou contra Gegenbauer, com auxílio de Windhorst, embora a torcida também se manifestasse abertamente pela saída do proprietário – num movimento que se ampliou gradativamente. No fim das contas, depois que o Hertha evitou o rebaixamento nos playoffs de 2021/22 contra o Hamburgo, o presidente deixou o cargo. Segundo a revista Kicker, a situação de Gegenbauer já vinha complicada independentemente da queda de braço com Windhorst e do complô. E isso também não aliviou as críticas sobre o proprietário.

O Hertha atualmente é presidido por Kay Bernstein, antigo ultra do clube que venceu as eleições realizadas entre os sócios do clube. O atual mandatário defende publicamente o 50+1, algo que o opõe a Windhorst. A maneira como a Velha Senhora se posicionou no comunicado desta sexta também indica que não deve haver complacência com Windhorst se o magnata, de fato, organizou um complô na surdina. A situação tende a atrapalhar ainda mais uma equipe que já vinha em situação frágil no lado esportivo, por mais que o início da temporada trouxesse certo otimismo pela forma como os berlinenses voltavam a ficar com os pés no chão.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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