Bundesliga

Diante das seguidas frustrações, o Hertha confia na história de Pál Dárdai e indica uma mudança de rumos ainda mais ampla

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O Hertha Berlim precisou de pouquíssimos meses para deixar de ser um projeto promissor na Bundesliga e se transformar numa grande decepção, longe da progressão almejada. Até dava para desculpar o desempenho meia boca na temporada passada, diante da saída intempestiva de Jürgen Klinsmann e dos muitos reforços trazidos em janeiro. Bruno Labbadia dava indícios de que poderia realizar um trabalho melhor na atual campanha. Porém, o que se vê é um arremedo de equipe que cambaleia pela parte inferior da tabela e passa longe de brigar pelas copas europeias, como queriam os investidores. Labbadia ainda durou até o começo do segundo turno, mas foi demitido no domingo. A solução para o restante do campeonato será caseira: Pál Dárdai, que dirigiu os berlinenses por quase cinco anos na metade final da década passada e seguia pelo clube, nas categorias de base.

Basta olhar os números para perceber como o Hertha não vinha dando certo. Nas primeiras 18 rodadas da Bundesliga, o time venceu apenas quatro jogos e perdeu nove. O ataque nem anda tão mal, apesar da produção aquém do que se espera pelo investimento. Já a defesa é a terceira pior de toda a liga, com 32 tentos sofridos. Apesar de algumas vitórias mais expressivas até o início de dezembro, incluindo o clássico contra o Union Berlim, a equipe foi perdendo força. Só venceu um de seus últimos oito compromissos, e contra o lanterna Schalke 04. Depois disso, perdeu para o ameaçado Arminia Bielefeld, além de sofrer sapatadas nos 3 a 0 diante do Hoffenheim e nos 4 a 1 para o Werder Bremen, com pênaltis desperdiçados pelos alviauzis em ambas as derrotas.

Labbadia sustentou a imagem de treinador experiente e capaz de conduzir o novo grupo, sobretudo por seu início no clube. Teve consistência principalmente no reinício do futebol após a pausa pela pandemia e melhorou os resultados de um Hertha que vagava pela metade inferior da tabela. Ainda assim, os berlinenses viveram oscilações. E a Velha Senhora se mostraria ainda mais perdida nesta temporada, quando não havia mais a desculpa de adaptação a boa parte dos reforços renomados. No fim, os resultados do Hertha dependem muito mais da capacidade individual de alguns do que uma coletividade sólida. As dificuldades defensivas simbolizavam o tamanho dos problemas, especialmente pelas últimas derrotas.

À imprensa, Labbadia ainda demonstrava uma postura centrada e encarava os problemas. Foi avisado pelos jornalistas sobre sua demissão durante a coletiva depois da goleada sofrida contra o Werder Bremen e, mesmo assim, não quis botar a culpa em qualquer outro lado. Todavia, o mesmo compromisso não se notava dentro de campo. Era uma equipe cada vez mais entregue e abusando dos erros. Depois da derrota, o zagueiro Niklas Stark se recusou a defender publicamente o comandante, diante dos rumores sobre a demissão. Foi uma imagem simbólica de um time desequilibrado além do campo e que perdeu lideranças importantes no processo acelerado de renovação.

Cabe dizer que não apenas Labbadia foi destituído de seu cargo. O Hertha também optou por demitir o gerente esportivo Michael Preetz. Nos bastidores do clube desde 2003, após pendurar as chuteiras como centroavante, o dirigente assumiu seu cargo executivo ainda em 2009. Tinha sido um mentor da Velha Senhora em tempos mais modestos. Entretanto, a mudança de patamar recente começou a gerar mais pressão sobre o trabalho de Preetz e ele não vinha correspondendo na montagem de um elenco realmente funcional. Por enquanto, o ex-jogador Arne Friedrich assumirá o posto, embora já fosse diretor esportivo da Velha Senhora. Reeditará uma parceria com Dárdai que já tinham vivido como jogadores, no próprio clube.

A decisão de mudar os rumos do Hertha Berlim não corresponde apenas aos maus resultados, mas também a uma nova pessoa na cadeira mais importante do clube. Carsten Schmidt se tornou o chefe executivo da Velha Senhora em dezembro e quis reestruturar o projeto esportivo, diante do muito que não vinha funcionando. A experiência do novo mandatário não está ligada diretamente ao futebol, como CEO da Sky Deutschland, mas é esse histórico na gestão da TV que contou em sua escolha. Schmidt deverá manter uma relação mais próxima com Lars Windhorst, o magnata que passou a investir no clube e é o responsável pelas contratações badaladas. Em compensação, o novo executivo também quis se aproximar de outras alas mais antigas em Berlim, por isso a escolha do técnico.

“Não conseguiremos mais cumprir a meta que nos propusemos para janeiro. Estive em todos os jogos desde dezembro e pude ver a queda do time. Estou desapontado por termos entrado em tal situação. Não tenho medo da nossa situação, mas respeito. Sempre que você pensa que é melhor que os outros, está um passo atrás. Não pudemos imaginar os riscos. Não quero olhar para o rebaixamento, quero subir ao meio da tabela. Essas mudanças são novas e precisamos aceitar. Queremos um recomeço para o futuro do clube. Planejei fazer isso extensivamente no verão. Agora, aceleramos o processo na parte esportiva. Vamos lidar com isso”, comentou Schmidt, após as demissões.

Pál Dárdai conhece o ambiente acima das turbulências. Tem muito moral nos corredores do Estádio Olímpico, mas não deixa de parecer um passo para trás do Hertha. O treinador deixou o clube em 2019, porque achava que seu ciclo no primeiro time estava encerrado e desejava trabalhar novamente na base. Problemas com o próprio Michael Preetz foram outro motivo para a troca de cargo, sem que o gerente confiasse mais no trabalho do húngaro. O antigo ídolo dos berlinenses dirigiu o sub-16 e também atuou como coordenador, mas agora seu retorno é necessário como bombeiro. Tentará contornar os problemas imediatos e o temor em relação ao rebaixamento.

O fato de conhecer parte dos jogadores facilita a missão para Dárdai, embora muitos dos destaques só tenham chegado depois de sua saída do primeiro time. De qualquer maneira, a Velha Senhora confia mais no respaldo do veterano para mexer em quem não esteja rendendo, bem como em sua capacidade na casamata demonstrada em sua passagem anterior à frente dos profissionais. Seu contrato vai até o final da temporada 2021/22, o que garante certo tempo para desenvolver suas ideias além de meramente apagar o incêndio.

O curioso é que, ao iniciar sua longa estadia à frente do Hertha entre 2015 e 2019, Dárdai também precisou desarmar uma bomba. Antigo jogador do clube por 13 anos e técnico na base, o húngaro vinha de uma passagem pela seleção de seu país quando foi chamado às pressas. O time era o penúltimo na Bundesliga 2014/15 e corria sérios riscos de rebaixamento. Dárdai conseguiu uma guinada inicial, que permitiu à Velha Senhora escapar dos riscos. Nas quatro temporadas seguintes, conduziu um trabalho bem decente, que levou o clube a duas edições seguidas da Liga Europa, apesar da queda de desempenho depois. Contudo, eram parâmetros bem mais modestos do que os encontrados neste momento, com todo o dinheiro jorrando.

Dos reforços de peso do Hertha, quem realmente tem feito a diferença é Matheus Cunha. O brasileiro por vezes carrega o time sozinho, com seis gols e quatro assistências na Bundesliga. Jhon Córdoba teve alguns momentos de destaque, mas foi atrapalhado por uma lesão, e Mattéo Guendouzi tem feito papel razoável no meio-campo, apesar de erros recentes. No mais, diversos medalhões não se acham, com a decepção maior sobre o reserva Krzysztof Piatek. Nem mesmo o goleiro Alexander Schwolow, trazido depois de ótimas temporadas no Freiburg, tem ajudado tanto. E a defesa se tornou mais frágil diante da lesão recente de Dedryck Boyata, capitão e também o melhor do time no setor.

Outro detalhe é que, diferentemente do que aconteceu em janeiro passado, o Hertha não vai tentar corrigir seus rumos nesta janela de transferências. A pandemia sugere mais controle e o clube já tinha diminuído seus investimentos antes da atual temporada, com o adiamento dos depósitos de seu mecenas. Mesmo com Lars Windhorst ainda disposto a fazer dinheiro em médio prazo, os berlinenses não trouxeram reforços para a segunda metade da Bundesliga. O diretor Arne Friedrich ainda esboça movimentos, negociando com Xherdan Shaqiri e Ivan Perisic. Papu Gómez também recebeu uma oferta de Berlim, mas, diante do interesse do Sevilla, sua escolha parecia bem óbvia.

Individualmente, o Hertha tem qualidade para se recuperar e fazer um segundo turno muito mais digno. Para tanto, Dárdai precisará arregaçar as mangas. O técnico chegou elogiando Matheus Cunha como um “gênio para os nossos padrões”, mas há também queixas com o excesso de individualismo do atacante. A situação anterior, porém, parecia pedir que o camisa 10 tentasse resolver sozinho. Agora, será papel do técnico acomodá-lo melhor no conjunto e tentar extrair mais dos jogadores ao redor.

“Definitivamente não era meu plano mudar do sub-16 para o time profissional. Mas não preciso explicar para qualquer pessoa o que o Hertha significa para mim, então não havia dúvidas de que eu ajudaria nesta situação. Estou ansioso por esta tarefa e por trabalhar com o time”, comentou Dárdai, em sua primeira entrevista. “Não dormi antes de aceitar a oferta, não apenas pela falta de preparação, mas pelo trabalho com o sub-16. Ontem fiz meu último treino com os garotos e comecei a chorar. A base é o melhor trabalho. No profissional é diferente, sempre há estresse. Temos que resolver este clima negativo, mas não sou mágico. Os primeiros jogos serão questão de sorte, com o trabalho apenas começando. Achei que encontraria 20 crocodilos no primeiro treino e que eles me devorariam, porque devoraram antes outros técnicos. Mas é completamente diferente”.

Dárdai deverá adotar uma formação mais pragmática, longe do virtuosismo prometido com os reforços. Cobrará mais compactação defensiva e mais comprometimento dos jogadores sem a bola. Os berlinenses precisam de pés no chão e trabalho em conjunto, o que não se notava com Labbadia. Até porque a sequência na Bundesliga será dura, com compromissos diante de Bayern de Munique, RB Leipzig, Wolfsburg, Eintracht Frankfurt e Stuttgart nas próximas cinco rodadas. Talvez o Hertha sofra um pouco mais na rabeira da tabela até iniciar a recuperação.

Dado o equilíbrio costumeiro da Bundesliga, não é preciso ao Hertha ser tão regular para almejar uma vaga na Liga Europa. Não à toa, times que atravessaram momentos ruins agora miram o G-6, como o Eintracht Frankfurt e o Freiburg. De qualquer maneira, o objetivo dos berlinenses é outro: são 13 pontos de desvantagem em relação à zona da Liga Europa e só dois acima da zona de rebaixamento. A atitude precisa se transformar e esta já é a segunda temporada que o problema se repete. Talvez a questão não seja apenas do comando técnico, mas também de quem manda acima e da forma como o investimento tem sido feito. A ver se, sob a liderança de Carsten Schmidt, haverá mesmo este prometido recomeço de forma ampla.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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