Bundesliga

Dez histórias para acompanhar de perto na nova temporada da Bundesliga

Aproveitando o início da nova temporada da Bundesliga, reunimos os destaques e as histórias para ficar de olho na competição

A Bundesliga abre mais uma temporada com a mesma pergunta dos últimos anos: alguém será capaz de desbancar a hegemonia do Bayern de Munique? Os bávaros emendaram seu nono título consecutivo em 2020/21, numa campanha em que chegaram como óbvios favoritos pelo trabalho excepcional realizado por Hansi Flick, mas ainda assim tiveram momentos de instabilidade. Alguns rivais cresceram e chegaram a provocar certo incômodo, em especial o RB Leipzig. Porém, na hora da verdade, os multicampeões levaram a Salva de Prata mais uma vez. E tentarão o deca sob novos ares.

Esta parece ser uma temporada de transição na Bundesliga. Se na campanha passada só um clube vinha com novo técnico, desta vez são oito novos comandantes, quase todos concentrados nos candidatos às primeiras posições. O próprio Bayern inaugura sua nova era sob as ordens de Julian Nagelsmann, tirando um trunfo da concorrência. Mas não que Jesse Marsch no Leipzig ou mesmo Marco Rose no Dortmund não inspirem respeito. Foi uma dança das cadeiras interna, em que Adi Hütter agora dirige o Borussia Mönchengladbach e Oliver Glasner tentará reproduzir o sucesso no Eintracht Frankfurt. Apesar de alguns bons reforços em campo, as grandes novidades estarão mesmo na casamata.

Resta saber se isso é suficiente para barrar o Bayern, que continua com o melhor time do campeonato, embora com um elenco mais enxuto – ainda mais comparando com o que ocorre em outros mercados da Europa, após a baciada de reforços em PSG, Manchester City, Manchester United ou Chelsea. No terreno doméstico, apesar disso, este não é o momento de sua sequência em que os bávaros parecem mais ameaçados. O talento ainda transborda e chegou um treinador para escrever sua própria dinastia. Leipzig e Dortmund são os concorrentes mais capacitados para escrever um final diferente, por outro lado.

E, que a falta de alternância no topo gere pertinentes questionamentos na Bundesliga, ainda é um dos melhores campeonatos da Europa em futebol jogado. Gols e agressividade não são um problema mesmo no encontro entre os times da parte inferior da tabela. Até por isso, a quem não torce pelos bávaros, há muito mais a fazer do que secar o decacampeonato. Com o início da nova temporada nesta sexta, ainda transmitida pelo One Football em seu aplicativo e pela Band na TV aberta, aproveitamos para trazer dez histórias principais para se acompanhar. Confira:

Julian Nagelsmann e Hansi Flick (Imago/OneFootball)

– Como será a nova era do Bayern de Munique

O principal reforço do Bayern de Munique em busca do simbólico decacampeonato alemão está em seu banco de reservas. Hansi Flick deixou a Allianz Arena de uma maneira como poucos torcedores gostariam, por culpa da falta de diálogo da diretoria, e não por um desgaste em seu trabalho. Ainda que o ritmo da tríplice coroa em 2019/20 não tenha se repetido, em certos aspectos o Bayern até evoluiu em 2020/21. O adeus do comandante em sua curta e vitoriosa passagem por Munique, todavia, não é exatamente ruim para o clube. Afinal, seu substituto é Julian Nagelsmann, um técnico que já provou como possui muitos recursos táticos na manga e que traz consigo perspectivas melhores de longo prazo.

O Bayern será o primeiro clube de Nagelsmann no qual ele terá a pressão por conquistar títulos, e isso será um obstáculo inédito na carreira do garoto prodígio. Todavia, ele cumpre outros tantos requisitos que o tornaram a prioridade dos bávaros: a mentalidade ofensiva, a capacidade para lapidar talentos, o foco nos aspectos do campo, as inovações nos métodos. Em tempos nos quais a diretoria também passa por uma transição em Munique, parece ser o grande escolhido para simbolizar uma nova era. E pega um elenco mais do que capaz de manter a hegemonia doméstica, ainda que tenha perdido um pouco da casca em relação à temporada anterior.

O Bayern, afinal, não faz um mercado de transferências estelar. Pelo contrário, o clube não se concentrou em repor os medalhões que disseram adeus. As saídas de David Alaba, Jérôme Boateng e Javi Martínez distanciam os bávaros um pouco mais do esquadrão que iniciou a série histórica na Bundesliga. E o clube parece seguro também numa transição de lideranças dentro do elenco. Thomas Müller e Manuel Neuer permanecem como grandes referências da geração. Robert Lewandowski também possui tal status por tudo o que produz em campo, ainda mais depois de sua última campanha arrasadora. Joshua Kimmich e Leon Goretzka ascendem na hierarquia, formando uma das melhores duplas de volantes do mundo e também provando como possuem a mentalidade vencedora para sustentar a hegemonia na Baviera.

Além de Nagelsmann, a outra grande novidade do Bayern é a contratação de Dayot Upamecano. Mais uma vez, o multicampeão enfraquece um rival direto e se fortalece com um dos melhores zagueiros da Bundesliga. Até pensando nas carências da equipe, é um negócio e tanto, já que aumenta a consistência num setor tantas vezes criticado e também renova as energias. Mas, além dele, talvez os melhores reforços do Bayern nesta nova campanha serão os destaques que podem se recuperar após um ano abaixo da crítica. Isso inclui jogadores como Alphonso Davies e Serge Gnabry, vitais à tríplice coroa, ou ainda outros que sofreram com as lesões durante os últimos meses. Leroy Sané ainda precisa chegar de fato à Allianz Arena, mas quem gera mais esperanças é mesmo Jamal Musiala, depois de tantas mostras de talento em sua primeira temporada como destaque.

O maior inimigo do Bayern neste momento, aparentemente, é algo reclamado por Hansi Flick e que acelerou sua saída: a falta de profundidade do elenco. Isso teve seu custo na temporada passada, quando o departamento médico estava cheio, e atrapalhou as pretensões na Champions League. Para a Bundesliga, ainda assim, o núcleo duro dos bávaros parece suficiente para manter a toada e sustentar o favoritismo da equipe em busca do deca. Afinal, existe uma mentalidade vencedora que fica difícil de reproduzir em outros ambientes, diante da soberania dos bávaros dentro da Alemanha. É isso, tantas vezes, que faz o Bayern conquistar resultados na imposição e que, na temporada passada, permitiu ao time prevalecer nos confrontos diretos – algo essencial para explicar a conquista, mesmo com certas oscilações.

Haaland comemora seu gol (Imago / OneFootball)

– O Borussia Dortmund agora com um treinador

Quando Lucien Favre desembarcou no Signal Iduna Park, existiam esperanças de que ele pudesse desempenhar um bom trabalho à frente do Borussia Dortmund. Entretanto, o desgaste se evidenciou a cada temporada e a torcida aurinegra estava de saco cheio com o treinador em seus últimos meses. Parecia claro que Favre fazia hora extra à frente do BVB e só estava ali por insistência da diretoria. A paciência acabou no meio da campanha e pareceu jogar fora o potencial existente em 2020/21. O clube se contentou com um campeonato de transição na Bundesliga passada, em que Edin Terzic não necessariamente garantiu uma evolução do coletivo durante seu período interino, embora a equipe tenha guardado seu melhor para os momentos decisivos – ao cumprir um papel digno na Champions e arrancar na reta final para se firmar no G-4 da Bundesliga.

O momento, agora, é de novas esperanças no Signal Iduna Park. Marco Rose realmente dá motivos para que o Dortmund salte de produção a partir desta temporada. O treinador vem de excelentes trabalhos à frente de Red Bull Salzburg e Borussia Mönchengladbach. Mais importante, possui uma identidade de jogo que se assemelha muito mais à mentalidade consagrada no BVB, o que não acontecia com Favre. Será possível ver uma equipe de futebol mais direto e veloz, como nos tempos de Jürgen Klopp ou Thomas Tuchel. É uma renovação de ares mais do que necessária, com um técnico que ganha a maior oportunidade da carreira e tem ferramentas para aproveitar o talento que possui à disposição.

Jadon Sancho não está mais em Dortmund, numa despedida mais do que esperada – e que até demorou a acontecer. Em contrapartida, os aurinegros poderão desfrutar de Erling Braut Haaland por mais um ano – e muito provavelmente só mais um ano, diante das condições de seu contrato que facilitam sua saída no próximo verão. Até por isso, o desempenho do BVB deverá estar ainda mais centrado no poder de seu artilheiro. Obviamente, a torcida não quer ver um time dependente do norueguês, o que parecia atravancar as perspectivas durante os últimos meses. Mas saber que há um treinador para formar um coletivo mais forte na alimentação do craque é uma espécie de alívio, ainda mais porque, mesmo arrebentando defesas, Haaland até pareceu subaproveitado em alguns momentos.

Haaland terá uma ótima companhia na linha de frente, com a contratação de Donyell Malen junto ao PSV. Os dois pareceram se entender logo na apresentação do novato, que se encaixa bem na ideia de jogo de Marco Rose. Também há uma expectativa sobre a preparação focada que Marco Reus pôde fazer nesta pré-temporada, assim como na melhora do nível de jogadores como Thorgan Hazard e Julian Brandt, que precisam de mais. De qualquer maneira, do meio para frente, o Dortmund possui sua nova geração engatilhada. Os próximos meses tendem a ser importantes para afirmação de Jude Bellingham, Giovanni Reyna, Youssoufa Moukoko, Ansgar Knauff e o grupo de adolescentes que pinta com frequência no 11 inicial. Também pode ser um ano vital a Mahmoud Dahoud, uma das melhores notícias da temporada passada, por sua recuperação em alto nível – e terá a companhia de Axel Witsel, superados seus entraves físicos.

O que breca um pouco mais a empolgação ao redor do Borussia Dortmund é o seu sistema defensivo. E não são apenas os mesmos nomes de sempre, mas a série de lesões que já atrapalha o setor logo no início da temporada. Não à toa, o quarteto titular na estreia da Copa da Alemanha deve, em sua maioria, apenas brigar por posição. Os acertos deverão acontecer com o bonde andando. Esperanças maiores agora surgem no gol, com o principal reforço ao setor, diante da contratação do suíço Gregor Kobel junto ao Stuttgart. No papel, o BVB permanece com um grupo inferior ao do Bayern. Mas confia no potencial guardado que ainda pode impulsionar o grupo, algo fundamental na última era vitoriosa do clube dentro da Bundesliga.

Jesse Marsch, do RB Leipzig (Imago / OneFootball)

– Um RB Leipzig fortalecido em seu ataque

O RB Leipzig não escondeu muito a decepção com Julian Nagelsmann, diante da decisão do treinador de buscar novos rumos à sua carreira. A Red Bull parecia ter um plano de longo prazo com o comandante, mas ele não dispensou a chance de assumir um Bayern arrumado, após a saída de Hansi Flick. Sem querer ficar pensando tanto no leite derramado, a empresa de energéticos arranjou uma solução caseira. E a vinda de Jesse Marsch também garante motivos para se animar. O americano pode não ser promissor como seu antecessor, mas tirou de letra outra transição parecida que ocorreu em Salzburg. Elevou os patamares estabelecidos por Marco Rose na Áustria e mostrou excelentes recursos, mesmo lidando com as saídas de enormes talentos de seu time.

É um pouco o que acontecerá em Leipzig, onde Marsch tem como missão inicial a recomposição de sua defesa. As saídas de Dayot Upamecano e Ibrahima Konaté são significativas ao setor. Em contrapartida, o clube também se mexeu no mercado de transferências e trouxe dois jovens de enorme potencial, ao buscar Mohamed Simakan no Strasbourg e Josko Gvardiol no Dinamo Zagreb. Também é importante a recuperação da forma física de Willi Orban, mantendo-se como uma liderança ao lado do goleiro Péter Gulácsi. A princípio, Marsch não vai esticar a corda para os novatos, até por preferir uma linha defensiva com quatro homens. Neste sentido, será importante observar o papel de Angeliño, sem mais a liberdade que o tornou protagonista durante a última temporada.

Os outros reforços principais do RB Leipzig vieram para o ataque. E, neste setor, não há muitas dúvidas sobre como os recursos são bem melhores do que na última campanha. Brian Brobbey foi uma oportunidade de mercado enorme, chegando de graça do Ajax. Os Touros Vermelhos ainda foram buscar André Silva, de números estupendos durante os últimos meses com o Eintracht Frankfurt. Há um ótimo leque de combinações, pensando não apenas na permanência de Yussuf Poulsen, mas também na forma como Hwang Hee-chan e Alexander Sörloth podem entregar bem mais do que fizeram na temporada passada, quando renderam abaixo. O sul-coreano, em especial, é um velho conhecido de Marsch.

Ainda vale ressaltar como o meio-campo pode melhorar as perspectivas do Leipzig na concorrência ao Bayern. Emil Forsberg e Dani Olmo chegam em alta depois da Eurocopa. Marcel Sabitzer permanece como referência na faixa central, mesmo diante da emperrada renovação, enquanto Christopher Nkunku provou repetidas vezes sua capacidade criativa. Ainda há Amadou Haidara e Tyler Adams, dois talentos com clara margem de evolução. E é preciso lembrar que o “reforço” no setor é um jogador que volta do departamento médico: Dominik Szoboszlai, em recuperação no clube durante os últimos meses, mas que já marcou gol saindo do banco na Copa da Alemanha.

Neste momento, o Leipzig indica que pode ser uma pedra mais dura no sapato do Bayern em dois ou três anos. Mas dá para pular etapas, com um treinador competente e um leque de opções respeitável em todas as partes do campo. A regularidade do clube nas últimas temporadas faz acreditar que a permanência no pelotão inicial da tabela não é problema, mais uma vez em busca da vaga na Champions. A questão é se os novos protagonistas permitirão aos Touros Vermelhos crescerem nos confrontos diretos, algo que acabou se tornando custoso às pretensões na última campanha.

Weghorst é chave ao sucesso do Wolfsburg – Foto: Imago / One Football

– Quem mais chega com chances para o G-4, em meio às novidades

A Bundesliga possui um pelotão de frente consolidado. Embora o campeonato costume ser bem equilibrado, os principais candidatos às copas europeias não variaram tanto durante as últimas campanhas. E quatro clubes que compõem este grupo iniciam a temporada com treinadores novos, o que gera um pouco mais de interesse naquilo que poderão produzir.

O Wolfsburg é quem vem do melhor momento. Os Lobos fizeram uma temporada acima da média em 2020/21, sobretudo por sua consistência defensiva. Oliver Glasner quis sair e Mark van Bommel vem com um passado vitorioso na Bundesliga, mas dúvidas sobre seu real talento como treinador principal. O começo não foi tão animador, com a substituição indevida na Copa da Alemanha que deverá custar a eliminação por besteira. Mas o elenco está mais forte, até pela exigência que a fase de grupos continental confere. Os Lobos reforçaram sua zaga com Sebastiaan Bornauw, de ótima temporada com o Colônia. No meio, buscaram o promissor Aster Vranckx na Bélgica. Mas o setor que realmente empolga é o ataque, com a repatriação de Maximilian Philipp e principalmente a compra de Lukas Nmecha, valorizado após a conquista do Europeu Sub-21 com a seleção. É ver como os novatos contribuirão, considerando que a espinha dorsal alviverde está preservada – com Koen Casteels, Ridle Baku, Maxence Lacroix, Joshua Guilavogui, Maximilian Arnold, Wout Weghorst e outros nomes essenciais ao sucesso de 2020/21.

Na dança das cadeiras da Bundesliga, Oliver Glasner seguiu para o Eintracht Frankfurt. As Águias ficaram com um gosto amargo pela forma como perderam seu lugar no G-4 durante a temporada passada e viram sair alguns de seus protagonistas, em especial André Silva. Ao menos, o mercado realizado até agora no Deutsche Bank Park é dos mais promissores, com muitos jovens talentos adicionados ao ataque. Jesper Lindström, Jens Petter Hauge e Rafael Santos Borré são as novas faces do Frankfurt, ampliando as combinações onde já brilhavam Amin Younes, Filip Kostic e Daichi Kamada. Já a defesa conta com o retorno de Danny da Costa e a vinda de Christopher Lenz nas laterais, enquanto o brasileiro Tuta gera esperanças por sua afirmação no miolo da zaga. O que não animou nem um pouco foi a queda na Copa da Alemanha para o pequeno Waldhof Mannheim, o que gera uma desconfiança desnecessária nesta largada.

O Borussia Mönchengladbach, por sua vez, garantiu um substituto à altura após a saída de Marco Rose. Adi Hütter prefere mecanismos diferentes, mas mantém certa pegada vista com seu antecessor e vem de um trabalho respaldado na Bundesliga após os bons frutos no Eintracht Frankfurt. Depois de uma temporada em que perdeu o ânimo muito cedo, o Gladbach ficou de fora das copas europeias e não conseguiu investir muito em reforços. O principal acerto foi a contratação em definitivo de Hannes Wolf, além de negócios pontuais entre jovens promessas. Todavia, há uma qualidade adormecida no Borussia Park e o desafio de Hütter será tirar o melhor do bom elenco à disposição. Nessa entram principalmente os atacantes, com Marcus Thuram, Alassane Pléa, Breel Embolo, Lars Stindl, Patrick Herrmann e Jonas Hofmann mantidos no grupo. Também vale ficar de olho no que Florian Neuhaus pode produzir, diante de sua valorização no mercado e a potencial venda. Atrás, Yann Sommer e Matthias Ginter são importantes esteios.

Por fim, o Bayer Leverkusen tenta arrumar a casa após o declínio vivido com Peter Bosz no último ano. Os Aspirinas buscaram a solução ao comando técnico na vizinha Suíça, tirando do Young Boys o talentoso Gerardo Seoane, responsável por ampliar a hegemonia do clube na liga local após substituir o próprio Adi Hütter. Não é um mercado recheado na BayArena, mas a diretoria gastou mais do que a média na Bundesliga ao buscar o promissor Odilon Koussounou para o miolo de zaga e ganhar Mitchel Bakker na lateral esquerda. Mas as expectativas ficam mesmo sobre o desenvolvimento de um grupo jovem e bem servido sobretudo do meio para frente. Florian Wirtz é quem concentra mais esperanças, mas nomes como Exequiel Palacios e Paulinho também podem evoluir, ao passo que Edmond Tapsoba e Moussa Diaby engrossa o núcleo de talentos. Patrik Schick é outro para se prestar atenção, diante de seu impacto na Eurocopa. O ponto a se lamentar é a perda de outro protagonista, agora com a venda de Leon Bailey ao Aston Villa, sem reposição.

Max Kruse (centro) comemora o gol do Union Berlim (Imago / OneFootball)

– Novos olhares para a dupla de Berlim

A temporada passada teve sua grande surpresa e uma de suas maiores decepções concentradas em Berlim. Quando muita gente esperava o Union Berlim lutando para não cair e o Hertha em busca das copas europeias, ocorreu exatamente o contrário. A Velha Senhora ainda se livrou dos riscos de descenso, embora tenha ficado muito abaixo das expectativas. Já os Eisernen sonharam até com Champions e saem bem felizes após a vaga na Conference League. Agora, lidam com este novo desenho de forças na capital, em situações bastante distintas para os dois clubes.

O Union Berlim não mudou muito sua estratégia de mercado em relação à temporada passada. Exceção feita a Christopher Lenz, os Eisernen conseguiram preservar a base titular e buscaram reforços sem muitos custos, seja por empréstimo ou sem contrato. Assim, o técnico Urs Fischer espera lidar com as exigências de um calendário mais cheio, diante das perspectivas de avançar à fase de grupos da Conference. Jogadores valorizados na campanha passada permanecem em Berlim, a exemplo do zagueiro Marvin Friedrich, do volante Robert Andrich e do atacante Taiwo Awoniyi – este, comprado em definitivo junto ao Liverpool. A barca de reforços também inclui bons valores, a exemplo de Rani Khedira e Genki Haraguchi. Já a liderança do grupo permanece nas mãos de Christopher Trimmel e principalmente de Max Kruse, com o atacante revitalizando sua carreira diante do impulso que provocou no Estádio An der Alten Försterei.

O Hertha, por sua vez, mudou seus planos. Os alviazuis parecem com os pés no chão desde a volta de Pál Dárdai e seu principal reforço foi o diretor Fredi Bobic, vindo do Eintracht Frankfurt. Com isso, o elenco não recebe contratações badaladas para a atual campanha, ainda que tenha adicionado talento. Suat Serdar e Marco Richter são boas peças, mas longe do glamour de outros mercados recentes, enquanto Stevan Jovetic e Kevin-Prince Boateng dão mais tarimba ao grupo – que perdeu Jhon Córdoba, Sami Khedira e Mattéo Guendouzi nos últimos meses. E a cobrança fica para que o rendimento dos medalhões preservados se eleve. Matheus Cunha terá holofotes extras depois de seu destaque no ouro olímpico do Brasil. Krzysztof Piatek, Lucas Tousart, Dedryck Boyata e Alexander Schwolow são outros potenciais protagonistas de um projeto que permanece com dinheiro, mas aprendeu que não se monta um time só com contratações caras.

Silas Katompa Mvumpa, do Stuttgart (Imago/OneFootball)

– Quem mais merece atenção aos que priorizaram a continuidade

Dos oito primeiros colocados da última temporada, apenas o Union Berlim (o sétimo) não trocou o seu treinador. Assim, aqueles que buscam ascender na tabela possuem como um trunfo a continuidade. E uma equipe que sempre merece respeito nesse aspecto é o Freiburg, há uma década sob as ordens de Christian Streich. O treinador quase sempre opera acima dos limites de seu elenco e, não à toa, chegou a ser cotado como substituto de Joachim Löw na seleção. A temporada passada não teve uma posição tão boa, mas o clube da Floresta Negra recuperou-se bem depois de vender alguns de seus melhores jogadores. E, mesmo sem grandes astros, pode almejar a metade de cima da classificação graças ao seu treinador. Nomes como Christian Günter, Vincenzo Grifo e Nils Petersen seguem no grupo, enquanto Roland Sallai volta bem da Eurocopa.

Neste pelotão, também merece menção o Stuttgart. Os suábios voltaram da segunda divisão na temporada passada e emplacaram uma ótima nona colocação, até flertando com as copas europeias. Antigo assistente de Nagelsmann, Pellegrino Matarazzo é um treinador que merece atenção e goza de confiança na Mercedes-Benz Arena. Já o elenco perdeu Nicolás González e Gregor Kobel, mas ainda reúne muitos jovens que agradaram na campanha passada. Borna Sosa, Waldemar Anton e Wataru Endo integram este grupo, enquanto Florian Müller chega do Mainz 05 como novo goleiro, após passar o último ano no Freiburg. Já as expectativas recaem especialmente sobre Sasa Kalajdzic e Silas Katompa Mvumpa (antes conhecido como Wamangituka) no setor ofensivo. Katompa Mvupa, aliás, precisará dar a volta por cima após ser descoberto num esquema de falsificação de identidade que rendeu três meses de suspensão.

Mesmo sem render o esperado na Bundesliga e patinando na estreia pela Copa da Alemanha, o Hoffenheim manteve o jovem técnico Sebastian Hoeness e também integra o grupo de clubes que podem subir de produção. Sem dividir as atenções com as copas europeias, os alviazuis preservaram o elenco sem perdas e ainda buscaram bons reforços, em especial o lateral David Raum, destaque no acesso do Greuther Fürth. Andrej Kramaric permanece como grande destaque individual do grupo, que também inclui outros talentos do porte de Ihlas Bebou, Robert Skov, Munas Dabbur, Christoph Baumgartner, Diadie Samassékou, Florian Grillitsch e Oliver Baumann. O que preocupa é o excesso de lesões neste início de temporada, com vários jogadores importantes no departamento médico durante as primeiras rodadas.

Por fim, o Mainz 05 faz por merecer a menção neste grupo, depois do segundo turno espantoso que fez na temporada passada. Os alvirrubros pareciam sérios candidatos ao rebaixamento, brigando palmo a palmo pela lanterna com o Schalke 04, mas realizaram uma série de mudanças em seu comando e deslancharam. O principal nome nesse processo é o técnico Bo Svensson, antigo jogador do clube que liderou a reformulação de uma equipe mais agressiva e efetiva ao longo da metade final do campeonato. O Mainz reforçou as laterais, com Silvan Widmer e Anderson Lucoqui, enquanto Lee Jae-sung vem de boas temporadas com o Holstein Kiel na segundona. Apesar disso, a valorização da equipe se dá muito mais pelo encaixe coletivo do que exatamente por individualidades. Nesse aspecto, vale citar o bom trabalho de Moussa Niakhaté e Jeremiah St. Juste na trinca de zaga, além da dupla composta por Leandro Barreiro e Dominik Kohr na cabeça de área. O problema se concentra, porém, num surto de COVID-19 que mina o número de atletas disponíveis para esta estreia.

Sebastian Andersson celebra gol do Colônia (Imago/OneFootball)

– Qual será o grande a cair desta vez?

A Bundesliga perdeu camisas pesadas nas últimas temporadas. Clubes históricos não evitaram o rebaixamento e a segundona desta vez reúne uma série de gigantes. A competição parece até pequena para Hamburgo, Schalke 04, Werder Bremen e ainda outros times relevantes já afastados há mais tempo de seus melhores momentos. E não dá para duvidar que outra agremiação tradicional se junte a eles em 2022/23. Neste momento, o Colônia parece mais cotado a reviver o calvário, mesmo com uma série de descensos recentes.

Na temporada passada, inclusive, os Bodes flertaram com o desastre. A equipe se salvou apenas nos playoffs de rebaixamento, com uma goleada inesperada contra o Holstein Kiel após a derrota na ida. Responsável pela ascensão do Paderborn, Steffen Baumgart foi escolhido como novo treinador do Colônia para este ciclo. Apesar disso, o clube passou aperto contra o Carl Zeiss Jena na Copa da Alemanha e dependeu dos pênaltis para avançar. O elenco perdeu Sebastiaan Bornauw e Ismail Jakobs, enquanto Max Meyer não teve seu contrato renovado. Além disso, os únicos reforços vieram a custo zero, com destaque maior a Mark Uth. O jeito é confiar nas referências de outros tempos que permanecem no grupo, a exemplo de Timo Horn, Jonas Hector, Ellyes Skhiri e Ondrej Duda. Sebastian Andersson é um que pode render mais na frente.

No grupo de clubes que permanecem na Bundesliga, mas precisam tomar cuidado, também está o Augsburg. O lado positivo na Baviera é que reforços chegaram, mesmo com as vendas de Marco Richter e Kevin Danso. Niklas Dorsch e Arne Maier são boas opções para elevar a qualidade do meio. O técnico Markus Weinzierl preserva Rafal Gikiewicz, Felix Uduokhai e Rubén Vargas como potenciais destaques. Já o Arminia Bielefeld tenta outra vez contrariar os prognósticos, depois de sua heroica salvação na campanha anterior. O técnico Frank Kramer segue no cargo depois de assumir em março. Amos Pieper volta à zaga em alta após o Europeu Sub-21, embora o grande trunfo seja o goleiro Stefan Ortega, salvador para evitar o descenso e que era cortejado por clubes maiores – inclusive pelo Bayern. Merece menção ainda o capitão Fabian Klos, bandeira do clube que continua comandando o ataque, enquanto Ritsu Doan é uma perda significativa ao voltar para o PSV.

Bochum comemora o título da 2.Bundesliga (Imago / OneFootball)

– Como será a vida dos novatos?

Diante do novo fracasso do Hamburgo na segunda divisão, os dois promovidos para a Bundesliga nesta temporada são clubes tradicionais, mas não necessariamente com um histórico amplo na primeira divisão. E, considerando o cenário instável do futebol por conta da pandemia, Bochum e Greuther Fürth aparecem na elite basicamente com os mesmos times que tiveram sucesso na segundona. A princípio, são candidatos a cair novamente, embora os exemplos recentes de Arminia Bielefeld e principalmente de Union Berlim transmitam certas esperanças de um ano melhor.

O Bochum conquistou o título com uma campanha imponente e permanece dirigido por Thomas Reis, que elevou o sarrafo do clube nos últimos anos. Nem todos os destaques da segundona foram preservados, com a mudança de Robert Zulj para os Emirados Árabes. Ainda assim, Simon Zoller permanece como referência no ataque e Robert Tesche é uma peça essencial na armação. Também há certo protagonismo a um brasileiro, o lateral Danilo Soares, importante à promoção. Até pela média de idade elevada do grupo, não houve uma limpa – principal revelação do time, o zagueiro Armel Bella Kotchap permanece por lá. E o plantel foi encorpado por negócios a baixo custo, seja por empréstimo ou por atletas sem contrato. Nesta leva vieram nomes com experiência na primeira divisão, a exemplo de Takuma Asano, Eduard Löwen e Elvis Rexhbecaj.

Já o Greuther Fürth excedeu as expectativas mesmo na segunda divisão e segue dirigido por Stefan Leitl. Entretanto, as perdas na base titular foram mais sensíveis, com a saída de quatro nomes importantes no acesso – em especial o lateral David Raum, campeão europeu sub-21 com a seleção. Os reforços também vieram sem tantos investimentos, com destaque ao empréstimo do volante Adrian Fein junto ao Bayern. O sinal de alerta é claro aos bávaros, que ainda assim tem seus trunfos. Maximilian Bauer é um zagueiro de potencial, enquanto o meio recupera Julian Green e Paul Seguin – antigas promessas de Bayern e Wolfsburg, respectivamente. Já na frente, Branimir Hrgota e Havard Nielsen são opções com boa rodagem.

Robert Lewandowski, artilheiro da Bundesliga 2020/21 com 41 gols (Imago / OneFootball)

– A briga pela artilharia

A Bundesliga nem sempre consegue concorrer à Chuteira de Ouro, até pela quantidade menor de rodadas. Porém, não há dúvidas que o Campeonato Alemão terá uma das melhores brigas pela artilharia desta temporada. Lewandowski vem da melhor campanha de sua carreira. Seus 41 gols foram capazes de derrubar o recorde de Gerd Müller, algo que já parecia inalcançável depois de cinco décadas. Mesmo que a idade chegue, o matador não indica seu declínio – muito pelo contrário, indo na via oposta e melhorando cada vez mais. Mas não estará sozinho nesta corrida. Haaland iniciou a Copa da Alemanha debulhando defensores e esta pode ser a sua grande temporada pelo Dortmund, até pelas perspectivas de sair. Promete ser uma pedra no sapato mais constante de Lewa, especialmente se não sofrer os problemas físicos da última edição da liga.

Correndo por fora, há outros nomes qualificados. André Silva foi o vice-artilheiro da temporada passada com números para liderar a lista de goleadores em outros anos, não fosse Lewandowski. E terá melhores condições para empilhar seus gols no RB Leipzig. Inclusive, ainda pode ver Brian Brobbey concorrendo com ele pelo posto de goleador na Red Bull Arena. A lista de matadores ainda inclui Wout Weghorst, Andrej Kramaric, Lars Stindl, Sasa Kalajdzic, Lucas Alario, Max Kruse, Rafael Santos Borré e ainda outros. Que o reinado de Lewa seja bem claro, a Bundesliga quase sempre traz um prato cheio em número de gols.

– A volta dos torcedores

Outro atrativo nesta edição da Bundesliga é o retorno efetivo dos torcedores às arquibancadas. Os alemães costumam contar com a melhor atmosfera entre as grandes ligas europeias. A diferença que isso faz dentro dos estádios ficou evidente nos últimos meses, com um clima bem mais frio e clubes gigantes degringolando sem poder contar com suas massas. A volta ainda será gradual neste primeiro momento, com públicos permitidos de até 25 mil pessoas – número sujeito às avaliações das autoridades locais e às regras de distanciamento. De qualquer maneira, é um sinal da volta à normalidade.

Alguns reencontros serão especiais. Lewandowski deslanchou na artilharia sem o apoio da torcida do Bayern. A Muralha Amarela desfrutou de Haaland por apenas três meses até o início da pandemia. Max Kruse ainda não se encontrou com as inflamadas arquibancadas do Union Berlim, que agora verão seu time lutando pelas copas europeias. Isso sem contar a nova era de diversos treinadores em clubes de ponta no campeonato. Promete ser uma edição marcante do Campeonato Alemão, por muitos fatores envolvidos, mas principalmente pela emoção que voltará a aflorar nos arredores dos gramados.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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