Bundesliga

Boateng quer punições mais rígidas contra racistas e o uso de câmeras para identificá-los

Se o futebol agora usa a tecnologia para ajudar a arbitragem, por que não usá-la para identificar racistas nas arquibancadas? É a discussão que Kevin Prince-Boateng propõe, em uma entrevista ao site alemão Jetzt que, no Dia da Consciência Negra, serve para nos lembrar o quanto o racismo ainda é intrincado no futebol.

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Boateng, cujo pai é de Gana e a mãe da Alemanha, tem sido um dos jogadores que lidera o movimento contra o racismo no futebol, desde que, em 2013, ele abandonou o campo, em um amistoso do Milan contra o Pro Patria, por causa de insultos preconceituosos. Chegou a ser convidado pelas Nações Unidas para discursar sobre o assunto.

“É simples: você pendura uma câmera com um microfone em cada canto do estádio”, explica. “Com isso, você pode controlar todo mundo. Isso não é difícil. No campo de futebol, você pode controlar tudo. O que eu digo para alguém, se eu deliberadamente estendi meu cotovelo. Não sou engenheiro de som nem especialista em câmeras, mas tenho certeza que isso seria possível nas arquibancadas”.

Boateng afirma que custaria dinheiro, mas “seria algo positivo para a segurança dos estádios”, não apenas com racismo, mas também com ameaças de terrorismo e com pirotecnias que são proibidas no campo de futebol. “Você pode monitorar com a câmera. Não vejo problema porque a câmera identificaria não apenas os racistas, mas também quem coloca a segurança do estádio em risco de outras maneiras. O resto das pessoas não tem nada a temer”, afirmou.

O jogador do Eintracht Frankfurt acredita que novas medidas devem ser tentadas porque atualmente as autoridades não estão fazendo o bastante para combater o racismo. “De jeito nenhum. Direi isso quantas vezes forem necessárias. Não é o suficiente mostrar ‘Não ao racismo’ em um vídeo antes de jogos da Champions League. O torcedor de cinco anos do Eintracht Frankfurt pode nem ver o vídeo. Não é o bastante usar uma camisa com ‘Não ao racismo’ ou ‘Mostramos o cartão vermelho ao racismo’. Isso é legal e tudo, precisa ser mantido, mas você precisa fazer mais. Mais publicidade, mais vídeos, você tem que entender os jogos como eventos e colocar mensagens nele. Cada clube deveria fazer algo em marketing. Cada jogador da Bundesliga deveria ajudar, cada jogador do mundo”, disse.

Na maioria das vezes, o torcedor racista comete as suas ofensas e volta para casa sem sofrer consequências. “O problema é que as pessoas no estádio são anônimas. O racista usa isso. Você ouve sons de macaco aqui, às vezes ali. Eles têm a chance, naquele momento, de viverem quem são, mas não se destacam na multidão. Mas nós, no campo, ouvimos isso”, disse Boateng, que gostaria que os clubes banissem os racistas dos estádios.

“Não permita que eles entrem nos estádios novamente. Não lhes dê a plataforma para fazer isso na frente de 50 mil pessoas. Não podemos esquecer que precisamos lidar com isso para nossas crianças, para o futuro. Uma criança de cinco anos não pode entrar no estádio e ver mensagens racistas. Ele não pode sentar ao lado de alguém no estádio que diga ‘seu negro’, ‘seu turco de merda’, ‘seu árabe de merda’, ‘seu chinês de merda’. Se ainda permitimos isso hoje em dia, é nossa culpa. É por isso que faço de tudo para mudar isso. Mas não posso fazer isso sozinho. As federações e as ligas precisam se unir”, disse.

Segundo Boateng, insultos racistas às vezes acontecem 50 vezes por ano, às vezes nenhuma, mas a frequência não importa: todos sabem que o pensamento ainda está vivo, inclusive fora do futebol. “As pessoas, por exemplo, mudam o lado da rua. Também pode acontecer no semáforo, quando o carro ao lado olha para mim e balança a cabeça. Eu sei o que estão pensando: como um cara negro pode ter um carro desses? Deve ser traficante. Uma vez fui ao supermercado e fiquei ao lado de uma mulher que não conseguia alcançar o pacote de arroz na prateleira. Eu peguei o pacote e dei para ela. Ela pegou, colocou de volta na prateleira e buscou um funcionário para lhe dar um novo pacote. Como você se sente com isso?”, disse.

Boateng lembrou casos de racismo quando ainda era criança, quando defendia seleções de base da Alemanha e tinha sua nacionalidade questionada. “Eu nasci na Alemanha, falo a língua e vivi na Alemanha durante 20 anos. Mesmo assim, situações assim fizeram com que eu me sinta como eu me sinto hoje: que sou tão alemão quanto ganense”, contou, o jogador que defende a seleção de Gana. “Quando uma criança te insulta, você pode pensar ‘ok, ela disse isso porque ouviu em outro lugar’, mas quando adultos fazem isso, machuca. Porque você sabe muito bem que eles querem ferir profundamente uma criança de sete ou oito anos. Quando eu era criança, eu sempre tentei reprimir isso, não pensar nisso. Chorei muito. Nunca falava sobre isso”.

O jogador acredita que o assunto deveria ser mais discutido no mundo do futebol porque “há coisas mais importantes” do que saber se a bola entrou ou não. “Se chegarmos a um ponto em que dissermos que não podemos vencer o racismo, ok, pelo menos tentamos de tudo. Mas nós ainda nem começamos”, encerrou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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