Bundesliga

Além da transmissão por app: Bundesliga lidera a corrida por inovações no futebol

A notícia que a Bundesliga vai ser transmitida no Brasil pelo aplicativo OneFootball surpreendeu. É uma iniciativa bastante diferente, porque não é exatamente um app de streaming, mas sim de resultados e conteúdo. Uma inovação, sem dúvida. Algo que não é uma novidade para a Bundesliga. O Campeonato Alemão é a liga que mais busca inovações, tanto que chega até a investir em empresas que trazem novidades no futebol, funcionando como uma incubadora.

É o que conta uma reportagem publicada pela Betway, que mostra como a liga alemã é a que lidera a corrida por inovações nas transmissões de futebol. O texto é reproduzido a seguir, autorizado pelo site de apostas.

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Como a Bundesliga lidera a corrida por inovação em transmissões de futebol

O Bayern de Munique voltou da pausa de inverno da Bundesliga em velocidade de cruzeiro. Empataria apenas um jogo e ganharia todos os outros até conquistar o oitavo título consecutivo. No fim de janeiro, vencia o Schalke por 3 a 0 quando o artilheiro Robert Lewandowski invadiu a área pela esquerda. Limpou o marcador, mas o goleiro havia fechado o ângulo e outros dois adversários estavam em volta. Preferiu passar para Thiago, livre na região da marca do pênalti. Sabia, por instinto, que aumentaria as chances de seu time marcar. Não sabia exatamente em quanto, mas a Bundesliga sabia: de 19% para 53%.

Nenhuma estatística conta a história sozinha ou substitui assistir à partida, mas, bem contextualizada, a Expectativa de Gols ou XG, na sigla em inglês, pode ajudar a entender se o time que venceu foi muito eficiente, se o que perdeu desperdiçou oportunidades demais ou se você errou aquela esporte bet porque deu muito azar. Ela é um dos destaques do novo serviço da Bundesliga chamado “Match Facts” (Fatos da Partida, em tradução livre), em parceria com a Amazon Web Services (AWS), empresa de tecnologia de nuvem ligada à Amazon.

O que a liga pretende com o “Match Facts” é acrescentar informações à narrativa da partida. Um gol como o de Joshua Kimmich, do Bayern, na vitória por 1 x 0 sobre o Borussia Dortmund, com um toque por cobertura da entrada da área, não foi apenas decisivo na briga pelo título e plasticamente bonito, como também tinha apenas 6% de probabilidade de ocorrer. Atende à demanda de uma geração que cresceu com muitas estatísticas no videogame e em outros esportes, como a NBA ou a NFL.

A abordagem sustentável que a Bundesliga adota impede que a distância para ligas como a espanhola e a inglesa seja coberta por grandes somas de euros. Há uma regra que proíbe investidores de serem donos de mais de 49% das ações de um clube. A inovação é uma das apostas para tentar se destacar em meio a uma concorrência feroz.

Em 2007, pendurou câmeras nos estádios para fornecer ângulos diferentes às transmissões. Foi a segunda grande liga a aprovar a tecnologia da linha do gol, dispositivo que confirma se a bola entrou ou não, e a primeira, ao lado da Serie A, a usar o vídeo para auxiliar os árbitros de campo. Seu canal de YouTube é muito ativo, com melhores momentos, listas, personagens e brincadeiras. Há uma busca constante por novidades, como detalhamos abaixo neste infográfico:

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A Bundesliga controla toda a cadeia de produção das transmissões de suas partidas. A lógica, segundo seu vice-presidente de inovação digital, Andreas Heyden, é que para melhor servir às empresas de mídia a liga precisa agir como uma. “Acredito que cada liga precisa definir seu próprio caminho e o nosso foi reconhecer que sucesso é cíclico”, afirma durante conversa com o time da Betway. “Às vezes, você vence a Champions League, às vezes não. Como podemos nos tornar um pouco independentes desse ciclo? Outros clubes, outras ligas, fazem de maneiras diferentes. Outras ligas vendem patrocínio para suas marcas. Nós queremos manter a nossa limpa”.

Dois anos atrás, passou também a investir em startups de tecnologia por meio da estratégia “DFL for Equity” – a DFL, liga de futebol alemã, é responsável pelas duas primeiras divisões do país. Adquiriu participação, por exemplo, na empresa israelense Track160 que desenvolve um sistema de análise com base em inteligência artificial, ou na Athletia, companhia de Colônia especializada em proteção de direitos autorais.

“Sempre que trabalhamos junto com uma empresa, o valor dela cresce. Ela tem acesso a nosso conteúdo, etc, etc. Se pudermos criar um modelo em que investimos em uma empresa, conteúdo, marca, rede, contato, e ajudamos essa empresa a crescer, e ela é vendida para o Google (por exemplo), teremos nossa parte. Então é uma potencial fonte adicional de renda”, explica.

E os outros torcedores?

O diferencial da Bundesliga ao longo dos anos tem sido os torcedores, com a maior média de público da Europa e estádios pulsantes, que servem como um produto apetitoso para as televisões, mas os interesses daqueles que produzem esse clima nem sempre são os mesmos daqueles que o consomem.

“A relação da Bundesliga com os torcedores que vão ao estádio é baseada no valor inestimável desses torcedores para o marketing do produto”, afirma Jost Peter, membro do conselho da Unsere Kurve (Nossa Curva), organização que reúne 21 grupos de torcedores e promove a cultura de arquibancada. “Isso inclui muitos conflitos que ficam sem solução, aos quais a Bundesliga presta atenção apenas se for forçada. Críticas ao sistema de ‘futebol moderno’ não são ouvidas. A ‘relação única’ é fazer todo o possível para desenvolver o produto, mesmo contra os interesses dos torcedores”.

O mais recente conflito foi o retorno da Bundesliga com portões fechados, por questões sanitárias, para assegurar o dinheiro dos contratos de televisão. Críticos questionaram como clubes que movimentam milhões não tinham reservas para resistir a alguns meses parados e que seria um sintoma do quão insano ficou o sistema financeiro do esporte. A mensagem era simples: sem torcedores, não há futebol. “O futebol profissional está doente e tem que ficar em quarentena”, disse outra coalizão de torcidas, Fanszenen Deutschlands, em comunicado publicado em abril.

Segundo Peter, cuja entidade se diz representante de mais de 100 mil torcedores, o clima nos estádios alemães é único porque os espectadores podem ver o jogo em pé, há ingressos em todas as faixas de preço e muita diversidade entre os seus grupos. A tecnologia não foi feita para eles – com exceção da linha do gol, facilmente compreendida das arquibancadas -, mas para quem fica em casa.

“O torcedor de TV é livre para fazer outras coisas. Se o jogo estiver chato, ele precisa de mais artifícios para continuar vendo. No estádio, temos 50.000 perspectivas diferentes. A TV precisa de cinco ou dez câmeras para imitar isso”, diz. “Não me entenda errado. Inovação é parte do futebol. O jogo se desenvolve o tempo inteiro, mas, para o torcedor de estádio, é um evento social também. Encontramos amigos e vivemos nossos rituais. Fazemos mais do que apenas ver futebol e beber cerveja”.

“Acho que todos têm direito à própria opinião”, responde Heyden. “A visão dos torcedores nem sempre será a mesma da liga, mas estamos em diálogo. A questão é chegar a um meio-termo e acho que fazemos bem isso. Um estádio como o Dortmund, com a Muralha Amarela, permitir torcer em pé, beber álcool… somos muito diferentes de outras ligas”.

A Bundesliga recebeu um prêmio de prestígio no começo deste ano, vencendo concorrentes como a NBA e o WWE (luta livre), em Las Vegas, pelo teste com tecnologia 5G durante um jogo entre Wolfsburg e Hoffenheim, em setembro, em parceria com a Vodafone. Um estádio com jogo importante da Bundesliga transfere 500 gigabytes de dados e, como a tendência é esse número crescer, a rede precisa ser fortalecida. Convidados puderam testar o protótipo do novo aplicativo que entrega também ao torcedor que está no jogo aquelas estatísticas avançadas em tempo real, como a Expectativa de Gols ou o quão rápido um jogador está correndo, contando com gráficos em realidade aumentada.

“Como torcedor que visita estádio desde criança, não consigo imaginar que isso seja importante para minha experiência”, afirma Peter. “Não preciso de avanços tecnológicos para acrescentar ao que vejo com meus próprios olhos. Tenho contato direto e emocional com todos e tudo que acontece em campo e tento interpretar da minha maneira”.

Segundo Heyden, as inovações são colocadas em prática para melhorar a experiência, não para substituí-la. “Não haverá uma situação em que você precisa ter um aplicativo aberto para entender o jogo. É um jogo fácil (de entender)”, afirma. “Vamos investir em nova tecnologia apenas para mídias? Sim. Porque 99,9% dos torcedores da Bundesliga nunca irão ao estádio. Temos 500 mil pessoas indo aos estádios e milhões ao redor do mundo”.

A estratégia da Bundesliga tem produzido bons números. No seu último relatório, publicado em fevereiro deste ano, os 36 clubes das duas primeiras divisões da Alemanha tiveram pela primeira vez receitas combinadas superiores a € 4 bilhões. O novo contrato de transmissão, válido entre 2021 e 2025, foi fechado por € 4,4 bilhões, decréscimo de apenas € 200 milhões em relação ao anterior, apesar das incertezas causadas pela pandemia.

O desafio, porém, é conciliar os interesses do torcedor que está em casa com o do que ele vê fazendo festa por meio da televisão.

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