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Estava bem claro que o trabalho de Lucien Favre não daria mais frutos no Borussia Dortmund. A equipe esboçou alguns momentos interessantes ao longo desses dois anos e meio em que o treinador permaneceu no Signal Iduna Park, mas o período será mais lembrado pelo potencial desperdiçado e pelas dificuldades para montar uma equipe consistente diante dos talentos individuais à disposição. O início da temporada era morno, com a classificação na Champions League garantida sem resultados tão expressivos e uma campanha na Bundesliga distante de convencer. Diante da lesão de Erling Braut Haaland, Favre perdeu seu colete salva-vidas. E, apesar dos muitos erros, a diretoria preferiu esperar por um vexame para consumar a demissão. A derrota por 5 a 1 diante do Stuttgart no final de semana, em placar que poderia ter sido pior, confirmou o que a torcida aurinegra tanto esperava.

É preciso lembrar que Favre chegou sob expectativas positivas no Signal Iduna Park. Tinha motivos para isso. O treinador vinha de um trabalho bom à frente do Borussia Mönchengladbach no começo da década, antes de levar o Nice às cabeças na Ligue 1. Enquanto isso, as mudanças de técnico no Signal Iduna Park não haviam sido bem sucedidas. Jürgen Klopp deixou o BVB adorado, mas já oscilando em seus últimos tempos. Thomas Tuchel viveu bons momentos, embora sem repetir o patamar do antecessor. Peter Bosz não é mau técnico, mas a montanha-russa dos primeiros meses culminou em sua saída, sem paciência da diretoria ante a seca. Por fim, Peter Stöger serviu não mais do que um tampão. Então, Favre parecia uma escolha acertada.

E não dava mesmo para condenar a decisão que o Borussia Dortmund tomou ao contratá-lo. O suíço era um treinador com mais rodagem que os seus antecessores imediatos, além de boa vivência na Bundesliga. Também possuía um histórico favorável por montar equipes equilibradas e que produziam acima das expectativas. No Signal Iduna Park, Favre teria talento à disposição como nunca antes, para desenvolver jovens talentos – outra de suas virtudes. Mais importante, se reencontraria com Marco Reus, que eclodiu nas mãos do técnico quando ainda estava no Gladbach. Parecia uma parceria bastante promissora, com o atacante alçado ao posto de protagonista e líder.

A primeira temporada de Lucien Favre no Borussia Dortmund seria exatamente a sua melhor – talvez porque houvesse uma desculpa sobre o período de aclimatação do treinador no clube. Mas não dá para reclamar tanto dos primeiros meses de trabalho. O BVB fez um primeiro turno muito regular na Bundesliga e só sofreu a primeira derrota em dezembro, indo para a pausa de inverno com uma vantagem de seis pontos na liderança. Além disso, Reus realmente se reencontrou e passou a desfrutar de seu melhor momento desde a sequência de lesões que atravancaram sua carreira. Jogando mais centralizado, era o craque que os aurinegros precisavam. Até que o time começasse a desandar.

Aquele Dortmund embalado vencia muitas partidas no limite, especialmente pelas chances desperdiçadas. Durante a segunda metade da temporada, a balança passou a pender para o outro lado, com tropeços frequentes. A goleada por 5 a 0 do Bayern de Munique na Allianz Arena marcaria a derrocada numa Bundesliga que parecia oferecer todas as condições para o fim da hegemonia dos bávaros. O time de Niko Kovac não era confiável, mas o Dortmund também não cumpriu sua parte quando necessário. Talvez um símbolo maior do fracasso seja mesmo a derrota por 4 a 2 em casa no clássico contra o Schalke 04, quando os rivais rondavam o rebaixamento, tirando de vez as perspectivas de título em Dortmund. Seria a prova cabal de que muitos erros rondavam o Signal Iduna Park, culminando no frustrante vice-campeonato. Eliminado sem muitas chances contra o Tottenham na Champions, o BVB também cairia para o Werder Bremen na Pokal.

A esperança de que o Borussia Dortmund aprendesse com os erros para 2019/20 não se cumpriu. Os aurinegros seguiam sem um plano de jogo claro, dependendo muito mais da iniciativa dos jogadores e de lampejos individuais na frente. Se os problemas físicos voltaram a assombrar Marco Reus, Jadon Sancho cresceu na hierarquia para se tornar o salvador. Mesmo assim, o excesso de empates e uma coleção de bobeiras defensivas atravancaram a campanha no primeiro turno da Bundesliga. De fato, o BVB melhorou na segunda metade. Porém, isso está atrelado à contratação de Haaland, que passou a empilhar gols e evitava os tropeços antes frequentes – principalmente fora de casa.

Para não dizer que Lucien Favre não tinha méritos, o treinador até conseguiu encontrar um caminho, sobretudo após a chegada de Emre Can. O Dortmund passou a se organizar no 3-4-3, a defesa parecia menos exposta e os alas tinham carta branca para atacar. Deu para encadear vitórias durante o segundo turno e tentar perseguir o Bayern de Munique. Não deu para ganhar os jogos mais importantes, entretanto. A derrota no clássico contra os bávaros praticamente descartou as chances de título dos aurinegros, especialmente ante o aproveitamento perfeito do time de Hansi Flick. Já na Champions, derrotar o Paris Saint-Germain em casa não bastou diante da reação dos franceses no Parc des Princes. Por fim, de novo o Werder Bremen se tornou algoz na Copa da Alemanha.

Dá até para dizer que Lucien Favre perdeu uma peça importante no último mercado, com a saída de Achraf Hakimi se tornando uma lacuna difícil de se suplantar mesmo com a chegada de Thomas Meunier. Ainda assim, o elenco se mostrava mais completo com as vindas de Jude Bellingham e Reinier. Além disso, Haaland poderia disputar sua primeira temporada completa e Jadon Sancho estaria cada vez mais pronto a manter sua ascensão. O que se viu nos últimos meses, contudo, foi uma equipe cada vez mais abatida e afundada em seus próprios defeitos.

Os primeiros jogos da temporada nem foram tão ruins, exceção feita às derrotas para Augsburg e Lazio, em que o Dortmund pareceu se entregar às suas vulnerabilidades. Talvez o ponto de virada tenha ocorrido mesmo com a derrota diante do Bayern pela Bundesliga. O revés na Supercopa acabou sendo um ponto fora da curva, ainda que Favre tenha boicotado seu próprio time ao sacar Haaland, que fazia grande partida – e, assim, minou o moral de todos. Já o reencontro no início de novembro, dentro do Signal Iduna Park, viu um time ainda incapaz de evitar a derrota contra os maiores rivais. Por mais que os aurinegros tenham vivido bons momentos durante os 90 minutos e até criado mais chances, acabaram muito expostos e não conseguiram ser tão cirúrgicos. Pareciam um degrau abaixo para competir pela taça, apesar da grande apresentação, e perderam o foco na sequência da temporada.

Desde então, o último mês viu o Dortmund definhar aos poucos. A equipe se tornou mais suscetível aos seus apagões defensivos e perdeu a segurança conquistada atrás. Favre parecia impotente para encontrar um esquema tático que protegesse o time e insistia infrutiferamente nos três defensores. Os aurinegros até cumpriram sua missão na Champions, mas sem vencer a Lazio e sem qualquer sinal concreto de força. O problema viria mesmo na Bundesliga, onde os resultados minguaram especialmente depois da lesão de Haaland. A defesa que sofreu dois gols nas seis primeiras rodadas da Bundesliga acabaria vazada 13 vezes nos cinco compromissos seguintes. E o ataque, que tantas vezes só rondava as retrancas adversárias, dependendo do centroavante para furá-las, deixou de produzir. Assim, vieram três tropeços consecutivos.

A demissão de Lucien Favre não entra na categoria de “falta de paciência”. Pelo contrário, a diretoria do Borussia Dortmund teve até mais compreensão que o recomendado – muito mais que a torcida. O treinador não apresentava soluções aos problemas táticos e se agarrava aos seus salvadores, dando pintas de acomodação, com sua postura até calma. De fato, ele impulsionou vários desses talentos individuais, mas deixou muito a desejar coletivamente. Assim, cada vez mais, os próprios atletas pareciam não comprar o seu discurso e as suas decisões. O próprio Reus analisou a goleada do Stuttgart como uma “catástrofe”, na saída de campo. Já Mats Hummels criticou a falta de concentração geral e o futebol que não funciona, “com muitos riscos em áreas que raramente dão retorno e consequências muito grandes na defesa”.

A falta de comando se refletia em falta de desempenho coletivo e, agora, repercutia mais forte como falta de resultados. Acabou sendo a deixa para que os aurinegros optassem pela troca de treinador, para ver se algo muda na postura. Elenco o BVB possui para fazer melhor. Falta um técnico com melhores ideias para ajeitar a equipe e também com mais personalidade. O Dortmund parecia refletir Favre, tantas vezes hesitante, sem velocidade e criatividade em suas ações. Parecia querer evitar se expor, mas acabava ainda mais vulnerável. Além disso, também em muitas ocasiões era incapaz de converter sua superioridade em gols, entre a falta de agressividade e os desperdícios. Faltava entusiasmo, como nos melhores tempos de Klopp.

Ao longo dos últimos meses, a diretoria do Borussia Dortmund pecou mais por omissão do que por ação. Favre teve seu contrato renovado até 2021 ao final de sua primeira temporada, mas a decisão não parecia tão problemática naquele momento. Contudo, a falta de energia do time em recorrentes compromissos e a insistência do treinador em escolhas pouco frutíferas escancaravam que algo precisava mudar o quanto antes. O cenário não é de terra arrasada, até pela distância contornável de seis pontos em relação ao topo da Bundesliga. Porém, o BVB possui um prejuízo a recobrar e muitos acertos a fazer, sem tanta margem à manobra. Neste momento, até pela força do Bayern e de outros concorrentes, sonhar com a Salva de Prata parece mais difícil. Garantir-se no G-4 é um objetivo mais palpável, até porque Bayer Leverkusen e RB Leipzig indicam equipes muito melhor formatadas no momento.

Assistente de Favre, o jovem Edin Terzic deve encerrar a temporada à frente do Borussia Dortmund, com mais duas partidas pela Bundesliga antes da pausa de inverno. A imprensa alemã aponta que o clube possui um acordo verbal com Marco Rose para a 2021/22, o que seria excelente, mas ainda mantém uma lacuna para os próximos meses. Os aurinegros permanecem com um problema a resolver, entre manter um interino sem grande experiência ou escolher um tampão para o próximo semestre – algo que não traz qualquer garantia, como foi sob as ordens de Peter Stöger.

Por mais que Terzic seja elogiado por sua atitude nos treinamentos e tenha colocado a mudança de mentalidade como primeiro desafio (já indicando a ruptura recente que teve com Favre), o interino é uma incógnita. Sua primeira entrevista agradou, ressaltando a ligação com o Dortmund. Nascido na região, o treinador cresceu frequentando a Muralha Amarela e iniciou seus trabalhos no clube em 2010 – embora tenha saído por quatro anos, quando foi assistente de Slaven Bilic. Publicamente, afirmou seu apreço por aquilo que era praticado nos tempos de Jürgen Klopp e pretende ver o time com um futebol mais agressivo.

De qualquer maneira, existe uma diferença grande entre teoria e prática, com o antigo assistente precisando tomar as decisões e mostrar aos atletas que a solução estava numa comissão técnica que não vinha dando certo. Caso o impacto de Terzic não se note, há um risco de perder o elenco, especialmente jogadores com Haaland e Sancho, que parecem dispostos a aproveitar o momento antes de dar saltos maiores na carreira. O BVB precisará de uma reviravolta das grandes, e sua solução tende a ser mesmo caseira. Mas o plantel precisará abraçar também essa ideia.

Parece difícil imaginar que o Dortmund achará seu Hansi Flick pessoal, para uma mudança de ares tão grande como a ocorrida com o Bayern de Munique – que, aliás, demitiu Niko Kovac também depois de um 5 a 1. As questões no Signal Iduna Park parecem ser mais profundas quanto à estrutura do time, já que o elenco é menos recheado e mais dependente de alguns nomes principais. Há margem para render muito mais, e certamente isso norteou a demissão. O entrave é o cenário que Favre deixou, sem uma estrutura coletiva como ponto de partida e sem lideranças tão claras como as que permaneciam na Baviera para Flick. Neste momento, este primeiro semestre de 2021 parece muito mais propenso para se colocar ordem na casa. Mesmo que isso signifique desperdiçar seis meses de Haaland ou Sancho, craques que não passarão a carreira inteira na Alemanha.