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Alerta amarelo. E negro

Um copo meio cheio pode também ser visto como um copo meio vazio. Depende do olho e da perspectiva mais alegrinha, ou rabugenta, de quem vê o copo. E o empate do Borussia Dortmund com o Shakhtar Donetsk pela Liga dos Campeões pode ser visto como um bom resultado, pelos mais otimistas. Ou uma vantagem perigosa, como podem prever os pessimistas. Mais do que o resultado, a atuação do time gerou preocupações nos olhos dos mais tranquilos torcedores aurinegros. E essas preocupações são agravadas pela surra de 4 a 1 que o time tomou do Hamburg no último sábado. A Bundesliga foi pro beleléu, e só volta de lá se o Bayern Munique ganhar uma taça de hors-concours antes do campeonato acabar.

Restou a Liga dos Campeões, e aqui o Dortmund é rei. Invicto e elogiado por todos no continente, o time de Jürgen Klopp poderia ter vencido todos os seis jogos da primeira fase. Não o fez porque Real Madrid e Manchester City contaram com erros de Roman Weidenfeller e da arbitragem para empatar os jogos. Mas contra o Shakhtar, a coisa não foi bem assim. O empate foi suado, sofrido e pode ter deixado cicatrizes, como diria o grande filósofo Fabián Guedes, o Bolívar. Mas tirou o sorriso do rosto de quem achava que os aurinegros eram favoritos. E mostrou que os ucranianos/brasileiros não são tão inferiores assim. Afinal, tiraram o Chelsea da competição.

Voltemos à vaca fria (bem fria, em Donetsk), e chegamos à conclusão mais simples que o placar do jogo pode sugerir: o ataque do Borussia Dortmund continua produzindo muito, e Lewandowski é o artilheiro dos gols perdidos (perdeu um no segundo tempo, mas um daqueles de dar inveja a muitos Bills anônimos por aí). Mas fez um, depois de driblar dois adversários com uma furada. Um drible que nem Garrincha foi capaz de dar. E nem ele próprio será capaz de dar novamente, pois ainda não assumiu controle sobre o movimento.

Sim, o ataque produziu, e Mario Götze jogou muita bola. Mas só ele, porque Marco Reus e Jakub Blaszczykowski parecem ter esquecido o grande futebol que jogavam antes da pausa de inverno. E fizeram um joguinho normal, mediano demais para jogadores da qualidade deles. Piszczek, pela direita, fez uma ótima partida e sempre foi uma boa opção. Mas Schmelzer foi inconstante em alguns momentos do jogo, apesar da assistência para Mats Hummels empatar no finzinho.

A defesa, no entanto, já não está em seus melhores dias. Hummels falhou feio no gol de Douglas Costa, e Weidenfeller também comprometeu na falta cobrada por Darijo Srna, que abriu o placar. O setor, que era sinônimo de segurança nas duas últimas temporada, tem sofrido demais nos últimos tempos, normalmente quando Ilkay Gündogan não está em campo para ajudar a segurar a velocidade dos adversários nos contragolpes. E Schmelzer não é mais o lateral voluntarioso que foi há duas temporadas.

Assim, o empate é um sinal de alerta. E bem forte. O Dortmund já largou as fraldas na Liga dos Campeões, mas tá na hora de aposentar também a chupeta, o babador e as rodinhas da bicicleta. É tempo de crescer de vez, e essa molecada já mostrou que tem talento para encarar a fase adulta da competição. E pode peitar qualquer time de igual para igual, desde que não cometa descuidos como o desta quarta-feira.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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