Acordos de TV mais baixos do que concorrentes brecam crescimento da Bundesliga
A Uefa divulgou um relatório que mostra a Bundesliga como a segunda em receita entre as ligas da Europa. O que é uma ótima notícia para o país também traz um questionamento: a receita é alta, mas em termos de acordo de TV, a liga fica atrás de todos os principais concorrentes, não só a Inglaterra. Um problema que faz com que os clubes do país sofram mais para concorrer em termos continentais com equipes estrangeiras.
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Em termos de receitas, a Bundesliga superou La Liga, da Espanha, Ligue 1, da França, e Serie A, da Itália, em total de receitas, basicamente por arrecadação com bilheteria e contratos de patrocínios. Quando se trata das receitas de direitos de TV, a coisa se complica para os alemães e ficam atrás da Inglaterra, Itália e Espanha.
Uma demonstração disso é que entre os 30 clubes de maior arrecadação no continente, a Bundesliga só tem seis. Em uma lista com os 20 clubes que mais arrecadaram com direitos de TV, nenhum alemão aparece. Nem mesmo o Bayern de Munique. A distribuição do dinheiro dos direitos de TV na Alemanha é uma das mais igualitárias, mas o problema não é como o bolo é divido, mas sim o seu tamanho.
Um dos fatores que complicam a situação da Bundesliga para aumentar as receitas de direitos de TV é a falta de competição. Na Inglaterra, duas gigantes da TV por assinatura, Sky Sports e BT Sport, disputam os direitos, o que eleva os valores; na Espanha, Telefonica e beIN Media Group também fazem uma competição acirrada pelos direitos de Real Madrid e Barcelona; e na Itália, Sky Italia e Mediaset disputam euro por euro os direitos da liga local.
Na Alemanha, só uma emissora grande faz proposta: a Sky Deutschland. Com menos competição pelos direitos, os valores não são tão altos. A concorrente da Sky, Deutsche Telekom, não consegue chegar em valores tão altos e, assim, o aumento, embora tenha acontecido, não foi significativo como na Inglaterra ou nas outras ligas.
A Deutsche Welle, emissora alemã, tratou do assunto com Uli Hesse, autor de “Tor!: The Story of German Football” (“Gol! A história do futebol alemão”). Segundo o autor, é uma questão de como se trata a Bundesliga. “Na Alemanha, o futebol não é considerado parte da indústria do entretenimento, mas é largamente entendida como uma experiência comunitária”, afirmou.
“Viajar com o seu time ainda é uma parte importante da cultura de torcedores e há pressão dos grupos que lutam contra ter jogos muito cedo ou muito tarde. A ideia de pagar para assistir futebol [na televisão] não enraizou na Alemanha. Você não pode forçar os alemães em pagar pelo futebol, como eles fazem na Inglaterra”, afirmou ainda Hesse.
O mercado de TV por assinatura na Alemanha não é tão vasto como em outros países, o que também complica para que operadoras entrem no negócio, além das restrições de horários de jogos. A cultura de pagar para ver os jogos, que gera receita milionárias na Inglaterra, não funciona na Alemanha. Ao menos, não por enquanto.
Mas ainda há outro fator: a venda internacional de direitos. Ligas como a inglesa, espanhola e italiana faturam muito com esse tipo de receita. O crescimento da liga alemã ainda é recente. Na última renovação, a liga conseguiu bons contratos na Ásia e nos Estados Unidos, mas o prestígio ainda está longe dos clubes ingleses e da fama dos espanhóis e italianos, conquistados ao longo do tempo. A língua é outro fator, uma vez que espanhol e italiano são mais populares nos Estados Unidos, um dos mercados mais importantes nesse sentido.
Mesmo com essas dificuldades, a Bundesliga é a segunda liga em arrecadação, o que mostra uma alta capacidade de acordos comerciais e de patrocínio. A receita de TV, porém, continua sendo uma parte fundamental para o crescimento da liga, em uma batalha entre a tradição e o negócio. Ainda que os direitos não sejam tão caros, os torcedores estão felizes. Será que eles abririam mão de parte da experiência que hoje vivem na Bundesliga e, mais do que isso, pagariam mais para ver os jogos pela TV para verem seus times mais ricos?



