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Yes, they CAN

Acompanhar o futebol africano deveria ser tarefa obrigatória a todos que se dizem amantes do futebol. Ali está a essência deste esporte tão apaixonante. Acompanhar o futebol africano é entender o significado de uma simples vitória, de uma conquista. É se emocionar com histórias de povos que encontram nas suas respectivas seleções a chance de esquecer as dificuldades do dia a dia. É se encantar com uma atmosfera de jogo peculiar, estádios superlotados e jogos envolventes, nem sempre pelo nível técnico.

Mas esta aventura também exige sacrifícios. Exige, muitas vezes, assistir jogos com qualidade de imagem dos anos 60. Com o passar do tempo, descobrimos que isso é um luxo, afinal, muitas partidas sequer contam com transmissões online. E, no fim das contas, a satisfação é imensa. No último fim de semana, foram conhecidas as 15 seleções que se juntam a anfitriã África do Sul na disputa da Copa Africana de Nações em 2013. E mais uma vez, cada um dos jogos proporcionam grandes histórias a serem contadas.

A classificação de Cabo Verde contra Camarões foi um dos momentos mais fascinantes desta rodada. Os “Tubarões Azuis” serão a única seleção estreante no torneio. Já os camaroneses, colhendo anos de má administração, terão de amargar a ausência na principal competição continental pela segunda vez consecutiva – o que não acontecia desde 1980. Eto’o retornou para evitar um vexame, mas não foi suficiente. Aqui está a magia do futebol africano: uma das seleções mais vitoriosas do continente e com um elenco estrelado, com Eto’o, Song e outras figuras conhecidas, sucumbe a outra que pela primeira vez integrou um cozinheiro a sua comissão. Festa das 500 mil pessoas que vivem no arquipélago.

E o que dizer da Etiópia, um dos países mais pobres da África e sem qualquer tradição recente no futebol, que venceu o Sudão por 2 a 0 e disputará a CAN pela primeira vez em 30 anos? Histórico. O estádio em Addis Ababa, capital do país, estava completamente cheio. O jogo de ida havia sido 5 a 3 para o Sudão, e os etíopes conseguiram exatamente o resultado mínimo que garantia a vaga. Deixo aqui o vídeo do segundo gol da Etiópia, marcado por Saladin Said. A festa nas arquibancadas, a narração carregada de emoção…tudo fala por si só quanto ao significado desta façanha para o país.

O gol da classificação de Burkina Faso, aos 51 minutos do segundo tempo, também foi marcante. Alain Traoré, que faz ótima temporada no Lorient, da França, aproveitou falha clamorosa do goleiro Lambet para marcar o tento salvador. Após o apito final, torcedores burquinenses tomaram conta do gramado, fazendo uma linda festa. Mas este também foi um momento triste, afinal, a modesta seleção da República Centro-Africana lutou bravamente por uma classificação inédita para a CAN. Uma seleção que não conta sequer com um fornecedor de material esportivo (o vice-presidente da federação banca os uniformes), e que mesmo sem a vaga, deixou seu legado.

Outro jogo carregado de adrenalina por pouco não custou a presença da atual campeã continental na África do Sul. Desfalcada de seu principal jogador, Kalaba, Zâmbia passou aperto contra Uganda, que está invicta em casa há oito anos e venceu por 1 a 0, levando o jogo para os pênaltis. Mweene, o goleiro-artilheiro zambiano, foi o heroi da disputa. Além de fazer grandes defesas no tempo regulamentar e converter sua cobrança, ainda pegou o último pênalti, cobrado por Ochan, garantindo o triunfo por 9 a 8. Não custa lembrar que, também nos pênaltis, Zâmbia derrotou a Costa do Marfim e se sagrou campeã continental neste ano. Por mais que Uganda também merecesse a classificação, o que seria da Copa Africana sem as comemorações acrobáticas de Katongo, Mayuka & cia? É muito carisma.

A segunda classificação consecutiva de Níger à CAN também é um capítulo à parte. Gernot Rohr, que levou Gabão para as quartas de final neste ano, foi apontado como o novo treinador da equipe no mês passado e liderou uma vaga improvável, derrotando a boa seleção de Guiné por 2 a 0. Vale lembrar que a participação de Níger na CAN 2012 só foi viabilizada por conta de um imposto no uso de celular no país, com a intenção de arrecadar custos (2,5 milhões de euros) para a participação da equipe. Togo, com tantos capítulos tristes em seu futebol desde 2010, finalmente ganhou um motivo para sorrir: a vitória sobre Gabão por 2 a 1, com direito a gol de Adebayor, carimbou a passagem para a África do Sul.

Na estreia do técnico Rachid Taoussi, Marrocos apresentou um futebol convincente e goleou Moçambique por 4 a 0, revertendo os 2 a 0 dos lusófonos na ida. Se mantiver o embalo, é sério candidato ao título. A Nigéria, que não disputou a CAN 2012, goleou a Libéria por 6 a 1 e vislumbra dias melhores. Gana não teve dificuldades ao bater Malauí por 1 a 0, assim como Mali, que fez 4 a 1 em Botsuana fora de casa. A Tunísia, com um futebol preguiçoso, empatou com a Serra Leoa em casa sem gols, mas se classificou. Angola reverteu os 3 a 1 de Zimbábue na ida vencendo por 2 a 0, enquanto no clássico do Norte da África, a ascendente Argélia bateu a Líbia por 2 a 0 e está classificada.

Infelizmente, alguns capítulos revoltantes também marcaram a rodada. Em Dacar, principalmente, onde os torcedores de Senegal, revoltados com a derrota para a Costa do Marfim por 2 a 0 e a consequente eliminação, tacaram fogo nas arquibancadas e atiraram objetos no gramado. O jogo foi cancelado e os Leões da Teranga certamente serão punidos severamente pela CAF. Segundo relatos, aproximadamente 30 pessoas, entre elas o Ministro dos Esportes de Senegal, ficaram feridas.

Guiné-Equatorial, derrotada por 4 a 0 para a República Democrática do Congo no jogo de ida, também protagonizou um papelão. Menos mal, nada de violência. Por intermédio do conselheiro do Ministro dos Esportes do país, Ruslán Obiang, nove brasileiros foram naturalizados numa tentativa desesperada de fortalecer o time. Obiang ainda forçou o técnico brasileiro Gílson Paulo a convocar jogadores do The Panters, clube presidido por ele e que foi expulso da Liga Nacional por não se apresentar a diversas partidas. Os equato-guineenses venceram por 2 a 1, mas estão fora. Os congoleses, com Kidiaba, Mputu e outros jogadores talentosos, vão dar o que falar em 2013. Olho neles.

Apenas sete seleções que se classificaram na última edição repetem a dose. Para Angola, Argélia, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Etiópia, Gana, Mali, Marrocos, Níger, Nigéria, República Democrática do Congo, Togo, Tunísia e Zâmbia, a África do Sul é, de fato, logo ali. Nesta trajetória rumo a terra dos Bafana Bafana no ano que vem, outras grandes histórias serão contadas. Sejam de superação, conquistas, fracassos ou qualquer outro gênero. Este é o futebol africano: longe do glamour, mas com emoção de sobra.

Curtas

– Ausências de peso na CAN 2013: Camarões, Egito e Senegal. Nada comparado ao festival de zebras deste ano. Ao menos na teoria, este será um torneio com mais “pedigree”.

– No dia 24 de outubro serão sorteados os grupos da competição. O evento terá transmissão ao vivo pelo canal da CAF no youtube.

– As 16 seleções já foram divididas em quatro potes. Pote 1: África do Sul, Zâmbia, Costa do Marfim, Gana. Pote 2: Mali, Tunísia, Angola e Nigéria. Pote 3: Argélia, Burkina Faso, Marrocos, Níger. Pote 4: Togo, Cabo Verde, República Democrática do Congo e Etiópia. Já imaginou uma chave com Costa do Marfim, Nigéria, Marrocos e RD Congo? Este sorteio promete.

– O multimilionário presidente do Mazembe, Moise Katumbi, fez questão de reafirmar seu espírito de “generosidade”: premiou a classificação da República Democrática do Congo para a CAN com 200 mil dólares a serem divididos entre atletas e comissão técnica. Tá bom ou quer mais?

– Previsto para começar no dia 17 de outubro, o Campeonato Egípcio foi novamente adiado por falta de garantias de segurança. Os Ultras do Al Ahly prometem impedir o pontapé inicial da competição enquanto não seja feita justiça aos mortos no massacre em Port Said. Alguns jogadores e treinadores da liga protestaram recentemente em frente ao Ministério dos Esportes pedindo a retomada do futebol local, suspenso desde o dia 1 de fevereiro.

– A decisão implica diretamente no trabalho de Bob Bradley na seleção egípcia. No entanto, o norte-americano garante que segue no cargo. Na última sexta, os faraós venceram um amistoso contra o Congo por 3 a 0, com dois gols e uma assistência de Aboutrika. O Egito não disputará qualquer jogo oficial até março do ano que vem, quando tem compromisso pelas eliminatórias da Copa.

– El Hadji Diouf reiterou sua vontade de voltar a jogar pela seleção senegalesa. Segundo o jogador do Leeds, a federação “tem medo” dele e vetou sua convocação para o jogo contra a Costa do Marfim. Diouf ainda disse que existe um grupo talentoso de jogadores na seleção, mas que a FSF não está tirando o melhor proveito.

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