Africa

Vilões de uma nação

A necessidade de se criar herois ou vilões tornou-se corriqueira nas mais diferentes circunstâncias e contextos. O futebol não está alheio a esse estigma, e quando o fracasso de uma equipe vem à tona, a identificação dos “culpados” parece mais importante do que o reparo dos problemas para o alcance de um determinado objetivo. Desde 1982 sem conquistar a Copa Africana de Nações, Gana nunca esteve tão credenciada a quebrar este incômodo jejum como neste ano. Contudo, a derrota para Zâmbia nas semifinais frustrou todas as expectativas que cercavam os Estrelas Negras.

O 4º lugar na CAN 2012 foi visto como um retrocesso pelos ganeses. Natural para quem foi vice-campeão em 2010 e ficou em 3º em 2008, mas a desilusão tomou proporções ainda mais preocupantes. Na volta pra casa, sequer o presidente de Gana foi receber a delegação. Chamou ainda mais atenção a hostilidade com Asamoah Gyan e o técnico Goran Stevanovic. Sabe aquela necessidade de crucificar alguém na derrota? Pois os ganeses “acharam” os vilões da eliminação. E podem pagar caro por isso.

O pênalti perdido contra Zâmbia provavelmente ainda tira o sono de Gyan. Sim, Asamoah Gyan, o mesmo que também perdeu um pênalti que poderia ter classificado Gana para as semifinais da última Copa do Mundo. E o mesmo que perdeu um pênalti contra a República Tcheca na Copa de 2006. E o mesmo que perdeu outro pênalti, desta vez contra a Coreia do Sul, em amistoso disputado em Seul no ano passado. Aí você se pergunta: como a comissão técnica ignorou todos esses fatos e permitiu que Gyan executasse a cobrança?

Não se pode culpar Gyan por acatar uma ordem. Pelo contrário. Não faltou personalidade ao camisa 3 (!), mesmo que não se possa dizer o mesmo da competência. Por outro lado, vale lembrar que o atacante se despediu da competição com a constrangedora marca de um gol em cinco partidas. Massacrado pela imprensa e torcedores locais, Gyan recentemente entregou uma carta à Federação Ganesa anunciando sua retirada temporária da seleção, alegando um “abuso intolerável” sofrido após a CAN.

Faltou sensibilidade de ambas as partes. Gyan sempre foi um jogador muito querido pelos ganeses. Quando o atacante se contundiu as vésperas da Copa Africana, todos temiam pela sua ausência e torciam por uma rápida recuperação. Ele voltou a tempo, mesmo longe das condições ideais – o que explica seu baixo rendimento. Obviamente, no calor da eliminação, os torcedores ignoraram o fato. De qualquer forma, um jogador de alto nível sabe que está sujeito a uma grande responsabilidade. Não saber lidar com a pressão pode arruinar uma carreira. Neste caso, o próprio Gyan está acabando com a sua na seleção. Seria um duro golpe para a própria Gana, que não conta com outro centroavante de alto nível.

O outro crucificado foi (ou melhor, ainda é) Goran Stevanovic, técnico dos Estrelas Negras. Com figuras conhecidas no futebol europeu à disposição, como Badu, Asamoah, os irmãos Ayew e o próprio Gyan, que hoje atua nos Emirados Árabes, impressionou o pragmatismo (pra dizer o mínimo) desta seleção. É a tal da “mentalidade vencedora” implantada pelos treinadores europeus, que para muitos, tem descaracterizado o futebol africano.

Desde Camarões em 2002, simplesmente todas as seleções que conquistaram a CAN contaram com jogadores predominantemente atuando no futebol local. Exceto os goleiros (reservas) Adjei e Sowah, Gana não teve nenhum jogador na Copa Africana que atuasse no futebol ganês. Não se pode culpar a falta de talento. Mesmo vivendo uma realidade particular, a liga ganesa ainda é um celeiro de jogadores com potencial, como os bons atacantes Emmanuel Baffour e Emmanuel Clottey.

Em meio a tudo isso, existe um clamor pela demissão de Stevanovic, que prometeu abandonar o comando caso não conquistasse a CAN 2012. De acordo com o site MTNFootball, caso queira despedir o sérvio, a Federação Ganesa terá de desembolsar 1,8 milhão de dólares. Não parece a ideia mais inteligente, não apenas pelo aspecto financeiro. A CAN 2013 e as eliminatórias para a Copa de 2014 se aproximam, e o início de um novo ciclo só prejudicaria ambas as caminhadas. Gana ainda precisa de Stevanovic. E de Asamoah Gyan. Como bem disse Badu: “os ganeses precisam saber tratar melhor os seus ídolos”. E a seleção, sem vaidades, precisa aprender com seus próprios erros.

Curtas

– O início da fase preliminar da Liga dos Campeões 2012 foi o grande destaque do futebol africano na semana. Na primeira partida de um clube egípcio desde a tragédia em Port Said, o Zamalek foi até a Tanzânia e empatou em 1 a 1 com o Young Africans.

– Amr Zaki, que recentemente desistiu de deixar o clube egípcio devido aos salários atrasados, marcou o gol do Zamalek, que entrou em campo com uma camisa homenageando Anas Mohyeddin, 15 anos, a mais jovem vítima do massacre em Port Said. Destaque ainda para a solidariedade da torcida tanzaniana com os visitantes. Como prêmio, vários jogadores do Zamalek distribuíram suas camisas para os torcedores locais.

– No confronto do campeão sul-africano com o campeão angolano, o Orlando Pirates passou vexame e caiu em casa diante do Recreativo do Libolo: 3 a 1. Maieco Henrique, irmão do lendário Akwa, foi o destaque dos angolanos com dois gols.

– Os argelinos também decepcionaram. O Chlef e o JSM Béjaïa empataram sem gols, respectivamente, contra o ASFA Yennenga, de Burkina Faso, e o Foullah Edifice, do Chade. O Power Dynamos, de Zâmbia, foi o destaque da rodada ao sapecar 5 a 1 no Japan Actuel’s, atual campeão de Madagascar.

– O Dolphin, da Nigéria, foi até Guiné-Equatorial encarar o Sony Elá Nguema e venceu sem sustos: 3 a 0. O Berekum Chelsea, atual campeão ganês, bateu o LISCR, da Libéria, por 2 a 0. O Africa Sports, da Costa do Marfim, perdeu do Missile, do Gabão, por 3 a 2.

– Após a renúncia de Samir Zaher, Anwar Saleh foi nomeado como presidente interino da Federação Egípcia de Futebol. Zaher deixou o cargo após a tragédia em Port Said e abre espaço para Saleh ficar no poder por pelo menos seis meses, até que uma nova eleição seja realizada.

– E o novo presidente já deixou claro: o Campeonato Egípcio será retomado em breve com portões fechados. Saleh também fez questão de deixar claro que a seleção egípcia cumprirá seu calendário previsto sem maiores problemas.

– Os faraós devem enfrentar Uganda e Quênia ainda neste mês. Um outro amistoso contra Botsuana estava agendado para o dia 29, mas os adversários desistiram do duelo. O técnico de Botsuana, Stanley Tshosane, alegou que muitos jogadores se retiraram da seleção após a CAN, o que impossibilitou a formação de um novo time.

– Ainda sem técnico (Karim Sega Diouf e Aliou Cisse assumiram de forma interina), Senegal convocou 23 jogadores para um amistoso contra a África do Sul, que será realizado no dia 29. Apenas nove jogadores que participaram do vexame na CAN foram mantidos. Outros, como Demba Ba, Mamadou Niang e Moussa Sow, não foram lembrados.

– Yaya Touré confirmou que pode anunciar sua aposentadoria da seleção da Costa do Marfim para se dedicar inteiramente ao Manchester City. Caso se confirme, seria uma perda e tanto para os Elefantes, mesmo considerando a performance apenas razoável do meia na CAN.

– Paulo Duarte, o “Mourinho da África”, foi demitido do comando de Burkina Faso. Além do fraco desempenho na CAN, o treinador teve diversos atritos com a Federação local nos últimos meses.

– A vitória por 3 a 0 do Kaizer Chiefs sobre o Moroka Swallows foi o grande momento da 17ª rodada do Campeonato Sul-Africano. Com um time jovem e desfalcado, o Chiefs contou com um dia inspirado de Masango, autor de dois gols, para triunfar.

– O Sundowns, líder com 35 pontos, decepcionou ao empatar com o fraco Jomo Cosmos sem gols. Melhor para o SuperSport United, que bateu o Golden Arrows por 2 a 1 e diminuiu para três pontos a diferença pro 1º colocado.

– O Espérance cumpriu dois de seus três jogos adiados na Ligue 1 tunisiana nesta semana e se aproximou da liderança. A equipe bateu Beni-Khalled e CS Sfaxien por 1 a 0 e chegou aos 13 pontos, contra 19 do primeiro colocado, Bizertin.

– Mesmo com um empate sem gols contra o Wydad Casablanca, o FUS Rabat se mantém na liderança do Campeonato Marroquino com 37 pontos. O Raja Casablanca bateu o FAR Rabat por 3 a 1 e segue em ascensão, chegando aos 31 pontos.

– Fique com a frase dita recentemente por Milutin Sredojevic, técnico de Ruanda: “Um dos meus grandes amigos me disse que uma prostituta e o diabo tiveram um bebê e o chamaram de futebol. Este jogo é imprevisível, mas é por isso que eu o amo tanto”.

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Equipe Trivela

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