África

Vai dar samba?

O velho chavão “treinador vive de resultados” nunca é esquecido quando se explica a demissão de um técnico. Se pensarmos dessa forma, não há nenhuma possibilidade de colocar em risco o emprego de um treinador que conquistou todos os torneios possíveis em uma temporada, correto? Para o Orlando Pirates, não é bem assim que funciona. O holandês Ruud Krol, que conduziu os Buccanners a uma tríplice coroa (Premier Soccer League, MTN 8 e Nedbank Cup) sem precedentes na história do clube, não teve seu contrato renovado.

Krul não era bem quisto por parte da diretoria e muito menos pelos torcedores, contrários ao estilo de jogo pragmático montado pelo holandês, porém demitir um técnico que faturou os três principais títulos nacionais na temporada parecia uma decisão, no mínimo, irresponsável. De qualquer forma, a diretoria do atual campeão sul-africano tratou de surpreender mais uma vez: Julio César Leal, que não trabalhava há quase dois anos, foi anunciado como o novo técnico do Pirates.

Leal é figurinha carimbada no futebol, inclusive na África do Sul. Com mais de 35 anos de experiência na profissão, o treinador se aventurou em terras sul-africanas pela primeira vez em 2007, onde teve uma breve passagem pelo modesto AmaZulu. Com um elenco limitado, poucos recursos financeiros e onze rodadas restantes no campeonato nacional, o brasileiro recebeu a ingrata missão de livrar a equipe do rebaixamento. E o que parecia impossível se tornou realidade: O AmaZulu terminou a PSL na zona do play-off (uma espécie de Promoción sul-africana) e bateu o University of Pretoria, escapando milagrosamente do descenso.

Ao final da temporada, Leal não chegou a um acordo para renovação e buscou novos ares. E o futebol insinuante e ofensivo implantado pelo brasileiro no AmaZulu não seria ignorado por equipes de maior expressão do país. Duas temporadas depois, o treinador foi nomeado para o comando técnico do Moroka Swallows, onde seu desempenho foi ainda mais expressivo. Contrariando qualquer prognóstico, Leal conduziu sua equipe à conquista da Nedbank Cup contra o University of Pretoria, adversário que já lhe rendia grandes lembranças desde os tempos de AmaZulu.

Só que o título rendeu alguns sacrifícios, como deixar o campeonato nacional em segundo plano e finalizar a competição num modesto 11º lugar. O desempenho não passou despercebido pela diretoria do Swallows, que não pensou duas vezes antes de encerrar o contrato de Leal (que ainda tinha mais dois anos de compromisso com o clube). O treinador exigiu uma compensação financeira no Supremo Tribunal e o caso ainda está sob revisão. O Swallows acenou com a possibilidade de vetar a contratação de Leal pelo Pirates, mas logo desistiu.

O fato é que a escolha dividiu opiniões. Parte dos torcedores do Pirates, que antes imploravam a saída de Krol, se rendeu ao acúmulo de títulos e mobilizou-se pela permanência do treinador. No cargo desde 2008, Krol assinou com o Pirates por três anos e o contrato não apresentava qualquer cláusula de renovação. No fim das contas, o treinador não manifestou nenhum interesse em permanecer e o presidente Irvin Khoza, que sempre criticou o estilo de jogo do holandês, não achou incômodo correr atrás de um novo técnico para o clube.

A contratação de Leal está atrelada a uma tradição que Khoza faz questão de resgatar. O Orlando Pirates sempre foi conhecido no continente pelo futebol ofensivo, atraente, o que estava totalmente distante do “kick and hope” de Krul. E com a tríplice coroa nacional, o Pirates se dá ao luxo de almejar conquistas maiores. Pra ser mais específico, o objetivo passa a ser o título da Champions League continental. O Pirates não desfruta de tal conquista desde 1995, mas se orgulha de ser o único clube sul-africano a “conquistar o continente”.

Dezesseis anos depois, as expectativas são as melhores possíveis. A equipe manteve a base e vem deixando boa impressão na pré-temporada, onde se sagrou vice-campeã da Vodacom Challenge perdendo para o Tottenham na final, mesmo com apenas 15 dias sob o comando do novo treinador. O discurso de Leal em sua chegada correspondeu exatamente ao que a diretoria espera: fazer com que a equipe não abra mão de jogar um futebol vistoso e, num trabalho de longo prazo, recolocar o clube entre os grandes do continente. E a sombra de Krol parece não incomodar o brasileiro, que exigiu uma cláusula de desempenho em seu contrato. Uma jogada de mestre da diretoria do Pirates? Só o tempo vai dizer.

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Equipe Trivela

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