África

Uma história alternativa para se acompanhar: A transferência de Enzo Zidane ao Wydad Casablanca

A carreira de Enzo Zidane não decolou. O primogênito de Zinedine acompanhou o pai, da Juventus ao Real Madrid na base, e passou mais de uma década sendo lapidado pelos merengues. Meia como o progenitor, teve certo destaque com o Castilla, mas não viu sua carreira engrenar quando deixou o clube. Pouco atuou no Alavés, foi discreto no Lausanne Sports e no Rayo Majadahonda. Já na temporada passada, rodou por Deportivo das Aves e Almería sem emplacar. Aos 25 anos, Enzo mudará de clube mais uma vez nesta janela. E será interessante ver seu casamento com o Wydad Casablanca, gigante de Marrocos. O negócio não foi oficializado, embora anunciado pelo ex-lateral Roberto Carlos, agente do jogador.

Por vias tortas, Enzo Zidane se aproxima das raízes familiares. O garoto é descendente de argelinos e segue para um dos clubes mais importantes do Magrebe. Num futebol de menor qualidade técnica, talvez prevaleça como nos tempos de Castilla, quando parecia ter bola para uma carreira ao menos mediana. Não encontrará as benesses do futebol europeu e está claro como o sobrenome pode servir de desconfiança ao seu futebol. Mas ser idolatrado por uma das torcidas mais apaixonadas do mundo é algo incomparável.

O Wydad acumula 20 títulos no Campeonato Marroquino, maior vencedor da Botola, acima mesmo do rival Raja Casablanca. O clube ocupa a segunda colocação na liga nacional 2019/20, retomada agora em setembro, com mais cinco rodadas pela frente. Além disso, os bicampeões continentais haviam se classificado às semifinais da atual Liga dos Campeões da África, na qual encararão o Al Ahly. Enzo chegará em uma equipe para deixar boa impressão logo de cara, especialmente se provar sua qualidade.

Pelas condições de sua família, Enzo Zidane já poderia ter largado o futebol. Ser filho de Zizou (e ainda levar um nome que homenageia Francescoli) certamente gera um repetitivo discurso de comparação ao meia. Viver com a riqueza construída pelo pai seria muito mais fácil que se submeter ao esforço diário da vida de atleta e à inútil constatação de que o filho não chegará ao patamar de Zinedine. Seguir em frente, em compensação, demonstra como Enzo coloca o ambiente do futebol e o gosto do dia a dia acima de sua vaidade. Seria legal ver o sucesso do jovem, mesmo que mais modesto do que se imaginaria.

Vestir a camisa de um dos maiores clubes da África, então, tira Enzo Zidane de qualquer zona de conforto. Vai conviver com a pressão por títulos e com o calor de uma torcida imensa, que costuma estremecer as arquibancadas. A exigência será como a feita a qualquer jogador – e, embora o sobrenome provoque simpatia, também traz consigo toda uma carga. Emplacar nos alvirrubros e ganhar a idolatria, em compensação, mostrará a Enzo como toda essa caminhada valeu a pena.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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