África

Um sopro de esperança

Ao aceitar o convite para dirigir a seleção egípcia, Bob Bradley sabia que seu maior desafio não seria conquistar resultados imediatos ou achar a convocação ideal em um primeiro momento. Não que estas não sejam algumas das obrigações do treinador, mas acima de tudo, seria imprescindível mostrar comprometimento e se envolver com o novo desafio. O futebol africano possui uma realidade muito peculiar, e muitos dos treinadores europeus e americanos que se aventuram no continente não entendem esse fator e só se fazem presentes em dias de treinos ou jogos. Bradley sabia que precisava sair de sua “zona de conforto” para triunfar. Em pouco mais de cinco meses, a qualidade do trabalho do norte-americano é notável.

Bradley assumiu uma seleção em cacos. Em que pese o título da Copa Africana em 2010, a ausência na última Copa do Mundo (o Egito não disputa um Mundial desde 1990) e o vexame nas eliminatórias para a CAN 2012 eram o retrato da equipe comandada por Hassan Shehata, que perdeu o emprego. Não obstante, o treinador se via obrigado a renovar uma seleção que ainda vivia da experiência de jogadores como Aboutrika, Mido e Zaki.

Foi então que Bradley arregaçou as mangas e decidiu viver uma nova realidade. Mesmo diante do caos que vive o Egito, em situação política delicadíssima, o treinador foi morar no país ao lado da esposa e inclusive marchou com manifestantes em protesto ao massacre em Port Said. Adaptar-se à cultura local tem sido a chave de seu trabalho. Antes da paralisação do Campeonato Egípcio, o norte-americano foi a diversos estádios acompanhar os principais clubes do país – no dia da tragédia em Port Said, inclusive, Bradley acompanhava Zamalek x Ismaily, que acabou suspenso no intervalo.

Tanta dedicação permitiu ao treinador encontrar vários nomes que pudessem acelerar o processo de rejuvenescimento da equipe. O primeiro passo foi dado ainda no ano passado, em amistoso contra o Brasil, mesmo com a derrota por 2 a 0. Na última segunda-feira, Bradley teve seu segundo compromisso à frente dos faraós: enfrentar o Quênia Sub-23. Fácil? Não para quem não pôde contar com jogadores atuando na Europa ou no Al-Ahly. Ainda assim, uma vitória convincente por 5 a 0. Pode parecer pouco, mas para os egípcios, significou um enorme progresso.

A “nova” seleção egípcia tem a “cara” do novo comandante. Uma equipe jovem, leve e com um sistema tático muito bem definido. Bradley apostou em um 4-2-3-1, com Ahmed Mekki, do Haras El Hedood (líder do “Egipcião”), como referência na frente. E mesmo com nomes conhecidos como El Hadary, Hosni Abd Rabo ou o interminável Ahmed Hassan, ninguém roubou o protagonismo do jovem atacante Mohamed Salah, do Arab Contractors e que disputou o Mundial Sub-20. Em sua estreia na seleção principal, um gol e um pênalti sofrido. O lateral-direito Bassem Ali, companheiro de time de Salah e outra descoberta de Bradley, também foi muitíssimo elogiado.

Nesta terça-feira o Egito voltou a entrar em campo, desta vez com a seleção olímpica. Apesar da derrota por 3 a 1 para a Espanha Sub-23, os faraós foram para o intervalo vencendo por 1 a 0 e colocaram bola na trave da poderosa seleção da Fúria, que contou com Oriol Romeu, Isaac Cuenca, Adrián e outras estrelas. O atacante Marvan Mohsen, autor do gol, o meia Shehab Ahmed, do Al-Ahly (e que deu a assistência), além de Hegazy e Gomaa, que disputaram o Mundial Sub-20, tiveram ótimas exibições.

Diante das turbulências, parece inacreditável que hoje o Egito tenha duas seleções competitivas. Daqui par frente, tudo tende a ficar mais difícil com a inatividade dos jogadores, mas caso Bradley siga respeitando a cultura dos jogadores e incremente novos valores a esta seleção, é o nome mais do que certo para reconduzir o Egito a uma Copa do Mundo.

Curtas

– Deu zebra na Supercopa Africana. Favorito e jogando em casa, o Espérance, da Tunísia, foi derrotado pelo Maghreb de Fès, do Marrocos, que ficou com o título. No tempo normal, 1×1. Abourrazouk abriu o placar para o MAS, e aos 54 (!) do segundo tempo, o capitão Chemmam empatou para os tunisianos, que jogavam com um a menos – Traoui foi expulso.

– Nos pênaltis, os marroquinos venceram por 4 a 3, com Mohamed Diop convertendo a última cobrança. O trofeu da Supercopa não ia para o país desde 2000, quando o Raja Casablanca foi o campeão.

– Meia do Espérance e da seleção tunisiana, Oussama Darragi acertou com o Sion, da Suíça, para a próxima temporada. Darragi faturou o título de melhor jogador que atua na África em 2011 e disputou o último Mundial de Clubes e a CAN 2012. Ótima contratação.

– Polêmica da semana: o técnico Goran Stevanovic, de Gana, acusou os jogadores de, atenção, usarem BRUXARIA uns contra os outros. “Precisamos ajudar a mudar a mentalidade dos jogadores, que usaram magia negra para se destruírem uns aos outros, e temos de impor respeito”, disse o técnico, que também afirmou que jogadores experientes se sentiram desrespeitados pelos mais jovens.

– Segundo o ex-jogador Sarfo Gyami, que disputou a CAN de 1992, a prática de “bruxaria” sempre foi comum entre os jogadores, mas para se protegerem em busca de sorte. Kwesi Nyantakyi, presidente da Federação Ganesa, também disparou contra a desunião do grupo. Se a moda pega…

– Maior artilheiro e capitão de Botsuana, o veterano Dipsy Selolwane anunciou sua aposentadoria da seleção. “Estou honrado de fazer parte da geração classificada pela primeira vez para a CAN no nosso país”, disse o meia. Selolwane afirmou ainda que pretende continuar um projeto de desenvolvimento do futebol local, tirando proveito de sua experiência.

– O mais novo treinador vítima da CAN 2012 é Harouna Doula, de Níger. A Federação local, Fenifoot, anunciou que a decisão faz parte do processo para as eliminatórias pra CAN 2013 e Copa de 2014, assim desfazendo-se de toda a comissão técnica. Em junho, Níger encara Gabão pela rodada inicial das eliminatórias para o Mundial no Brasil.

– Pela segunda vez desde a sua “desaposentadoria”, Adebayor foi convocado para a seleção de Togo. A equipe comandada por Didier Six visita o Quênia no dia 29, em Nairobi.

– Bob Bradley, técnico da seleção egípcia, disse que tentará convencer Mohamed Barakat a desistir de sua aposentadoria. O meia de 35 anos do Al Ahly disse que penduraria as chuteiras após o massacre vivido em Port Said, tal como fez Aboutrika.

– Pivô de uma enorme polêmica envolvendo sua naturalização, Herve Zengué, de Burkina Faso, voltou a ser convocado para a seleção nacional. Nascido em Camarões, o lateral foi incluído pelo técnico interino Moctar Barro na convocatória da equipe burquinense que encara o Marrocos no dia 29.

– De acordo com o site Afrik11, a África do Sul, sede da CAN 2013, também será palco de um torneio amistoso sub-20 em abril deste ano. Especula-se que participarão oito seleções: a anfitriã, Gana, Nigéria, Camarões, Egito, Japão, Argentina e Brasil.

– Cada vez menos líder. O FUS Rabat, grande surpresa do Campeonato Marroquino, empatou com o El Jadida em 1 a 1 e viu sua vantagem para o segundo colocado, Moghreb Tétouan, diminuir pra quatro pontos. O Raja Casablanca empatou com o CR Hoceima sem gols, enquanto o Wydad Casablanca goleou o Khouribga por 3 a 0 e subiu pra 4º.

– Na Tunísia, o líder Bizertin goleou o Gabes por 3 a 0 e abriu quatro pontos de vantagem para o vice-líder Marsa. Na Premier Soccer League (Campeonato Sul-Africano), o Sundowns empatou com o Swallows em 2 a 2 e se manteve na ponta da tabela, com 36 pontos.

– O Kaizer Chiefs empatou com o Bidvest Wits em 1 a 1 e ficou nos 33, agora empatado com o Orlando Pirates, que bateu o Maritzburg por 1 a 0 com gol do folclórico McCarthy. O SuperSport, outrora líder, perdeu em casa para o Platinum Stars e estacionou nos 32 pontos.

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Equipe Trivela

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